A tradição das festas, no princípio Joaninas, ao longo dos tempos foi modificando-se, perdendo aquelas características ligadas à sua gênese de, no verão europeu, reverenciar a grande fertilidade da terra, as boas colheitas. Na atualidade, com as festas juninas homenageando os três santos católicos, no decorrer do mês de junho, assumem outro significado, afastando-se de sua origem.
Contudo, adaptando-se às mudanças, as escolas, em seu movimento de reprodução, há anos praticam a organização de festividades juninas, alinhadas ao Estado laico, menos ligadas ao catolicismo e mais voltadas à festividade como momento de socialização e, aparentemente, de arrecadação. Esse movimento arrecadatório da escola pelas festividades teve seus momentos áureos em décadas anteriores, e a população entendeu-o como natural. As famílias pensavam que o envolvimento para a captação das chamadas “prendas” e, ainda, a doação de insumos de quermesse para adensar as confecções de especiarias se consistia em participação, mesmo sabendo que, para que os alunos pudessem degustar qualquer item, teriam que comprar o que eles mesmos ofereceram à escola. O próprio presidente do
Conselho relembrou: “[...] cobrava-se um preço simbólico, acho que era cinquenta centavos para comer qualquer coisa, brincar com qualquer coisa, e esse dinheiro arrecadado depois se revertia, lá na frente, para alguma atividade no dias das crianças lá em outubro, pra comprar uma lembrança e tudo mais”.
O depoimento do professor, por um lado, leva a crer que a escola teria um papel redistributivo, valendo-se de datas comemorativas voltadas ao consumo e ao capital. As famílias e os alunos acreditavam que participavam e que a escola cumpria sua função social. Contudo, por outro, esse conhecimento público ao adentrar a escola, por intermédio da cultura, pode ser um instrumento que quebre a função reprodutora da escola. ( GIMENO SACRISTÁN e PÉREZ GÓMEZ, 1998) Esse resgate apresentado reside, parcialmente, no passado, pois, apesar de orientações das Diretorias Regionais de Ensino acerca da proscrição de arrecadações nas escolas, famílias e educadores, não sabendo agir de forma diferente, pressionam a gestão a praticar essa lógica capitalista perversa ou, então, são pressionados pela gestão para organizá-la. Nesse sentido, uma mãe do conselho argumentou: “Eu votaria por aberta, para os pais poderem vir [...].”
As famílias de escolas de periferia, por não terem outras opções de convívio social e lazer de um modo geral, elegem a escola como o local ideal para convívio. Justificam a presença na escola por causa de assistirem “ao produto” mensurável que podem ver: a dança das crianças.
Naquela reunião de Conselho de escola, o tema prioritário estava fixado como organização da festa junina. Entretanto, o Diretor da escola, de certa forma, iniciou a problematização do tema, articulando com o papel da Igreja nesse contexto, da mercantilização da data e do comércio que se instituiu nas escolas para arrecadação de prendas e dinheiro com vistas ao acúmulo de excedente financeiro para a Associação de Pais e Mestres. Em tal associação, só as famílias são chamadas a colaborar, ou a financiar, enquanto
os “mestres”, os funcionários, são convocados a trabalhar, geralmente repondo algum dia de trabalho devido. Assim sendo, supostamente, a associação acontece muito pelos pais e nada pelos educadores.
O Diretor da escola trouxe à reunião a essência da ideia da festa, mas o evento acabou ficando apenas pelo cumprimento de calendário e pela recreação, sem nenhum viés pedagógico e manutenção ou resgate do sentido cultural e folclórico. Segundo o Diretor, “resgatar o folclore é muito importante, não é só vir aqui comer e dançar axé na festa junina. Tudo bem, mas, voltando para nossa cultura popular, não podemos esquecer disso aí: das festas de São João e outros santos. Quanto aos pais, isso foi sempre aberto para aproximar a comunidade da escola”.
A presença da Diretoria do Grêmio Estudantil à reunião de Conselho de Escola, que tinha como pauta a organização da festa junina, ocorreu de forma a informar os meninos do Grêmio sobre as tarefas que eles deveriam assumir. E eles assumiram de forma muito natural a função de proporcionar recreação para os alunos do Fundamental I.
Ademais, o Diretor da escola “cedeu” e estimulou o presidente do Grêmio à oportunidade de “participarem”, expressando-se da seguinte forma: “O que o Grêmio acha aí? Vai falar um pouquinho”? E a Diretoria do Grêmio respondeu: “Nós estávamos falando agora da gente fazer um tipo de uma brincadeira com o primário, como ano passado a gente fez também. Na semana da criança a gente fez uma brincadeira com eles (Fundamental I) o dia inteiro. Não sei se os professores gostaram, mas a gente gostou.” E acrescentou: “Ouvimo- los perguntarem: Vocês vão brincar com a gente?”
A Diretoria gremista expressou a preocupação de proporcionar atividades recreativas para os alunos do Ensino Fundamental I. Disseram que, no ano anterior, já haviam tido essa experiência e que ambos, gremistas e Fundamental I, haviam gostado da recreação. Entretanto, eles demonstravam alguma incerteza acerca da ciência da aprovação dos
professores sobre esse tipo de atuação. Nesse sentido, houve, também, a solicitação do presidente do Grêmio, conforme demonstra a fala: “Agora a gente pergunta: Se vocês quiserem, a gente “podemos”(sic) fazer uma brincadeira com eles”.
Ficou também registrado no discurso dos alunos que o fato das crianças menores solicitarem aos alunos da Diretoria do Grêmio as atividades de recreação nessas datas temáticas subjaz uma cristalização das ações do Grêmio e que, inclusive, possa ter alcance para além da escola como local, chegando às famílias e às crianças menores, que ainda não frequentam o Ensino Fundamental. Esses, quando adentrarem a EMEF, já saberão o que o Grêmio daquela escola expressa.