• No results found

P-values and Least Square Means for NDVI, MTCI, PH, NDVI ×

4.2 Statistical Analysis

4.2.3 P-values and Least Square Means for NDVI, MTCI, PH, NDVI ×

O sertanejo do qual tratamos aqui, não se refere àquele estereótipo trazido nas grandes obras literárias que versam sobre o sertão, representado geralmente pela figura do vaqueiro, do agricultor ou do coronel valente; mas sim de homens com acesso à todas as modernidades e tecnologias presentes na sociedade.

Diante às múltiplas facetas que se apresentam a masculinidade nordestina, tratamos aqui da figura do agroboy, sendo este configurado pela mistura do playboy – o modelo americanizado do homem jovem (e sempre em busca de mais juventude), moderno, com acesso às várias tecnologias, vaidoso, que de acordo com o padrão burguês, exerce seu poder por símbolos de dominação ligados à bens materiais – somado à características marcadamente rurais (agro) ligadas a exacerbação da “macheza”, das práticas do homem do campo, que possui plantios de terras, animais produtores e que se destaca pela sua bravura, honradez e demonstração de um poderio de prestígio, honra e dinheiro.

Nas palavras de Durval Muniz Albuquerque Júnior (2013), ao escrever sobre a masculinidade dos anos 1920 à 1940, o nordestino é representado por uma figura que atualiza várias imagens e se diz através de vários enunciados que o definem como o sertanejo, o brejeiro, o praieiro, de acordo com as ocupações dos espaços geográficos. Em nosso estudo, buscando trazer uma identidade regional local, apresentamos uma categoria que representa a cultura, a economia e o espaço de um povo do interior nordestino, numa época em que a

tecnologia, a virtualidade com sua nova formatação das relações humanas e todas as modernidades são acessíveis ao homem nordestino. O autor, tratando da construção da identidade masculina do nordestino afirma:

Embora o discurso da identidade regional opere com a lógica da semelhança, unificando experiências, construindo uma ideia de essência regional, para fazer isso trabalha com uma multiplicidade de elementos, com um conjunto de signos, experiências, práticas e discursos que se tornam parte de um todo, que convergem para a criação de uma imagem homogênea do que seria característico para a região. Este discurso de identidade regional, oscila, pois, entre o uno e o múltiplo. A masculinidade é apenas um elemento constitutivo da identidade regional nordestina, mas é fundamental na construção de uma figura homogênea e característica que se chamará de nordestino (ALBUQUERQUE JR. 2013, p. 23).

Na esfera do município de Iguatu, o homem que se destaca em sua “masculinidade” tem a si atribuído inúmeros símbolos de dominação, dentre eles, posses urbanas e agrícolas, a utilização de um veículo com carroceria e um grande “paredão” de som, com a chave sempre à mostra; o uso de roupas e produtos cosméticos de famosas marcas nacionais e internacionais; a prática de esportes de luta; a habitualidade da presença em grandes eventos com bandas de forró; a garrafa de uísque (importado) com energético na mesa; e sempre rodeado de mulheres, que geralmente obedecem aos padrões estéticos postos. Esse é o novo modelo do sertanejo que se apresenta no interior do Ceará, o agroboy, que se apodera de um poder, marcadamente simbólico, para dominar.

Albuquerque Júnior (2013) associa o fenômeno da junção das práticas sitianas incorporadas às atividades urbanas, algumas de cunho refinado, à predominância progressiva da sociabilidade urbana sobre a rural, progresso este que ocorre desde a segunda metade do século XIX e substitui, entre as elites e, em especial, entre os homens, formas rústicas e pouco civilizadas de se comportar, de se vestir e de se falar (p. 45).

Bourdieu (2002) aponta que a socialização dos homens de modelo dominante (de subjugação das mulheres e de outros homens posicionados em escalas inferiores de hierarquia social) produz interfaces com privilégios materiais, culturais e simbólicos, conforme se denota na construção social do modelo do agroboy.

Insta salientar, que não generalizamos aqui, ao apresentar a figura do agroboy, os homens residentes no município de Iguatu; inclusive sujeitos de nossa pesquisa, não se enquadram na classificação acima posta, principalmente pelo fato de que a figura que acabamos de apresentar possui uma posição de privilégio social, das classes mais abastadas; no entanto, o modelo descrito do agroboy, é o predominantemente almejado pela grande

maioria dos homens (em especial dos mais jovens) que compõem a população masculina do município.

Em nosso estudo, os homens que agridem suas companheiras, na sua grande maioria, fogem ao estereótipo acima narrado, uma vez que em 56,6% os acusados possuem profissões que caracteristicamente possuem baixos salários, o que impede, socialmente, a representação deste homem de posses e símbolos de dominação.

Para além dos dados estatísticos apresentados, na observação participativa da pesquisadora, restou denotado que no cotidiano da cidade existe a presença de fatos, os quais são comuns às sociedades com traço cultural do patriarcalismo, mas que por vezes são imperceptíveis aos olhos dos menos atentos, que demonstram a representação do poderio masculino, influenciados pelo permanente culto a hierarquia partriarcal. O garçom que só entrega a conta ao homem da mesa; o número mínimo de mulheres que dirigem quando estão acompanhadas de homens; a maioria expressiva de homens na política, no setor bancário, na gestão das grandes empresas e indústrias, bem como na ocupação de diversos cargos de liderança; a forte influência social da Maçonaria e do Rotary (associações predominantemente masculinas); dentre tantos outros fatos, caracterizam a diferença existente sobre a representação do papel do masculino e do feminino na sociedade iguatuense.

Outro fator marcante é o patriarcalismo como forma de reconhecimento do sujeito. No município de Iguatu, é a filiação paterna que, muitas vezes, define socialmente o caráter, a classe social e os valores morais atribuídos a determinado indivíduo. Albuquerque Júnior (2013) explica tal fenômeno, definindo a família brasileira, como patriarcal, na qual os seus ínúmeros membros estão submetidos ao poder absoluto do chefe do clã, que é ao mesmo tempo marido, pai e patriarca. Para o autor, o conceito de família patriarcal enfatiza em demasiado a submissão feminina (p.125). Entre o povo do município, o legado da “herança” do nome de família paterno é mais importante do que a construção da identidade pessoal do sujeito.

Com homens e mulheres que praticam e reproduzem uma cultura que diferencia o tratamento dos indivíduos de acordo com seu gênero, temos em Iguatu uma sociedade marcadamente machista, na qual abertamente se é aceito o modelo discriminatório posto.

É com esse modelo apresentado de homem que vive no centro-sul cearense, que daremos continuidade ao nosso estudo que se segue trazendo elementos teóricos e práticos da dominação masculina e seus símbolos, que contribuem para a validação da violência conjugal, no município de Iguatu – Ceará.