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P OSISJONERING AV KOMMUNENE

3. DIREKTE VIRKNINGER

3.2 P OSISJONERING AV KOMMUNENE

Se no Brasil do século X IX a leitura era rarefeita, para utilizar o título do livro de Marisa Lajolo e Regina Zilberman, essa escassez se fazia notar ainda mais entre as mulheres. Poucas eram as leitoras. E mesmo entre as classes mais abastadas, que tinham como padrão mandar os filhos varões para se tornarem doutores em Coimbra, havia uma tradição diferente quando se tratavam das moças: a elas cabia o destino mais prosaico de “administradoras do lar”. Segundo o cronista francês Charles d’Epilly, “uma mulher já seria o suficiente alfabetizada se soubesse ler receitas de goiabada; mais que isso seria perigoso”:

A elas não restava senão ocupar seus dias entre crianças, criadas, panelas e bordados. Vez por outra podiam ir a festas e freqüentar igrejas ou teatros. Nesse contexto, as revistas dirigidas ao público feminino vinham da França e traziam moldes, crônicas e poesias. Donas de casa que não dominavam a língua de Madame Sevigné – e, não raro, nem a de Eça de Queiroz – adquiriam esses periódicos e recorriam às costureiras france- sas para que traduzissem trechos em voz alta. Passavam, assim, as tardes entre a escolha de um modelo e a distração com poemas ou uma história edificante (EM PORIUM BRASILIS, 1999: 28).

Já entrado o século X X , o público letrado feminino não passaria de 20% da população (dado que é em parte posto em questão pela pesquisadora Barbara Heller, em seu estudo sobre a seção “Jardim Fechado”, da Revista Feminina, publicação iniciada em 1914: ver HELLER 2002). Se havia 80% de mulheres analfabetas no começo do século X X , como seria o quadro sessenta anos antes, em 1850? É certo que o público feminino já havia sido brindado com algumas publicações. Já nos referimos a O Espelho Diamantino - Periodico de Politica, Litteratura, Bellas Artes, Theatro e Modas, de 1827, “dedicado às senhoras brasileiras”, sem ser exatamente um periódico feminino, como hoje se entende essa

proposta. E ao Correio das Modas, jornal crítico e litterario das modas, bailes, theatros, de 1839, e de seu sucessor Novo Correio de Modas.

E as iniciativas voltadas para a criação de revistas destinadas à mulher aconteceram não apenas na Corte, mas também no interior do país. Foi o caso de O Espelho das

Brazileiras, lançado em 1831, já analisado no capítulo 2. Ainda no Recife, seguiram-se o

Jornal das Variedades (1835), o Relator de Novellas (1838) e o Espelho das Bellas (1841), com a epígrafe “Nada é belo, nada é amável, sem modéstia e sem virtude”.

Há, sem dúvida, uma atração pelo uso da palavra “espelho”: na Bahia aparece uma publicação semanal homônima: Espelho das Bellas, periodico litterario e recreativo, publicado pela Typographia do Gama, de Maragogipe, e que circulou entre novembro de 1860 e junho do ano seguinte. Ainda no Recife, em 1850 surgirá O Bello Sexo, periódico litterario e recreativo. Mensal, a revista, impressa por M.F. Faria, tem como redatores Antonio Witruvio Pinto Bandeira e Accioly Vasconcelos.

Todas essas revistas, no entanto, ainda que dirigidas às mulheres, eram escritas e pensadas por homens. Pois o jornalismo era profissão de homem. Apesar de as leitoras aos poucos constituírem um segmento em expansão, como conseqüência de algumas medidas que ao longo do Segundo Império estendem a instrução às meninas, as mulheres só ingressariam no mundo masculino do jornalismo no final do século X IX . Mas antes disso houve as precursoras que, descontentes com o papel e as funções sociais a elas reservadas, passaram a utilizar a imprensa, sobretudo as revistas, como instrumento de luta por sua emancipação.

Ainda que a causa feminista não tenha alcançado as proporções do movimento abolicionista, a atuação de mulheres como Nísia Floresta Brasileira Augusta, Narcisa Amália, Violante Atabalipa X imenes de Bivar e Velasco, Joanna Paula Manso de

Pinto deixou lastro. O fato é que em 1852 aparece a primeira revista destinada às mulheres e escrita por mulheres.

Na referência catalográfica da Biblioteca Nacional, a baiana Violante Atabalipa X imenes Bivar e Velasco aparece como a fundadora de O Jornal das Senhoras: modas, litteratura, bellas-artes, theatro e crítica, tendo como redatoras as jornalistas Joanna Paula Manso de Noronha e Cândida do Carmo Souza Menezes. Essa informação, no entanto, é motivo de controvérsia. Muitos autores atribuem à argentina Joanna Paula Manso de Noronha a criação do periódico, publicação semanal no formato 27x19 cm., lançado numa quinta-feira, dia 1º de janeiro de 1852 e que circulou até dezembro de 1855. De fato, o texto de apresentação do primeiro número vem assinado por Joanna. Mas também é certo que ela assinará quase sempre como “redactora em chefe”.

Nascida em 1819 na Argentina, Joanna teria vindo ao Brasil com a família, que fugia da perseguição política durante a ditadura de Juan Manuel Rosas. Segundo ela escrevia no primeiro número, O Jornal das Senhoras vinha “para propagar a ilustração e cooperar com todas as forças para o melhoramento social e para a emancipação moral da mulher”. Joanna teria se separado do marido brasileiro em 1853, voltando para a

Argentina, quando Violante Atabalipa (ou Ataliba, na versão da BN) teria assumido a direção do periódico2.

Filha de Diogo Soares da Silva Bivar (o redator do jornal pioneiro da Bahia, o Idade d’Ouro do Brazil, e da primeira “revista” nacional, As Variedades ou Ensaios de Literatura),

Violante X imenes Bivar e Velasco dirigiu O Jornal das Senhoras até 1855. Feminista convicta, casada com o tenente João Antônio Boaventura Velasco, já em seu tempo foi considerada como a primeira jornalista brasileira, por escritores e homens da imprensa como Joaquim Manuel de Macedo, Afonso Costa e Barros Vidal. Violante defendia a igualdade intelectual entre os sexos e fundou, em 1873, uma outra publicação, bastante semelhante ao O Jornal das Senhoras,O Domingo, que circulou de 22 de novembro de 1873 a 9 de maio de 1875.

A revista O Jornal das Senhoras, considerada a primeira publicação de “corte

feminino”, feita por mulheres e para mulheres, foi impressa inicialmente na Typographia Parisiense, depois na Typographia de Santos e Silva Junior, na Rua da Carioca nº 32 (é o que se lê na página final da edição de 4 de abril de 1852), passando depois a contar com os serviços da própria Typographia do Jornal das Senhoras. Trazia como subtítulo “Modas, Litteratura, Bellas-Artes, Theatros e Critica”, que muda a partir do terceiro ano para “Jornal da boa companhia”. Era semanal, com oito páginas, e saía com data de domingo (o primeiro número, com data de 1º de janeiro de 1852, circulou numa quinta- feira). Utilizou o sistema comum na época da numeração contínua. Costumava trazer brindes para as leitoras. Como escreve Joanna Paula Manso de Noronha na apresentação do número do domingo 4 de abril de 1952:

Á proporção que for augmentando o numero das nossas assignantes, continuadas me- lhoras iremos dando ao nosso jornal, mesmo neste trimestre, até o levarmos á perfei- ção que lhe desejamos. Para o mez de Julho principiaremos a dar tres figurinos por mez, uma pessa de musica, e moldes e riscos de bordados; é de esperar também que para esse tempo elle passe de oito paginas a ter doze cada número; trabalharemos enfim com todos os nossos esforços para que em breve o Jornal das Senhoras attinja o grao de perfeição que lhe compete junto das suas assignantes que o sustentão (PR SOR 02157 [1]).

Esse mesmo número da primeira semana de abril de 1852 termina com um aviso: “Acompanha a este numero um lindo figurino de baile: para o numero seguinte daremos um romance original, só para piano, de magnifico e melodioso effeito”.

No expediente, publicado no rodapé da última página, há os esclarecimentos:

Capítulo 4

“Publica-se todos os domingos: o primeiro numero de cada mez vae acompanhado de um lindo figurino de melhor tom em Paris, e os outros seguintes de um engraçado lundu ou terna modinha brasileira, romances francezes em musica, moldes e riscos de bordados”. O preço da assinatura por três meses: “3$000 rs na Côrte e 4$000 para as Provincias” (PR SOR 02157 [1]).

Visualmente a revista tem o logotipo trabalhado com arabescos e tipologias desenhadas, mas nenhuma imagem. O texto é distribuído em duas colunas, separadas com um fio fino. Utiliza o recurso, comum na época, de presentear as leitoras com lâminas em separado, no caso imagem ou desenho com informação de moda. Havia o problema técnico, até então, de imprimir imagem e texto simultaneamente: os textos são impressos na tipografia, as imagens em litografia. Uma página contendo ao mesmo tempo texto e ilustração era um desafio a ser resolvido quase duas décadas depois. Assim, revistas ilustradas como Mosquito, Semana Illustrada e a Revista Illustrada usarão o artifício da lâmina impressa em tipografia de um lado e litografia no outro, criando o modelo padrão seguido pelas semanais ilustradas da segunda metade do século X IX : as páginas 1, 4-5 e 8 com imagem, e as 2-3, 6-7 com texto, somando as oito páginas.

É assim que a “redactora em chefe” Joanna Paula apresenta o periódico, em seu primeiro número, no dia 1º de janeiro de 1852:

Redigir um jornal é para muitos litteratos o apogeo da suprema felicidade, já sou Redactor, esta frazezinha dita com seus botões faz crescer dous palmos a qualquer indivíduo. No circulo illustrado o Redactor é sempre recebido com certo prestigio de homem que em letra de imprensa póde dizer muita coisa, propicia ou fatal a alguem. [...] Ora pois, uma

Capa do nº 1 de O Jornal das Senhoras, uma revista para mulheres e escrita pelas primeiras redatoras brasileiras.

Capítulo 4

1850-1865

Senhora a testa da redacção de um jornal! Que bicho de sete cabeças será? Comtudo em França, em Inglaterra, nos Estados-Unidos, em Portugal mesmo, os exemplos abundão de Senhoras dedicadas á litteratura collaborando differentes jornaes [...] Ora! não póde ser. A sociedade do Rio de Janeiro principalmente, a Côrte e Capital do Imperio, Metropoli do sul d’America, acolherá de certo com satisfacção e sympatia O JORNALDAS SENHORAS

redigido por uma Senhora mesma: por uma americana que, senão possue talentos, pelo menos tem a vontade e o dezejo de propagar a illustração, e cooperar com todas as suas forças para o melhoramento social e para a emancipação moral da mulher” (PR SOR 02157 [1]).

Como se compunha um número regular da revista? A linguagem busca ser intimista. A leitora é o tempo todo tratada como “queridas leitoras”. Mas algumas introduções se tornam pesadas, pelo excesso de idas e vindas, de uma “certa frescura feminina” que enche linhas e não diz nada.

Vejamos a seguir o que a publicação oferece em um número, pagina a página. Tome-se como exemplo o número 14, que circulou no domingo 4 de abril, de 1852.

A primeira página, ou capa, é ocupada, na metade superior, pelo título e subtítulo da publicação e pela apresentação da redatora, na metade inferior. Esse texto, “Às nossas assignantes”, é assinado por Joanna Manso de Noronha.

A segunda página traz a seção de “Modas”, que ocupa quase totalmente as duas colunas. A “reportagem de moda”, não assinada, inicia com um texto um tanto errático, em que a redatora lembra das brincadeiras do 1º de abril, o dia da mentira. Meia coluna depois desse longo nariz-de-cera, ela entra no assunto: abril é o mês da estréia dos bailes, sendo o mais importante deles o Baile do Cassino. E para essa ocasião a publicação traz um figurino. A redatora deixa o tom repetitivo e etéreo e entra no tema dos bailes (e fala como se todas as suas leitoras vivessem e participassem da vida social do Rio de Janeiro, a “Corte”):

O primeiro [baile] que se nos apresenta é por certo o aristocratico e ostentoso Cassino; quantos olhares já não se terão voltado cheios de saudades, para esse recinto inebriante, do luxo, da elegancia e da belleza... quantos palpitantes corações não terão a esta hora já promettido uma ou duas contradanças – para o baile do Cassino... [...] É pois para este baile tentador que eu vos offereço o presente figurino, que nos chegou de Paris expressa- mente para este fim. Elle foi copiado com todo o esmero do próprio original que mais distincto se tornou nos salões parisienses; e assim como este, outros vos irei apresentan- do dignos de toda a vossa attenção, e que effectivamente auxiliarão o vosso bom gosto na preferencia e escolha dos toilettes. [...]

Ora, notai bem, minhas queridas leitoras, a fazenda especial e a côr desse vestido que representa a estampa, não o achais tão lindo? Reparai nos enfeites: que distincção! Esses cinco folhos, alargando progressivamente de cima para baixo, que circundão a saia com uma guarnição bordada de rosas escarlates, cuja côr viva acompanha as da mesma guar- nição de berthe e das mangas, que brilhante effeito que produz sobre o fundo verde- claro. Aquella delicada camisinha, que guarda a abertura da berthe na elegante fôrma que descreve, como está bem empregada; Reparai nas mangas curtas: ellas são totalmen- te largas, e depois um pouco fechadas por pregas soltas formadas em cima, na cava; as submangas são justas, deixando apenas apparecer duas ordens de estreitos fofinhos, que dão ao braço uma graça toda faceira e caprichosa. O penteado é aquelle que entre todos mais primou nos salões parisienses neste último inverno; peço-vos, queridas leitoras, que noteis a simplicidade desse penteado, a par de sua elegância [...](PR SOR 02157 [1]).

As dez últimas linhas da segunda coluna são usadas para introduzir a matéria seguinte: “Amor e ortographia”, que ocupará quase toda a página seguinte, que é a terceira desse número.

Com o subtítulo “Episódio domestico, referido por uma joven itaguahiense”, o relato Amor e Ortografia conta uma história singela com ensinamento moral e é assinado por uma leitora de Itaguaí, que se identifica como Adelaide. Em resumo, esse texto diz que

Capítulo 4

as mulheres ainda padecem as inconveniências da ignorância e da falta de formação e ilustração. Foi assim o trágico episódio que aconteceu com Rosinha, moça bonita e considerada um bom partido, filha de uma família abastada que vivia na vila de Itaguaí, por volta de 1827. Embora não fosse costume aprender a ler e escrever naquela família de posses, Rosinha aprendera os rudimentos com um tio, que fora vigário na cidade de Guaratinguetá. Acontece que a certa altura Julio, um rapaz de boa família, também de posses, vem passar uma temporada com a família de Rosinha e os dois se apaixonam. Com o consentimento da família de ambos, começam a namorar. A leitora Adelaide relata:

“Não posso referir bem as suas primeiras confissões, nem relatar minuciosamente todas as phases deste amor casto e noviço; sei somente que Rosinha confessou a Julio que lhe seria agradavel dar-lhe seu coração e sua mão, uma vez que obtivesse consentimento de seus pais, o que com effeito foi obtido. Tratado o casamento entre as famílias, Julio e Rosinha erão por todos considerados como já desposados” (PR SOR 02157 [1]).

Mas Julio tem de retornar à cidade e terminar os estudos. Na despedida, Rosinha lhe pede que não a troque por outra. Ao chegar à cidade, Julio se apressa em escrever, em papel perfumado, suas juras de amor. Quando chega a carta, Rosinha sai correndo, se tranca em seu quarto para ler a missiva.

E cai em prantos ao ler: “Preferir na tua ausencia outra mulher, nunca ser teu fiel esposo, é e será sempre o meu mais querido desejo. – Julio”.

Cria-se uma tremenda confusão, a menina fica inconsolável, o casamento é cancelado, o pai de Rosinha a casa rapidamente com outro rapaz da vizinhança, sem brilho e sem fortuna. Tudo sem que Julio seja informado.

Ao final se desfaz o equívoco quando tempos depois o antigo noivo regressa e encontra Rosinha casada. Julio na realidade apenas reforçara suas boas intenções, na carta de amor enviada, escrevendo: “Preferir na tua ausência outra mulher? Nunca! Ser teu fiel esposo é e será sempre o meu mais querido desejo. – Julio”.

A pouca instrução de Rosinha lhe acarretou o infortúnio de se casar com um rapaz feio, pobre, e que não a fez feliz.

“Tal é, leitoras, um dos inconvenientes da ignorância no nosso sexo”, conclui a leitora Adelaide, transmitindo assim uma lição: é importante aprender a ler, pois, por não dominar a leitura, Rosinha se deu muito mal.

No final da segunda coluna da página 3 começa o artigo seguinte, um breve

registro. “Asylo de Santa Tereza” dá notícia da abertura de uma creche para órfãos, criada por suas majestades o imperador e a imperatriz, que se chamava Tereza Cristina.

Na 14ª linha da página 4, há o início da seguinte matéria, um largo relato de 2 colunas e meia, com trecho de um diário de viagem. Esse texto, “Recordação de viagem – Casa de refúgio para os meninos e meninas pobres no Estado da Pensilvânia”, conta a visita realizada pela escritora (o artigo não é assinado) a uma instituição de cuidado de menores nos Estados Unidos. A autora visita refeitórios, dormitórios, salas de ginástica, atividades nas oficinas e ofícios (entre eles uma tipografia). Há na linguagem entusiasmada um tom claramente americanófilo, como se pode perceber neste trecho:

Ás 5 horas da tarde o sino chamou os trabalhadores fóra das officinas; mas ninguem sai sem arrumar, sem varrer, sem deixar cada objeto no logar marcado; uma vez isto feito, principia a lavagem do rosto e das mãos; o vestir-se, pentear-se e preparar-se para a ceia. [...] Na América do Norte nunca vimos trabalhador algum, por muito ordinario que fosse, que se sentasse á mesa sujo ou mal arranjado. Os Americanos são limpos por costume, e nesse ponto todos possuem a mesma educação. [...] Depois dos preparativos do aceio, formarão-se em columna, e ao tinir da campainha do director, desfilarão, e sempre debaixo de ordem militar entrarão no refeitorio. Ali, depois de curta oração, os mestres derão parte do trabalho de seus aprendizes. Os que tinhão cumprido com as

suas obrigações, além de receberem do director algumas palavras de encorajamento, recebião também dobrada ração. Os mal comportados erão, pelo contrario, reprehendidos e priva- dos da ceia, com obrigação de servir em pé aos seus companheiros. Assim vai, á par da recompensa, o castigo, marcando distintamente aos meninos as duas sendas da vida – a senda do bem e a senda do mal (PR SOR 02157 [1]).

O relato termina na segunda metade da coluna 1 da página 5. Uma poesia de 8 quadrinhas vem a seguir. A “Poesia a uma joven paulistana”, assinada por Salomon, é bastante pobre. As oito quadras rimam, quase o tempo todo, Brazil com Gentil.

Alvo cysne de candidas penas/ Do seu meigo Tiété senhoril Vem pairando nas azas serenas/ Ergue o collo de neve gentil Deixa os lagos da patria tão cara,/ Deixa as ribas do sul do Brazil; E nas plagas do grão Guanabara/ Vem mostrar-se fagueiro gentil Doce, meiga, gentil açucena/ Transportada do sul do Brazil; Embalada na haste serena/ Tão saudosa da patria gentil.

O restante dessa página 5 é completado por “Pensamentos”: 7 pequenas frases sobre orgulho, egoísmo, amar e não ser amado, caridade, resignação: “O egoista não sente senão os seus males: os corações caritativos sentem mais os males alheios que os próprios”; “quando a humanidade soffre, o soccorrel-a é uma obrigação, assim como a indifferença é um crime”.

A página 6 apresenta pequeno texto sobre um hospício francês, e na metade da primeira coluna começa a longa história de Simão e Miguel, no conto “Mistérios del Plata”, que é continuação do número anterior, a edição 13.

É o relato de um soldado, Miguel, que acaba de assassinar um casal e seu filho por ordem do ditador Rosas. Simão é um velho lanceiro que lutou ao lado do general San Martín, o “libertador”da Argentina. Referências a nomes e fatos da história argentina abundam: Belgrano, Alsina, Balcarce, a revolução de 25 de Maio, os unitários e os

federais. Difícil imaginar que uma leitora carioca daquela época estivesse tão familiarizada com todo esse repertório de heróis do país vizinho. Mais fácil entender isso como uma

A descrição da estampa esclarece: trata-se de uma toilette de Soirée de verão (esquerda).

Capítulo 4

escorregadela da “redactora em chefe”, a argentina Joanna Paula Manso de Noronha. Por transitar com desenvoltura entre esses personagens da história de seu país, ela não pensou nas leitoras, que certamente não sabiam quem foi Alsina, Balcarce ou Belgrano, pais da pátria argentina.

Um fato grave, digamos, sobretudo porque o relato ocupa todo o restante da página 6, a página 7 inteira e ¾ da página 8 (a última página desse número da revista). Ao final, o aviso: essa história continuará ainda no próximo número. Ou seja, a leitora acompanharia os choros, abraços compungidos dos dois guerreiros, o jovem Miguel e o velho Simão, ao menos por mais uma edição. Uma falha no “contrato de leitura”: a