• No results found

P ROFESJONSIDENTITET OG ORGANISASJONSKULTUR SOM MOTIVASJONSKOMPONENTER

Para a renovação, no entanto, o professor passa a caracterizar-se de um modo diferente. De acordo com o nosso corpus de análise, pudemos constatar o seguinte delineamento.

fadadas. A escola era vista tradicionalmente como uma prisão, a sala de aula como um hospital e a aula como uma pílula amarga ou medicamento de gosto horrível”.

Em ambas as obras de Arthur Ramos são enfatizadas as mesmas ideias chave. Em Ramos (1934) aponta-se que o professor, na pedagogia anterior como autoridade e um dos principais agentes que infligem à criança os problemas de personalidade, por via do sadismo. E, em Ramos (1939) atribui-se ao professor tradicional os limites na rígida disciplina e nos castigos aplicados de modo sádico. Para Ramos (1939), o professor seria responsável, devido ao caráter imitativo da criança, a concorrer com os traços de personalidade infantil e por isso deveria atentar-se para o seu comportamento.

Por outro lado, a pedagogia moderna permitiria visualizar o professor como um guia oculto do processo educativo, bem como um agente na intervenção na prática psicanalítica aplicada a educação (pedanálise), isto é, “O mestre não é mais do que um guia, mas um guia tão escondido que a creança não tem a impressão de ser conduzida” (RAMOS, 1934, p.13). Nesse sentido, para Ramos (1939, p.450)

Em vez da aplicação da disciplina clássica: recompensa-castigo, que não resolve a situação (já o analisamos largamente nos capítulos da criança mimada e escorraçada), o educador orientará o rendimento escolar da criança e conseguirá a correção dos problemas de comportamento, por uma escola de interesse afetivo, em que intervirá com a sua personalidade total. A criança registra, como uma acuidade insuspeita, as menores reações de afeto, positivo ou negativo, manifestadas pelo seu professor. E conseguida a transferência, tudo fará para não desagradá-lo.

Para que o professor estivesse habilitado dentro da pedanálise, tornar-se-ia necessário que o próprio professor realizasse um tratamento de cunho psicanalítico para eliminar os seus próprios traumas e, então, evitar reproduzi-los, além de reconhecer e auxiliar os alunos que apresentem esses traumas. Nesse âmbito, a preparação psicanalítica do professor promoveria a sua compreensão da alma infantil:

O mestre deve sempre investigar o sentimento de inferioridade reforçado nos cinco primeiros annos de vida, o defeituoso sentimento de communidade, a falta de valor, a busca de provas mais fortes da superioridade, o espanto deante dos novos problemas, a tendência ao alheiamento, a busca de facilidades apparentes na parte útil da vida, com o fito de conseguir a creança, ssim, uma apparencia de superioridade e não um domínio das difficuldades (RAMOS, 1934, p. 60).

Assim, em Ramos (1939) o novo estatuto do professor seria o de compreender melhor a criança e auxiliar a educação dos pais. De outro modo, podemos destacar o seguinte trecho do autor:

O papel fundamental da professora, como temos de repetir tantas vezes neste trabalho, será o de se superpor aos pais sádicos, principalmente à mãe madrasta que não compreende os problemas do seu filho. A professora conseguirá da criança a “transferência afetiva” e dará asssim uma compensação a uma alma órfã de afeto. A

compreensão afetiva da criança, é o primeiro passo para a correção educativa (RAMOS, 1939, p. 157-158).

Em Ricardo (1936a, 1936b) visualiza-se um duplo papel atribuído ao professor, ou seja, o da sua contribuição para o desenvolvimento do psiquismo infantil e o da importância do seu trabalho para o processo de “civilizar”, que estaria além dos aspectos biológicos e afetivos, ou seja, no sentido de orientar a criança para uma nova postura social a partir da tensão entre o velho e novo.

Nesse âmbito, de acordo com Ricardo (1936a), o processo deveria promover os hábitos de higiene ao mesmo tempo em que provia o sentido patriótico:

Torna-se necessário que o professor, pesando as circumstancias que o cercam e medindo os infortúnios que nos assoberbam, collabore em prol dos bons hábitos de hygiene, mais por amor dos alumnos do que por dever de officio. Não se limitando em explicar, mas corrigindo immediatamente as infracções verificadas, ou de que tiver noticia, terá o professor iniciado a realização vitoriosa de um systema superior de preservação da saúde e de defesa patriótica do nosso legado physico (RICARDO, 1936a, p.110)

Ou ainda

O professor, para logo se revelou na sua destinação e o que modernamente é – um valioso traço de união entre o homem e a civilização contemporânea, um estimulador permanente da creança em lucta incessante para conduzil-a á sociedade e para approximal-a da civilização conquistada – só não o foi na antiguidade por ausência de conhecimentos bio-sociológicos (RICARDO, 1936a, p.119)

Assim, munido do saber biológico e sociológico, o professor operaria uma obra ao mesmo tempo pedagógica e civilizatória, cultuando o nacionalismo, em conformidade com a passagem:

Não ensinará latim, nem grego, nem hebraico, ou melhor, não se exaltará porque os ensine melhor do que outros. Orientará o alumno, abrir-lhe-a os olhos bem cedo, fazendo-o dar de rosto com as realidades do seu tempo. Ensinará a língua, mas não olvidará a sua funcção social; ensinará tabuada, sem jamais esquecer que acima da tabuada esta o sentimento do amor á Patria. Não fará da escola apenas um laboratório de pedagogia scientifica, mas antes de tudo e sobretudo um laboratório de pedagogia nacionalista, um centro de civismo, onde apprenderá a luctar e a vencer pelo desenvolvimento das actividades geraes e dos interesses espontâneos, onde apprendera a amar o paiz pelo culto das ideas, pela defesa das tradições e pela conservação do patrimônio que nos coube desde o alvorecer do torrão natal (RICARDO, 1936a, p. 119-120)

Para o professor desempenhar esse duplo papel, na visão de Ricardo (1936b), este deveria apresentar-se, ao mesmo tempo, como um técnico do saber (transmissão) e servir como um modelo para a criança. O saber técnico do professor pode ser compreendido nos seguintes termos:

O professor não deve ser, de conseguinte, um mero receptor de idéas; será, antes de mais nada, um technico. E não será um bom mestre, e não será um bom technico aquelle que, embora conhecendo as matérias em estudo, não conhecer a creança atravez do seu temperamento, das suas tendências, das suas vocações naturaes. Será, mil vezes antes, um theorico; não um prático. Será talvez um perdulário de tempo e de idéas, mas não um coordenador de valores.

Acrescenta-se, ainda, a importância da alimentação do professor (além da alimentação do aluno). Almeida Junior (1964) apresenta as considerações sobre o professor no mesmo sentido apresentado por Ricardo (1936a, 1936b).

Os autores mineiros em Mello Teixeira et al. (1937) enfatizam o papel do professor como fundamental para a educação e os propósitos nela depositados nesse período.

Para Claparède (1965) cabe ao professor o cuidado e o interesse nos estudos da psicologia como chave para a renovação da educação. Também em Claparède (1950) observa- se que a atuação do professor deve estar em consonância com a concepção funcional de educação e de psicologia:

Seu tratado da educação é, do começo ao fim, de inspiração inteiramente funcionalista. O papel do educador deve ser o de pôr a criança em condições de exercer as funções no momento em que a hora de seu aparecimento soou o relógio da natureza. Quase sempre, a criança sente-se inclinada a exercê-la espontâneamente e basta que não se He torne impossível o exercício, obrigando-a a fazer outros ou condenando-a à imobilidade; esse, o sentido profundo da “educação negativa” (CLAPARÈDE, 1950, p.86).

Caberia, ainda, ao professor, o conhecimento da moderna psicologia para melhor compreender a criança e a mais eficazmente promover o ensino:

Para saber quais são esses interesses naturais da criança, suscetíveis de ser explorados pelo educador, e como variam com a idade, é preciso observar muito a criança. A psicologia da criança mereceria ser mais cultivada pelos professores, que são exatamente as pessoas em melhores condições para colaborar com o psicólogo na edificação dessa ciência da criança, reconhecida como indispensável.... (CLAPARÈDE, 1950, p.151)

Em Czerny (1934) aponta-se a necessidade do professor em realizar um diagnóstico dos níveis de inteligência e normalidade da criança. Em Aguayo (1936) aponta-se a preponderância do uso das fichas individuais de aprendizagem para um melhor acompanhamento da aprendizagem da criança. Para Aguayo (1936) o professor tem um papel preponderante na aprendizagem.

De acordo com Aguayo (1936), o professor teria como missão “dirigir a aprendizagem” por meio das “atividades naturais do aluno”. Nesse caso, “A direção, a orientação e o estímulo, por parte do professor, são indispensáveis. O ensino serve, como diz o Professor BURTON, para utilizar o impulso natural de aprendizagem que surge no aluno e para despertar, estimular e dirigir o processo de aprendizagem” (AGUAYO, 1936, p. 9-10).

Ademais, caberia ao professor manter acesa a motivação na aprendizagem do aluno “O prazer e o agrado constituem, pois, fonte legítima de motivação escolar” (AGUAYO, 1936, p. 50) e, muito embora, nem todas as atividades precisassem apresentar-se como presente, seria indispensável “(...) procurar fazer que as reações infantis provocadas pelo trabalho escolar não sejam desagradáveis, confusas e monótonas” (AGUAYO, 1936, p. 50). Para Aguayo (1936) a motivação provocada pelo professor ainda:

Contribuem muito para suscitar o interesse e, em consequência, a atenção da criança, a personalidade e as atitudes mentais do professor. As atitudes e emoções são muito contagiosas. O professor entusiasta, alegre e animado costume ter alunos atentos e interessados. A primeira condição da aprendizagem interessante é que o professor reflita na atitude e nas atividades o grau suficiente de simpatia e de entusiasmo (AGUAYO, 1936, p. 61).

Dentro dessa perspectiva, o professor deve observar a criança ao longo de todo o processo de aprendizagem para melhor orientá-la, dentro dos princípios da educação ativa:

O mestre deve estar sempre alerta e vigilante para perceber os erros que as crianças possam cometer. A mesma vigilância há de exercê-la constantemente o aluno. Daí a importância que têm os testes ou exames dos produtos do aprendizado, as revisões e o traçado das curvas de aprendizagem. Esses processos permitem ao mestre e ao discípulo descobrir os erros cometidos e às vezes diagnosticar as causas que os produzem (AGUAYO, 1936, p. 116)

Essas representações apresentadas no corpus de análise permitem-nos compreender o papel do professor dentro do cenário de mudanças sociais, econômicas, culturais e educacionais, que também se altera, e o professor passa, então, no discurso pedagógico do período, a sair da sua representação de autoridade/autoritarismo para um papel mais próximo da criança, como um guia – às vezes oculto, para lembrarmos os escritos de Maria Montessori.

Conforme Depaepe, De Voedre, et al. (2000, p.36) “According to the traditional view teachers were also meant to be guides who would enable their pupils to explore pre- determined knowledge, of which the teacher was the sole sources (…)”62.

Assim, aparece no pensamento de Fernando de Azevedo a necessidade de remodelar a mentalidade do professor para uma nova formação do homem na sociedade moderna. Essa formação de professores surgia como premissa para toda e qualquer reforma do ensino: do primário ao ensino superior, passando pelo ensino secundário e técnico-profissioanal. Por isso, em suas reformas enquanto agente político, a reforma da escola normal sempre esteve presente; como enquanto agente intelectual, como escritor e como editor, procurou promover um espírito científico nos professores.

Dessa maneira, os títulos da série Atualidades Pedagógicas sempre contrapõem a visão do professor no ensino tradicional para uma nova visão, do professor como guia oculto no processo de ensino aprendizagem, observador do desenvolvimento da criança e das suas necessidades para promover o interesse/a curiosidade da criança. Atrelado a essa visão, o professor também seria responsável por ir além da instrução, ou seja, deveria educar as crianças para os novos hábitos e comportamentos para a sociedade moderna.

Como se pode verificar, há o interesse da contraposição como estratégia de reforçar a necessidade de superação de um modelo obsoleto na visão dos renovadores. Da mesma forma que os aspectos ligados a representação da escola e do professor e a concepção do ato de ensinar e de aprender também estavam respaldados nas ciências modernas como a biologia, a psicologia e a psicanálise. Essas necessidades de conhecimento importam frente a nova visão que se abre no horizonte a respeito da criança, como passamos a discutir.