São dez as características atribuídas ao indivíduo empreendedor segundo o Empretec. Elas condensam a personalidade do empreendedor, ou em termos sociológicos, valores sociais a serem seguidos. Este conjunto de características quando incorporadas se tornam disposições adquiridas por indivíduos ou grupos ao longo de experiências práticas. Disposições estas que são guias para práticas futuras, portanto, não são características inatas, mas sim, produzidas e reproduzidas na prática. Esta ética pode vir a tornar-se o habitus de alguns grupos.
A proposta do consultor do Empretec nesta palestra é introjetar estas disposições nos professores universitários, pois eles são “estrelas” que trabalham na formação de uma “constelação”. Pela educação, ao menos em parte, este habitus empreendedor seria formado. Os princípios valorativos são transmitidos na intenção deliberada de que sejam guias para as ações ascéticas no mundo profissional e dos negócios.
Tem três conjuntos de competências que tem que ser desenvolvidas. O primeiro conjunto é de realização, um conjunto de planejamento e um conjunto de poder. Nós chamamos de competências da personalidade empreendedora.
A primeira delas, a busca por oportunidades de negócios. Lembra do garoto do filme [Central do Brasil], ele vê a oportunidade, mas ele não só vê, ele age. Na disciplina de empreendedorismo e em outras matérias o professor vai ajudar o aluno a entender o mercado, isso vai ajudar em pesquisa e em diversas outras matérias. É estimulante esse processo de ver o mercado de uma forma diferente.
Uma segunda competência a ser trabalhada é correr riscos calculados. Achou a oportunidade e vai agir sobre ela. Pode sim ter risco e sempre vai ter risco. A oportunidade que você vai se lançar é do tamanho da sua perna, dos seus recursos, das suas competências, das suas informações ou você precisa ir buscar, preparar para trabalhar essas oportunidades.
Uma terceira competência a ser trabalhada é a de qualidade e eficiência. Tem que desenvolver um processo eficiente porque se não for eficiente eu estou fora do mercado.
Surge uma quarta competência, a persistência. E essa competência tem uma irmã gêmea siamesa que é o comprometimento. Esse projeto não vai ser fácil, mas eu tenho que persistir nos desafios, nas dificuldades. E a gente sabe que a persistência é muito remota hoje nos jovens, a primeira dificuldade eles desistem. Nessa disciplina a gente trabalha muito a persistência o que vai favorecer uma musculatura que vai favorecer
em outras disciplinas. e o comprometimento é a palavra dada, uma vez que você se compromete com um projeto, uma equipe, um professor isso lhe é cobrado ou então não se comprometa porque é uma responsabilidade muito forte. Esse foi o conjunto da realização, essas competências fazem com que os alunos busquem maiores realizações nos seus projetos, na sua vida particular, nas suas atividades profissionais.
Aí tem um conjunto que vai dar sustentação a essas competências que são o estabelecimento de metas. Eu gosto muito dessa foto porque tem muito aluno que chega hoje na universidade sem metas. Você pergunta: Porque você fez esse curso? Sei não, meu pai que quis, meu pai é engenheiro.
Todo o processo na disciplina de empreendedorismo é estimular a busca de informação e não entregar. Ele tem que ser o agente pra dar valor aquela informação. Ele começa a desenvolver uma competência fantástica de monitorar os seus dados, de planejar.
Há também o conjunto de poder que é trabalhado a partir de 2 competências: a persuasão e as redes de contato. O aluno entende que a rede de contatos é fundamental na vida profissional dele. Saber vender a sua idéia.
O que faz com que pessoas de atividades e classes sociais diferentes sejam identificadas (e mesmo se identifiquem), isto é, sejam nomeadas pelo mesmo termo, é compartilhar de um mesmo sistema de valores e, por vezes, de mesmas disposições práticas identificadas como empreendedoras.
O que foi chamado de “competências da personalidade empreendedora”, em termos sociológicos são disposições interiorizadas contidas nesta noção de indivíduo. Mesmo não sendo capaz de construir um grupo coeso a partir dessa percepção, tem-se um grupo latente (no sentido de Douglas), pois convenções culturais são compartilhadas e podem vir a dar, em algumas situações, em ações coletivas com coesão grupal.
Relembrando o trabalho de Pedroso Neto, já citado anteriormente, assim como os rituais, o que foi descrito aqui é um mecanismo de coesão e difusão de um sistema de valores cuja lógica está na relação do indivíduo com os recursos e motivos para a ação econômica, o que configura o habitus empreendedor. Ao mesmo tempo, difunde-se uma crença que legitima e garante a adesão ao capitalismo.
Para dar exemplos, grupos de empretecos espalhados por todo o Brasil se formam em comunidades do Orkut, em sites criados por empretecos e têm como objetivo trocar informações econômicas e também identitárias, pois também trocam conselhos entre si, por exemplo, sobre livros e filmes. Já foi criada a Associação de Empreendedores Empretecos de São Paulo (AEESP) tendo sido originada por empretecos independentemente do SEBRAE e já conta com 2.150 associados.
Tanto no caso da Amway, quanto no Empretec, é a empresa ou organização que tem o poder legítimo de nomeação de indivíduos, criando distinções dentro de um grupo.
Ou, no caso do SEBRAE, criando o próprio grupo (que não sendo coeso e bem delimitado) existe enquanto um grupo latente por compartilharem dos mesmos valores.
De um modo geral, os mecanismos para isso podem ser diversos em diferentes organizações. Mas, comumente, incorporam práticas e produtos já existentes ao invés de produzir seus próprios meios ou rituais. López-Ruiz também apontou a presença de gurus, livros de auto-ajuda, palestras, treinamentos, revistas, vídeos, etc. enfim, um conjunto de atores e produtos que difundem as boas práticas econômicas e configuram o que poderia ser chamado de um “mercado de conselhos” a ser melhor explorado por outras pesquisas.