Para definir a linguística aplicadacontemporânea, doravante LA, é mister retomarmos sucintamente a sua criação, e, então, discorrermos sobre o foco hodierno da LA articulando-a
com este estudo que enfoca os eixos de conteúdo descritos nos PCN – LE como contribuição para uma produção escrita sob a abordagem do letramento escolar. Para tal, seguirei as considerações de Celani (1992:15-23).
De acordo com a autora, busca-se uma definição da LA desde os fins do século XIX,
pois o nome linguística aplicada conduz, em primeira instância, a um conceito errôneo e subserviente à linguística teórica ou pura, por meio do qual infere-se que esta desenvolve teorias que são aplicadas pela LA, cujo status é o de uma área de conhecimento dependente e sem teorizações próprias.
A inserção da LA no cenário acadêmico internacional ocorre de forma incipiente em
Michigan contribuindo para a criação das associações de linguística aplicada. Estas associações surgem duas décadas posteriores na Europa, três décadas mais tarde nos EUA. E em 1964, funda-se a Association Internationelle de Linguistique Apliquée (AILA). Em seguida, 1966, a British Association of Applied Linguistics (BAAL). Na década seguinte, em 1977, cria-se American Association of Applied Linguistics. Tendo em vista que estas associações inauguraram e divulgaram a LA no panorama acadêmico internacional, ainda assim deparamo-nos com algumas referências nacionais, tais como Celani (1998), Moita Lopes (1996),Signorini E Cavalcanti (1998) e produções desenvolvidas na década de 1990,
nas quais são discutidas as novas perspectivas para a LA.Isso evidencia o crescimento e o reconhecimento da potencialidade deste ―campo de conhecimento‖ — denominação empregada por Rajagopalan(apud MOITA LOPES, 2006: 149).
Nesse processo de reflexão sobre a área; abordou-se o significado de
interdisciplinaridade, transdisciplinaridade; e conjeturou-se a diversidade de questões de uso
da linguagem a serem investigadas pela linguística aplicada, expandindo-se além da área de ensino de línguas, de acordo com o que explica Cavalcanti (2004:23-30). Abaixo, exporei os conceitos de inter- e de transdisciplinaridade apresentados por dois linguistas aplicados.
São notórios o caráter interdisciplinar da LA, que trata de um diálogo requerido e que perpassa por outros campos do conhecimento, bem como a sua visão transdisciplinar de produção de conhecimento. Ambos aspectos apresentam o papel principal de integrar, e não de excluirteorias ou princípios de outras áreas de investigação. Autoras como Grigoletto e Carmagnani (2001) e Moita Lopes (2006) elucidam estas características da LA:
Interdisciplinarity – This concept refers to a situation in which disciplines are not just juxtaposed, but are integrated. They interact with each other. [...] Celani apud GRIGOLETTO & CARMAGNANI, 2001:30)
[campo de investigação transdisciplinar] atravessar (se necessário, transgredindo) fronteiras disciplinares convencionais com o fim de desenvolver uma nova agenda de pesquisa que, enquanto livremente informada por uma ampla variedade de disciplinas, teimosamente procuraria não ser subalterna a nenhuma (Rajagopalan citado por Pennycook apud MOITA LOPES, 2006:73).
Diante do esclarecimento do que se denomina de interdisciplinaridade e de
transdisciplinaridade, entendo que ao propor um estudo cujo foco seja fomentar as práticas
sociais de leitura e escrita em um evento de letramento em língua inglesa, no status de língua estrangeira, — pois o uso dessa língua ocorre na sala de aula e na criação de situações de
comunicação (BROWN 2001: 116) —, acredito que haja uma coerência com a proposta da LA contemporânea. Para Moita Lopes (2006: 22), a proposta da LA consiste em investigar e pensar questões sociopolíticas e da linguagem enquanto constituintes da vida social e pessoal. Tal conceito endossa a pertinência desta pesquisa aos estudos da LA, uma vez que o letramento como uma habilidade indispensável, recorrente e integrada às práticas sociais de leitura e escrita, está presente em nossa sociedade.
Outro aspecto que identifico acerca da consonância da pesquisa desenvolvida com os estudos da LA é o seu caráter humanista. Celani(1992: 21) e Kaplan (1980: 63-64) asseveram que o linguista aplicado possui um papel apropriado para desempenhar em todas as atividades humanas, pois as questões de uso da linguagem, constituintes do objeto de estudo da LA, são decorrentes de ações inerentes à humanidade. Tais ações humanas evidenciaram, por exemplo, a necessidade do desenvolvimento de habilidades funcionais e metacognitivas progressivamente para o mercado de trabalho, conforme explica Paiva (2001: 124).
Ressalto também que ao investigar o letramento, posicionando-o como em um evento cujo objetivo seja uma prática social humana difundida e requerida para as demandas provenientes da contemporaneidade, retomo a contribuição de outras áreas do conhecimento, tais como a sociologia e a antropologia, cujas contribuições apontaram para a compreensão deste objeto de estudo. Este diálogo estabelecido entre as ciências sociais e as humanidades constitui-se em uma das premissas da LA. Tal integração diz respeito à interdisciplinaridade, que suponho ser o elemento essencial para investigar o processo de aquisição e as implicações do letramento. Ao investigar os estudos de letramento, também me questionei acerca das ideologias incutidas nas políticas educacionais face à formação de um sujeito letrado em um contexto neoliberal, globalizado e pós-moderno, cujas nuances estão imbricadas e poderão ser desveladas pelas ciências sociais. A produção de possíveis respostas para esta indagação ocorrerá provavelmente na área da transdisciplinaridade. Segundo Celani (1998: 132), trata- se de uma ―coexistência em estado dinâmico‖ entre os campos do saber. A autora salienta que só a justaposição de saberes não conduz a uma interação. A interação é, pois, condição sine
qua non para a transdisciplinaridade, área de produção de conhecimento da linguística
aplicada.
Nesta pesquisa, busco refletir acerca do letramento em língua estrangeira (LE), de acordo com uma abordagem transdisciplinar, e procuro subsídios para a minha prática em sala de aula. Meu objetivo é formar um aluno letrado, cujo desenvolvimento como pessoa deverá ocorrer também ao se beneficiar da aprendizagem de uma língua estrangeira que melhor o instrumentalize para a sua inserção no mercado de trabalho. Embora os resultados
configurem-se como projeções, creio que se alcançados contribuirão, por outro lado, para diminuir o número de iletrados em nosso país, cuja situação direciona-se a uma de marginalização paulatina e iminente.
Dentre as perspectivas delineadas por Moita Lopes (2006: 14-27) para a LA, destaca- se a atenção às vidas marginalizadas e à necessidade de que lhe sejam dadas vozes para seus questionamentos e interpretações. Dessa forma, estabelece-se uma nova política que fomente pesquisas voltadas às vozes antes inaudíveis; esta seria uma LA contemporânea, crítica, politizada e atuante, que trouxesse para si uma responsabilidade social.