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O mesmo tipo de análise pode ser feito em relação à propriedade de escravos, conforme a tabela a seguir.

Tabela 7.6 – Propriedade de escravos segundo nacionalidades de inventariados na elite, Campinas, 1870-1940, em %

1870 1875 1880 1885 20% mais ricos Valores Valores Valores Valores Brasileiros 66,0 98,0 100,0 100,0 Italianos 0,0 0,0 0,0 0,0 Outros estrangeiros 34,0 2,0 0,0 0,0 Totais 100,0 100,0 100,0 100,0 5% mais ricos 1870 1875 1880 1885 Brasileiros 51,8 97,2 100,0 100,0 Italianos 0,0 0,0 0,0 0,0 Outros estrangeiros 48,2 2,8 0,0 0,0 Totais 100,0 100,0 100,0 100,0

Fonte: inventários TJSP–Campinas.

Os brasileiros possuíam 66% do valor dos escravos entre os inventários dos 20% mais ricos em 1870. Já entre os 5% mais ricos, a diferença diminui substancialmente, com os brasileiros chegando a apenas 51% do total. Esses resultados mostram que o emprego de trabalho escravo foi amplamente utilizado por estrangeiros e seus descendentes da elite, particularmente os casados com cônjuges brasileiros atuantes na produção cafeeira, como é o caso do inventário de Ana Engler Correa Barbosa, esposa do fazendeiro Antonio Correa Barbosa,

senhores de um plantel de 151 escravos, em 1870.37

No entanto, a partir de 1875, os brasileiros (98%) passam a dominar absolutamente a propriedade de escravos, em relação aos estrangeiros (2%). Os poucos escravos mantidos por estrangeiros nessa época eram vinculados aos serviços domésticos ou em ofícios especializados e rentáveis, como é o caso do inventário de Jorge Guilherme Henrique Krug, comerciante e boticário, proprietário de 2 mulheres e 2 homens escravizados, sendo um deles pedreiro.38 O mesmo

padrão é observado entre os 5% mais ricos. Nos anos seguintes, nenhum escravo é registrado nos inventários dos estrangeiros mais ricos em Campinas. Na Tabela seguinte apresentam-se os resultados para os ativos financeiros e estoques.

Tabela 7.7 – Propriedade de ativos financeiros e estoques segundo nacionalidades de inventariados na elite, Campinas, 1870-1940, em %

1870-1890 1895-1915 1920-1940 20% mais ricos 5% mais ricos 20% mais ricos 5% mais ricos 20% mais ricos 5% mais ricos Brasileiros 87,4 86,5 94,6 95,9 65,0 70,1

37 TJC, 3º Ofício, n.7150, 1870. 38 TJC, 4º Ofício, n.4693, 1875.

Italianos 0,0 0,0 3,5 4,1 9,4 6,6 Outros estrangeiros 12,6 13,5 1,9 0,0 25,6 23,3 Totais 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Fonte: inventários TJSP–Campinas.

O período 1870-1890 mostra que os brasileiros mais ricos detinham 87,4% e os outros estrangeiros, 12,6% do valor dos ativos financeiros e estoques inventariados, padrão seguido pelos 5% mais ricos. Entre os brasileiros, a preferência recai sobre créditos e ações de empresas ferroviárias, como no inventário da cafeicultora Maria Ângela Bueno. Entre os outros estrangeiros, verificam-se registros de empréstimos com garantias hipotecárias, como no inventário do proprietário português Claudino Rodrigues Neves; e de estoques,

como no de Luiza Schroeder, industrial e comerciante de bebidas.39

Os brasileiros da elite aumentam ainda mais sua participação na propriedade de ativos financeiros e estoques em 1895-1915. Os italianos, agora presentes, participam com 3,5% e os outros estrangeiros com apenas 1,9%. A concentração de ativos financeiros e estoques entre os brasileiros aumentou significativamente no período 1895-1915 devido aos inventários de Bento Quirino dos Santos e da esposa de Joaquim Teixeira Nogueira de Almeida, Francisca de Andrade Nogueira. Para se ter uma noção da importância desses bens nos citados inventários, 99% da fortuna de Bento Quirino, seguramente a maior de Campinas em todo o período estudado, eram compostos de ativos financeiros e estoques, enquanto a participação desse tipo de bens na riqueza de Francisca de Andrade

Nogueira foi de 65,5%.40

De modo geral, há entre os brasileiros mais ricos registros de todas as categorias de ativos financeiros, como no inventário do proprietário Antonio Benedito de Moraes Teixeira. Entre os poucos italianos e outros estrangeiros, a preferência recaiu sobre estoques e créditos com garantias hipotecárias, como observado nos inventários da comerciante italiana Carmela Spadafora e do proprietário norte-americano Willian Collier.41

A distribuição dos ativos financeiros e estoques entre nacionalidades iria mudar substancialmente no período 1920-1940. Entre os mais ricos, a participação dos brasileiros decresceu para 65% do total e, entre os 5% mais ricos, para 70,1%.

39 TJC, 3º Ofício, n.7549, 1889; 4º Ofício, n.4697, 1875; 4º Ofício, n.4892, 1885. 40 TJC, 3º Ofício, n.11832, 1915; 1º Ofício, n.13097, 1915.

A fatia de italianos aumentou nos dois grupos da elite mais rica (9,4% e 6,6%, respectivamente), mas não acompanhou as proporções do grupo de outros estrangeiros, que alcançaram 25,6% entre os 20% mais ricos e 23,3% entre os 5% mais ricos. Nota-se, entre os italianos, a grande incidência de estoques comerciais, como nos inventários do comerciante de secos e molhados Domingos

Mascia e do comerciante de ferragens Luiz Montemurro.42

O mesmo critério de análise pode ser aplicado ao grupo de outros bens. Esse grupo apresenta percentuais de pouca expressão para a formação das riquezas, mas não se deve desprezá-los, pois algumas categorias são indicativas de fortuna e sucesso individual e, também, de urbanização e crescimento da cidade, como são os casos de automóveis das marcas Hudson, Studebaker, Ford, Buick e

Mercedes, arrolados desde 1920.43

Tabela 7.8 – Propriedade de outros bens segundo nacionalidades de inventariados na elite, Campinas, 1870-1940, em % 1870-1890 1895-1915 1920-1940 20% mais ricos 5% mais ricos 20% mais ricos 5% mais ricos 20% mais ricos 5% mais ricos Brasileiros 84,2 83,1 94,7 99,2 62,3 72,8 Italianos 0,0 0,0 1,4 0,8 8,0 2,6 Outros estrangeiros 15,8 16,9 3,9 0,0 29,7 24,6 Totais 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Fonte: inventários TJSP–Campinas

Nota-se, entre 1870-1890, a concentração de 84,2% do valor dos outros bens entre os brasileiros mais ricos, com os outros estrangeiros participando com 15,8%. Padrão semelhante é observado entre os 5% mais ricos, com percentuais de 83,1% para os brasileiros e 16,9% para os outros estrangeiros.

No período de 1895-1915, os brasileiros também aumentam sua participação em outros bens, com 94,7% do valor, com os italianos com 1,4% e os outros estrangeiros sofrendo uma queda relativa para 3,9%. Entre os 5% mais ricos, o percentual de brasileiros atinge 99,2% e o de italianos, apenas 0,8%, enquanto os outros estrangeiros não aparecem na amostra.

Tal como aconteceu com os ativos financeiros, a situação muda entre 1920- 1940, com os brasileiros da elite reduzindo sua participação relativa na

42 TJC, 3º Ofício, n.8417, 1935; 5º Ofício, n.1448, 1940.

43 TJC, 1º Ofício, n.10464, 1915; 1º Ofício, n.14912, 1940; 2º Ofício, n.6135, 1925; 2º Ofício, n.6146, 1925; 3º Ofício, n.7696, 1895; 3º Ofício, n.8303, 1930.

propriedade de outros bens (62,3% entre os 20% mais ricos). Nota-se o inverso entre os demais, ou seja, os percentuais de italianos sobem para 8% na elite, e os de outros estrangeiros, para 29,7% entre os mais ricos.

7.4. As riquezas dos estratos intermediário e inferior, segundo as