Para Sloterdijk o cinismo moderno é a consciência falsamente esclarecida. Quando o filósofo define ele promove uma contradição de termos que nos leva às seguintes questões: O que é uma consciência falsamente esclarecida? De onde ela advém? E como uma consciência pode ser ao mesmo tempo falsa e ao mesmo tempo esclarecida?
A partir do tópico anterior - A consciência falsamente esclarecida podemos começar a pensar na primeira questão no sentido em que ela nos leva a verificar que os kynikoi são semelhantes aos novos cínicos apenas porque eles possuem uma consciência. Portanto são diferentes justamente no fato desse cínico moderno incorrer em uma transformação paradoxal em que a sua consciência é ao mesmo tempo esclarecida e falsa. As questões acima levantadas nos servem mais para nos guiar do que, propriamente nos fazer buscar respostas exatas para elas; contudo entendemos que a exatidão, nesse caso para com as réplicas, não
329 Ibdem.p.377.
330 Idem.
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necessariamente nos faria melhor entender a complexidade aparente da qual nos ocupamos nesse ponto do texto.
Encaminhamos para a tentativa de apresentação do cinismo no seu sentido moderno à luz das literaturas correspondentes com as definições relativas a esse novo modo de expressão ambivalente que confunde e faz esquecer os primeiros kynikoi. Portanto, a partir de certo momento, o cínico ocupa o seu (Kynikoi) lugar e se mantem até os tempos atuais, com jogos de interesse dos quais os dispositivos para que a desfaçatez, a troca de lado e a impudência possam ocorrer sem a menor apreensão interna. Afinal mesmo de forma sucinta eles representam a insolência que nesse caso muda de lado e passa a ser instrumento dos senhores, os cínicos preferem não escancarar o óbvio e nem a verdade e é isso que os diferencia como sabemos daqueles kynikoi que mesmo provocando o medo eram capazes de ocasionar o riso e vice-versa. Contudo sabemos que os cínicos visam uma satisfação embasada no auto- posicionamento consciente diante do que testemunha. 332
Há uma espécie de disputa das consciências dos kynikoi e do cinismo no sentido moderno. Esta concorrência fez surgir uma transição, ou melhor, uma espécie de ―lusco- fusco‖ que caracteriza o tempo presente como um tempo crepuscular. Nesse sentido ―a assimilação das oposições está relacionada à modernização do engodo‖ - aquela situação que o filósofo encontra-se no vazio, situação essa que, em outros termos - mentirosos chamam mentirosos de mentirosos.333
Podemos traduzir o cinismo moderno como ―o mero fingimento, a desfaçatez, a indiferença e a falta de escrúpulos. Portanto ele se diferencia daqueles antigos filósofos gregos que receberam pela primeira vez o nome de kynikoi pelo fato de que esse cínico é um sujeito desprovido de ―atitude marcada por um compromisso de caráter ético‖; afinal, ele efetivamente não ―compreende‖ o ―seu modo de existir (...) como algo que tem a ver com ser- mau‖, ele se vê como um participante de uma leitura de mundo ―coletiva e realisticamente
332 Retornaremos mais adiante a esse ponto quando evocarmos o protagonista Charles Marlow que, mesmo diante do horror gerado pelo
procedimento exploratório, esse personagem é capaz de manter o seu emprego. Sobretudo a isso, quando lemos a sua aventura no coração das trevas do Congo, é possível perceber que Marlow sabe o que faz, no entanto, continua a fazer.
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conformada‖.334 Este cinismo é amoral, egoísta e manipulador. Para efeitos gerais a sua falsa
consciência quando no domínio das relações reificadas é incapaz de abarcar o conjunto das estruturas que são reflexos determinados de uma causa histórica. Diante desse quadro entendemos que o papel da crítica, aqui entendida como leitura sintomal da realidade, ou melhor, uma leitura que distancia-se da prática literal colocaria em cena esses mecanismos responsáveis pela produção de sentido dessa leitura sintomal que ao contrário, pressupõe a inocência de um leitor desprovido ou armado de ideologias e de dispositivos de conhecimento formais relacionados à construção do próprio texto analisado, visando, sobretudo a relação do autor e do objeto. Desse modo por via da busca de sentido contida nas entrelinhas do texto é que no caso torna-se possível verificar as relações de reificação presentes em Coração das trevas – ou melhor, as relações subentendidas no texto que coisificam a ponto de reduzir seres humanos do continente africano a mercadorias.
No mundo apresentado por Charles Marlow em sua versão miniatura vemos que tudo pode ser trocado por tudo desde que se tenha dinheiro. Um mundo que tem precisamente na forma mercadoria a sua categoria pivô. Por isso ele universaliza o dever e ignora valores que consideramos fundamentais e por meio de artifícios retóricos é capaz de nos privar do poder de distinção entre a literariedade do enunciado e o sentido presente no nível da enunciação. ―Assim, a menos que engolissem o próprio arame ou fizessem com ele anzóis para apanhar peixes, não vejo de que seu salário extravagante poderia lhes servir‖.335
São as palavras que Marlow complementa depois de um comentário a respeito do pagamento aos nativos.
Em outras palavras o cinismo não é somente um problema de ordem moral é um padrão de racionalidade de um tempo que conhece os pressupostos anteriormente ocultos pelo universal ideológico da ação, mas que não encontrou muita razão para reorientar a sua conduta, pois sua estrutura é paradoxal. Lei e transgressão caminham conjuntamente, por isso,
334 Ibdem. p.33.
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a denúncia não pode mais servir para desqualificar os paradoxos dos discursos falsos e legitimados como verdadeiros.336
Entendemos que nesse caso os representantes do cinismo moderno fazem uso de uma espécie de auto ironia como parte do discurso, por isso qualquer crítica já se encontra internalizada por eles, aos quais na maioria das vezes são moralistas hipócritas. Portanto as suas ações são contraditórias e maculadas minuciosamente com um aspecto negativo que pouco pode contribuir para a vida. Esta racionalidade pode ser pensada como alternativa ou tentativa de modo de vida que busca superar a crise de legitimidade, pois o fracasso do ideal da razão é o responsável pela fragmentação de suas formas de vida antes sustentadas na ideia de que esse ideal pressupunha por ele mesmo respostas às mudanças sociais da modernidade que, como podemos verificar é a responsável por trazer junto a ela o paradoxo da consciência falsa e esclarecida.