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Conforme pode-se verificar na revisão da literatura a respeito de afasia, cérebro, linguagem e funções cognitivas, é impossível separar as funções linguísticas das demais funções neuropsicolinguísticas no que se refere à ativação cerebral. Desta forma, a avaliação e a reabilitação de pacientes com acometimento neurológico e consequente alteração de linguagem deve levar em consideração as funções cognitivas em geral. Sabe-se, no entanto, que há uma escassez de instrumentos neuropsicolinguísticos próprios para avaliar indivíduos afásicos tendo em conta também essas funções.

Internacionalmente, alguns instrumentos foram elaborados especificamente para avaliação das funções neuropsicolinguísticas em afásicos, como o Global Aphasic

Neuropsychologic Battery (GANBA - Van Mourik et al., 1992), o Cognitive Linguistic

Quick-Test (Helm-Estabrooks, 2001) e o Aphasia Check List (ACL – Kalbe et al.,

2005). Esses instrumentos não estão adaptados à língua portuguesa europeia ou brasileira.

Helm-Stabrooks e Albert (2004) citam o Mini-Mental State Exam (Folstein, Folstein e McHugh, 1975) como um teste de pouca validade para afásicos, visto que o paciente pode estar completamente orientado no tempo e espaço, porém não ser capaz de verbalizar ou escrever o dia ou o local em que está, em função de alterações linguísticas. Por outro lado, os mesmos autores sugerem que o teste de Matrizes Coloridas de Raven (Raven’s Coloured Progressive Matrices, Raven, 1995), teste

psicológico de avaliação de inteligência não verbal, pode ser utilizado nestes pacientes. Além deste, o subteste de Span Espacial do Weschsler Memory Scale-Third Edition (WMS-III – Weschsler, 1997) e o subteste de Cancelamento de Símbolos e Trail- Making Test do Cognitive Linguístic Quick Test (CLQT – Helm-Estabrooks, 2001) podem ser utilizados para avaliar a atenção; o subteste de memória de figuras do

Wechsler Memory Scale-Revised (Wechsler, 1974) e o subteste de memória visual do

Cognitive Linguístic Quick Test (CLQT – Helm-Estabrooks, 2001) para avaliar a

memória; e os subtestes de geração de desenhos e de resolução de labirinto (Cognitive

Linguistic Quick Test - Helm-Stabrooks, 2001) para avaliar funções executivas em

pacientes afásicos. (Helm-Stabrooks e Albert, 2004).

No Brasil não há instrumentos neuropsicolinguísticos criados ou adaptados especificamente para avaliar pacientes com restrições importantes na linguagem. A maioria dos testes neuropsicolinguísticos dependem de habilidades linguísticas, sendo, portanto, de difícil interpretação nesses casos.

Algumas pesquisas brasileiras que procuraram investigar as funções cognitivas em pacientes afásicos utilizaram testes variados, muitos ainda não validados no Brasil, necessitando, portanto, de grupos controle para adequada interpretação dos resultados. Podem citar-se as pesquisas mais atuais de Bonini (2010) e de Silva (2009), que procuraram investigar outras funções cognitivas para além da linguagem em afásicos.

Bonini (2010) utilizou os seguintes instrumentos para avaliação neuropsicolinguística dos pacientes: Protocolo de Praxias Gestuais (TBDA), Fluência verbal Semântica (animais) e Fonológica (FAS), Teste de Trilhas A e B, Teste de Cancelamento, Aprendizagem de palavras (CERAD), Aprendizagem de Figuras (BBRC-Edu), Praxias Construtivas (CERAD), Extensão de Dígitos (ED) e Desenho do Relógio (TDR). Outra pesquisadora, Silva (2009), investigou as funções executivas em pacientes afásicos através dos seguintes testes: Teste de Trilhas A e B (também

29 utilizado pela autora anterior), Teste dos Cinco Pontos, Teste dos Cubos de Corsi e os subtestes Código e Procurar Símbolos da Escala WAIS.

Em relação à avaliação das habilidades linguísticas, existem muitos testes padronizados para aplicação em afásicos, variando na sua complexidade e tamanho (tempo de aplicação), porém poucos brasileiros. Entre os testes internacionais, podem citar-se os seguintes: Bedside Evaluation Screening Test (West, Sands & Ross-Swain, 1998); Boston Assessment of Severe Aphasia (Helm-Estabrooks, Ramsberger, Moyan, & Nicholas, 1989); Boston Diagnostic Aphasia Examination (Goodglass, Kaplan & Weintraub, 1983); Aphasia Diagnostic Profiles (Helm-Stabrooks, 1992); Minnesota

Test for Differential Diagnosis of Aphasia (MTDDA – Schuell, 1973); Porch Index of

Communicative Ability (PICA – Porch, 1967); Western Aphasia Battery (WAB –

Kertesz, 1982); Token Test (Fontanari, 1989; Moreira et al., 2011); Boston Naming Test (Kaplan & Goodglass, 1983); Teste de Avaliação das Afasias Montreal-Toulouse MT- 86 modificado – versão para pesquisa (Lecours, Nespoulous & Parente, 1986);

Narrative Story Cards (Helm-Estabrooks & Nicholas, 2003), entre outros.

Segundo Parente, Salles e Fonseca (2008), de entre as baterias completas mais difundidas que verificam funções perceptivas de linguagem, memória, atenção, raciocínio, solução de problemas entre outros, encontram-se a Bateria de Western (Kertesz, 1982), Bateria de Luria-Christensen (Romanelli et al., 1999) e Bateria de Barcelona (Peña-Casanova, 1987). De entre os instrumentos utilizados para avaliação específica da linguagem e comunicação, encontramos na literatura os seguintes: o Teste de Boston para Diagnóstico das Afasia (Goodglass, Kaplan & Weintraub, 1983), o Teste de Avaliação das Afasias Montreal-Toulouse MT-86 modificado – versão para pesquisa (Lecours, Nespoulous & Parente, 1986), a Baterial Montreal de Avaliação da Comunicação (Fonseca et al., 2008).

Em Portugal, encontra-se a BAAL (Bateria de Avaliação da Afasia de Lisboa) (Castro Caldas, 1979) e a PALPA-P (Provas de Avaliação da Linguagem e da Afasia em Português) (Castro et al., 2007). A última possui 60 provas psicolinguísticas que avaliam, por exemplo, a nomeação de imagens, a discriminação auditiva, a repetição e a compreensão de palavras e de frases, a amplitude de memória, o conhecimento das letras/grafemas, a consciência fonológica, a leitura em voz alta e a escrita por ditado.

Outro instrumento também utilizado em Portugal é a PAL-PORT (Bateria de Avaliação Psicolinguística das Afasias e de outras Perturbações da Linguagem para a População Portuguesa) (Festas et al, 2006). Avalia os níveis lexical (fonémico e semântico), morfológico e frásico, nas variantes escrita e auditiva do código linguístico, em tarefas de compreensão e de produção. Além disso, verifica também o processamento discursivo e prosódico.

Quanto aos testes brasileiros que avaliam habilidades linguísticas em pacientes afásicos, atualmente encontramos apenas o Teste de Reabilitação das Afasias Rio de Janeiro (Jakubovicz, 1996) e a Bateria Montreal de Avaliação da Comunicação (MAC - Fonseca et al., 2008), uma bateria originalmente canadense, adaptada para a população brasileira, citada anteriormente. Existe ainda a versão traduzida, não adaptada para população brasileira, do Teste de Boston para Diagnóstico das Afasias Reduzido (Boston Diagnostic Aphasia Examination Test Short Form – Goodglass, Kaplan e Barresi, 2001) publicada na dissertação de mestrado de Bonini (2010).

Percebe-se, assim, uma lacuna importante no que se refere a instrumentos de avaliação neuropsicolinguística específicos para afásicos na língua portuguesa, ou adaptados para as populações brasileira ou portuguesa, havendo a necessidade de mais estudos e pesquisas para o desenvolvimento dos mesmos. A avaliação neuropsicolinguística é, efetivamente e como já atrás mencionado, de extrema importância para o adequado diagnóstico do tipo de afasia, para o planejamento do tratamento e para a verificação da eficácia terapêutica da técnica de reabilitação utilizada para cada caso tratado.

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