A concepção de homem presente na perspectiva da Psicologia Sócio-Histórica é construída a partir de uma visão que nega as concepções idealistas do que seja o ser humano. Nega-se, portanto, o homem como um ser universal e abstrato, destituído de valores históricos, e se afirma na visão de que ele é um sujeito constituído histórica e culturalmente. É, portanto, um ser concreto – embora inconcluso e complexo. Inconcluso, porque seu desenvolvimento ocorre de modo contínuo e processual por toda a vida. Complexo, porque seu processo de desenvolvimento é histórica e culturalmente constituído. Assim sendo, não se reduz a uma determinação simplista de interação com o meio.
A definição de um homem constituído subjetivamente em sua própria história, em que o sentido aparece como registro emocional comprometido com os significados e as necessidades que vão desenvolvendo-se no decorrer de sua história, fazem da categoria sujeito uma peça-chave para entender os complexos processos de constituição subjetiva e de desenvolvimento, tanto dos processos sociais como individuais (González Rey, 2003, p. 235)8.
8 Algumas questões que aparecem nesta citação, como sentido, significado, emoção e necessidades, serão retomadas
A concepção de homem arraigada nos termos da Psicologia Sócio-Histórica supera a visão dicotômica acerca do ser humano, de modo que ele não se dilui nem no social nem no individual. Concebido a partir de sua atuação nos diferentes espaços sociais, o sujeito se constitui, ao mesmo tempo, como um ser que se revela tanto na dimensão social como na dimensão individual, sem que em nenhuma delas venha a se diluir.
Para a concepção sócio-histórica da Psicologia, o sujeito não se reduz às dimensões acima citadas. Ele é um ser complexo: uma síntese das múltiplas relações complexas estabelecidas nos espaços sociais em que atua, modificando e sendo modificado pelos elementos que constituem essas relações complexas.
A concepção sócio-histórica supera, portanto, a visão de homem estabelecida pelo liberalismo. Aqui entendido como o sistema de pensamento sobre o qual se erige o modo de produção capitalista, o liberalismo estabelece a idéia de que cada indivíduo, por ser “dotado de potencialidades, deve ser livre para desenvolvê-las” (Bock, 1999, p. 36).
Ainda hegemônico em suas idéias e práticas, o liberalismo compreende o homem como uma entidade auto-suficiente ante suas escolhas e decisões; por isso, defende a liberdade como um direito inalienável a todos os homens. Ao desconsiderar o mundo concreto, com sua história, cultura e contradições, o liberalismo imprime uma visão abstrata e reducionista do que seja o homem.
A Psicologia Sócio-Histórica está fundamentada, basicamente, na concepção de homem como um ser histórico-social. Assim, o ser humano não nasce formado ou possuindo uma essência pronta e imutável; ao contrário, ele se constrói como homem a partir das relações que estabelece com o meio e com os outros homens, num movimento dialético em que faz parte de uma totalidade e vai transformando-se em sua essência por um processo de complexificação e multideterminação (Rosa e Andriani, 2002, p. 272).
Para a Psicologia Sócio-Histórica, a essência do que seja o homem, isto é, a compreensão do que é seu comportamento, sua consciência, suas atitudes, a subjetividade que o constitui como humano, não pode ser definida de modo abstrato. Ao contrário, a essência humana se define pela concretude do mundo com o qual o sujeito se relaciona. “Deste modo, o homem é essencialmente um ser social. Há uma relação de mediação entre ele e a sociedade: o homem contém o social, mas não se dilui nele, e vice-versa” (Rosa e Andriani, 2002, p. 272).
A essência social que constitui o ser humano é histórica e se caracteriza, no processo de formação do indivíduo, pela apropriação e objetivação do conteúdo historicamente produzido e transmitido pela humanidade (Duarte, 1993).
Na medida em que cada ser humano é construído socialmente, na relação com a realidade e com os outros homens, ele se apropria também da história da humanidade; isto é, o homem não é construído apenas pelo meio social imediato, mas por todas as mediações nele contidas, pela história da humanidade e pela cultura que ele carrega. A atividade humana, por meio da qual o indivíduo desenvolve a consciência, envolve, pois, essencialmente uma apropriação da história (Rosa e Andriani, 2002, p. 273).
A respeito da relação entre objetivação e apropriação, com enfoque na questão da transformação das necessidades biológicas em necessidades sociais, e desta em novas necessidades, também sociais e humanas, portanto, históricas, falaremos mais adiante.
Retomando, ainda, a questão da essência humana9, convém destacar o pensamento de Saviani (2004) acerca das circunstâncias sociais e individuais na determinação do humano. Circunstâncias essas que, segundo o autor, devem ser apreendidas na dinamicidade de suas relações dialéticas. Nessa perspectiva, segundo Saviani (2004, p. 26), “em vez de pensar o problema segundo os cânones da lógica formal, que é a lógica da exclusão dos opostos, caberia
9 Entendemos, por essência humana, com base na perspectiva histórico-dialética, o conjunto das relações sociais que
pensá-lo em termos dialéticos, em que os pólos opostos não se excluem mas se incluem, determinando-se reciprocamente”.
Para a Pedagogia Histórico-Crítica, assim como para a Psicologia Sócio-Histórica, a determinação do humano não se reduz, portanto, a uma ou a outra circunstância (individual ou social). Sendo o humano um “ser ativo, social e histórico” (Aguiar, 2001, p. 100), sua estrutura psíquica caracteriza-se dialeticamente como um processo de objetivação e apropriação da história. Nesse processo, o homem, ao agir e transformar o meio no qual atua, transforma a si mesmo, objetivando-se / apropriando-se, dialeticamente, das características históricas da humanidade; características essas que são, ao mesmo tempo, singulares e universais.
Esse processo de apropriação não ocorre, entretanto, de modo direto e imediato. São as mediações presentes nos diferentes espaços sociais de atuação do sujeito que possibilitam o processo de apropriação da história. A mediação como processo constitutivo do humano será discutida oportunamente, ainda neste capítulo.