A questão de escala é central na pesquisa sobre sistemas socioecológicos, objeto de reflexão tanto na abordagem da vulnerabilidade quanto na abordagem da resiliência. Ambas
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Esta secção foi apresentada na mesa redonda: LINDOSO, D. P; ROMERO, H; VILALBA J. N, Multidimensionalidade e Multiescalaridade dos estudos de vulnerabilidade social, Seminário Internacional de
Investigações sobre Vulnerabilidade dos Desastres Socionaturais - SIVDES, Florianópolis, 20-22 de
reconhecem que a natureza multi-escalar dos sistemas socioecológicos. Em outras palavras, a dinâmica observada em uma determinada escala é influenciada por processos, padrões e contextos em escalas mais amplas e mais restritas no tempo e espaço. Nesse sentido, três noções de escala coexistem e dialogam: geográfica, ecológica e sociológica (CUMMING et al, 2006).
Na geografia, a escala espacial de um processo, decisão ou observação recebe maior destaque, apesar da dimensão temporal também ser considerada importante (WILBANKS, 2007). O espaço é tratado tanto em termos absolutos para referir-se ao lugar ou extensão de um objeto geográfico, como em termos relativos, para caracterizar percepção de distância de indivíduos com diferentes capacidades de deslocamento (GIBSON et al, 2000). O espaço geográfico também é abordado como uma construção social, na qual o lugar físico recebe diferentes recortes segundo processos e concepções subjetiva, configurando diferentes percepções sobre o que é local, regional e global (SANTOS, 2008).
Já na escala ecológica tempo e espaço são dimensões inseparáveis. Processos que ocorrem em pequena escala espacial tendem a ser relativamente rápidos, enquanto aqueles em escalas espaciais mais abrangentes são relativamente lentos (CARPENTER, 2002). Assim ciclos em escala mais locais, como o ciclo da água entre um fragmento de floresta e atmosfera, são relativamente curtos (dias) quando comparados a ciclos territorialmente extensos, como o ciclo da água em uma bacia hidrográfica de proporções continentais, que pode levar anos ou décadas. Naturalmente, a perspectiva de escala ecológica é a predominante na abordagem da resiliência. Nesta, duas noções emergem como fundamentais: ciclos adaptativos de renovação (adaptive renewal cycles) e panarquia (YAN, 2011).
A noção de ciclos adaptativos de renovação partem do pressuposto que os sistemas, sejam eles ecológicos, econômicos ou sociais, não tendem ao equilíbrio. Ao contrário, desenvolvem-se em ciclos contínuos de destruição e renovação caracterizados por 4 fases: rápido crescimento e exploração (fase r), conservação (fase k), colapso ou liberação (fase Ω) e de renovação ou reorganização (fase α) (Figura7) (FOLKE, 2006). As duas primeiras fases são mais lentas e estáveis, enquanto as duas últimas tendem a ser curtas e instáveis, correspondendo a mudança de regime (CARPENTER et al, 2001). A noção de panarquia agrega a relação através das escalas entre os ciclos adaptativos de renovação, entendendo que cada ciclo está ao mesmo tempo inserido em ciclos mais amplos e lentos e é influenciado por ciclos menores (espacialmente) e mais rápidos (figura 7). O resultado é um modelo de ciclos adaptativos de renovação aninhados (nested) através das escalas (GUNDERSON; HOLLING, 2002).
Figura 7 Ciclos Adaptativos e suas relações através das escalas (panarquia); As fases do ciclo (k, Ω e α) e as
relações entre eles (revolt e remember) são indicadas Fonte: Folke, 2006
As conexões através das escalas se dá por meio de interações referidas como revolta (revolt) ou lembrança (remember). Revolta está associada a fase Ω, na qual um cascata de eventos em uma escala mais restrita e rápida ascendem, levando o distúrbio para escalas mais abrangentes e lentas. Lembrança é uma forma de conexão que se manifesta na fase de renovação e reorganização (fase α), um legado espaço-temporal entre ciclos, no qual recursos produzidos no ciclo anterior são usados para reestruturar o sistema no ciclo seguinte (FOLKE, 2006). Em ecossistemas, por exemplo, os recursos podem ser o banco de sementes sobrevivente a um incêndio florestal que possa recolonizar a paisagem pós-fogo. Em sistemas humanos, pode ser a própria memória da população mais idosa sobre estratégias de sobrevivência a desastres naturais ou mesmo o estoque de sementes para plantios futuros em caso de quebra de safra.
Por fim, a noção de escala sociológica é espaço-temporalmente menos explicita quando comparada àquelas adotadas na geografia e ecologia (GIBSON et al, 2000). Segundo Tilty (1984), isso se deve ao fato das tradições teóricas das ciências sociais terem tratado os processos sociais de forma abstrata, sem especificar o tempo e espaço no qual ocorrem. Contudo, na pesquisa em sistemas socioecológicos, a escala social é espaço- temporalmente explícita, definida a partir das conexões entre representação e poder, de tal forma que “diferentes níveis de organização (social) hierarquizadas respondem e agem em um determinada escala espacial e temporal, as quais podem variar de pequena a grande” (CUMMING et al, 2006). Nesse caso, cada escala é associada a uma unidade de governo ou níveis de escolha. O elo que liga as unidades de governo através das escalas são as
relações entre indivíduos, grupos e redes sociais, moldadas por regras, normas e instituições (OSTROM et al, 1999; TOMPKINS; ADGER, 2004; OLSSON et al, 2006). Gibson et al (2000), por exemplo, entendem sistemas de governança a partir de três níveis conceituais de escolha: operativo, coletivo e constitucional. Cada qual com regras e normas próprias que conduzem as decisões em suas respectivas esferas. Por sua vez, cada nível de conceitual se manifesta em escalas geográficas diferentes (estabelecimento, comunidade, regional, nacional, internacional), com dinâmicas próprias, mas também conectadas por uma hierarquia de poder.
É no encontro entre noções tão distintas de escala, que a pesquisa interdisciplinar sobre sistemas socioecológicos encontra um dos seus principais desafios. Primeiro, o desafio da comunicação científica. Por exemplo, na geografia quando se fala em grande escala, se refere a escalas com alta resolução espacial, ou seja, envolvendo áreas pequenas, mas com grande riqueza de detalhes. Nesse contexto, é imprescindível o uso de escalas cartográficas, geralmente presentes nas margens inferiores dos mapas e que permitem dimensionar o tamanho real da representação em questão. Já no jargão da ecologia, grande escala se refere a territórios extensos, de grandes proporções espaciais. De modo semelhante, na ciências sociais, grande escala se refere a níveis de decisão superiores do ponto de vista hierárquico, como a escala nacional ou internacional. Sem o entendimento claro das particularidades e termos envolvidos em cada noção de escala acima discutida, há risco do resultado ser mal interpretado ou falho na comunicação para atores internos e externos à pesquisa, comprometendo a legitimidade frente aos pares, assim como a capilaridade da produção científica na tomada de decisão.
O segundo desafio refere-se a conciliar no arcabouço analítico a interconexões entre as três noções de escala. Enquanto na escala ecológica a relação entre tempo e espaço é direta (quanto mais amplo o espaço, mais lento os processos que nele ocorrem), na geografia e ciência sociais a interação entre ambas as dimensões desenvolve-se com grande grau de liberdade. De fato, do ponto de vista dos processos socioeconômicos, o desacoplamento entre tempo e espaço vem se intensificando na medida em que as distâncias físicas vem desaparecendo frente ao desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte (GIDDENS, 1991). Decisões e escolhas tomadas em nível local ou em curto período de tempo podem ter implicações instantâneas em grandes áreas ou serem sentidos por longos períodos de tempo. Wilbanks (2007) atribui a esse fenômeno a emergência de uma nova noção de escala: a escala virtual.
As premissas assumidas nos conceitos de panarquia e ciclos adaptativos muitas vezes não são compatíveis com a dinâmica de processos humanos. Frequentemente, o timing que caracterizam o funcionamento dos sistemas de governança e os processos econômicos é distinto do timing dos processos ecológicos sobre os quais impactam
diretamente. Assim, cientistas e tomadores de decisão que se debruçam sobre a interface homem-natureza esbarram com a grande dificuldade de lidar com o desencontro (mismatches) entre as escalas ecológica e social (CUMMING et al, 2006). Soma-se a isso o desencontro espacial entre as escalas ecológicas e político-geográficas, dado que os limites ecossistêmicos não correspondem a mesma lógica usada para definir limites administrativos e de governança. A gestão de uma bacia hidrográfica (espaço ecológico), por exemplo, não raro depende de decisões tomadas em diferentes unidades políticas (espaço político) pouco articuladas entre si e cujos critérios de escolha não correspondem aos interesses da conservação da bacia.
Na literatura da vulnerabilidade, vários autores vem chamando a atenção apara a necessidade de incorporar a questão da escala na análise (SMIT; WANDEL, 2006; ADGER, 2006; O’BRIEN et al, 2004). Causas proximais e distais que afetam a unidade expositiva são identificadas para caracterizar sensibilidades, exposições e capacidade adaptativas (figura 8). Observa-se que a noção de escala geográfica possui grande influência na abordagem da vulnerabilidade. Como consequência, o recorte analítico enfatiza a dimensão espacial. Em outras palavras, as unidades de exposição - geralmente populações e lugares (people & places) - são bem delimitados no território, porém analisados como pontos discretos no tempo. Isso explica porque em grande parte dos trabalhos, a vulnerabilidade é avaliada como contexto ou consequência, mensurada na forma de impactos, prejuízos, perdas e danos (STERN, 2007) ou por meio de indicadores, índices e mapas de vulnerabilidade referentes a recortes espaciais e temporais específicos (BRASIL, 2007; O’BRIEN et al, 2004; LINDOSO et al, 2011; KLAUSMEYER et al, 2011).
Figura 8 Questão de escala na pesquisa em vulnerabilidade. Fatores locais e distais interagem para determinar
vetores de exposição, sensibilidade e capacidade adaptativa Fonte: Smit & Wandel, 2006
Já na abordagem da resiliência, a noção de escala ecológica predomina, especialmente no que tange a íntima relação entre tempo e espaço. Como consequência, a pesquisa dá ênfase à análise dos processos que determinam a resiliência (inovação, resposta, aprendizado, organização) (OLSSON et al, 2006). Diante do esforço científico necessário para mapear a complexa teia de retroalimentações ao longo do tempo e, consequentemente, da dificuldade em monitorar variáveis e mudanças, trabalhos sobre resiliência envolvem escalas espaciais relativamente pequenas, facilmente delimitadas (e.g. lagos, lagoas, comunidades humanas).
1.1.5 Vulnerabilidade e Resiliência: convergência conceitual, divergência metodológica