Miramichi pre-smolt
3 FISHERIES AND STOCKS IN THE NORTH-EAST ATLANTIC COMMISSION AREA .1 Fishing at the Faroes in 1997/1998 and 1998/1999
3.8.1 Overview of the provision of catch options or management advice
Apreender o discurso dos gestores públicos e privados foi importante para se entender como estes agentes produtores do espaço serrano percebem a atividade e a prática da vilegiatura na serra. Para Coriolano (2006, p.15), os discursos “produzem políticas, espaços, dirigem e controlam os sujeitos, fazendo-se importantes aos governos, às empresas e à sociedade”. Para melhor apreender o amplo panorama da visão desses gestores, foi elaborado um mapa conceitual a partir da frequência de termos contidos nos discursos dos sujeitos entrevistados.
Para se chegar a esse mapa, nos baseamos na técnica da análise de conteúdo61. A análise de conteúdo se pauta em uma análise comparativa por meio da construção de tipologias, categorias e análises temáticas. Essa análise tem como objetivo descrever o sentido do que foi dito a fim de interpretar dinâmicas sociais. Um dos tipos de análise de conteúdo é classificada por Bardin (1977) como “categorial”, pois é uma análise temática (por categorias), geralmente, descritiva. Bardin (op. cit.) complementa que “na análise quantitativa, o que serve de informação é a frequência com que surgem certas características do conteúdo. Na análise qualitativa é a presença ou ausência de uma dada característica de conteúdo (p. 21).” Com base no processo simplificado da análise quantitativa do conteúdo, identificamos, por meio de palavras-chave (unidades de registro) presentes nas entrevistas aplicadadas aos gestores públicos e privados. Categorias na perspectiva da gestão da vilegiatura serrana, conforme podemos observar na Figura 17, o Mapa semântico da fala dos gestores públicos e privados.
61 A análise de Conteúdo foi desenvolvida por Laurence Bardin. Essa análise possui caráter essencialmente qualitativo, embora possa ser utilizada como parâmetros estatísticos para auxiliar interpretações dos fenômenos.
Figura 17 – Mapa semântico da fala dos gestores
Fonte: Entrevistas com gestores públicos e privados de Gravatá, Guaramiranga e Lagoa Nova. Elaborado com: https://tagcrowd.com/.
A construção do mapa semântico está pautado no discurso dos gestores públicos e privados a partir da contagem62 de palavras mencionadas por eles durante as entrevistas semi-estruturadas e transcritas. No mapa é possível perceber a diferença no tamanho das formas que acomoda cada termo. O tamanho de cada forma equivale à quantidade de menções que cada termo recebeu de todos os gestores entrevistados. Ou seja, quanto maior a forma, maior é a relevância do termo, baseada na quantidade de vezes que este aparece nos discursos. Os termos foram divididos também conforme à quantidade de menções, reagrupados e subordinados de acordo com nossa percepção de abrangência da respectiva categoria e palavra-chave sub- sequente.
As dez palavras mais citadas pelos gestores públicos e privados foram: casa (60 vezes), cidade (48 vezes), casas (46 vezes), residência (39 vezes), pessoas (36 vezes), projeto (33 vezes), serra (26 vezes), turismo (24 vezes), fim de semana
62 Possível a partir do uso de uma ferramenta online que funciona como contador das palavras mais frequentes em uma compilação de textos. Ao inserir o texto das entrevistas trascritas, o software apontou as palavras que mais se repetiam.
(23 vezes) e condomínio (22 vezes). Formaram-se seis categorias principais: Casa, Cidade, Pessoas, Projeto, Serra, e Turismo e os demais termos alocadas como palavras-chave subordinadas à cada categoria.
Portanto, percebemos que entre outros temas, os mais relevantes revelados na fala dos gestores, no tocante ao momento das entrevistas, foram relacionados à “casa” e “residência”, a demostrar a importância das segundas residências nas preocupações de gestores públicos e privados. Em segundo lugar, a palavra mais mencionada, pelos participantes, foi “cidade”, a denotar possível preocupação com a cidade em sua totalidade. O que pode nos direcionar à perpectiva de realização de um planejamento urbano mais próximo do sustentável e ao direito à cidade. “Pessoas” foi a terceira palavra mais mencionada, o que pode dar a ideia de uma preocupação com a gestão focada nas pessoas. Portanto, o possível tripé base de assuntos relevantes para os gestores públicos e privados nas cidades da vilegiatura serrana, poderia estar fundamentado nas “Segundas residências – Cidade – Pessoas”.
Uma categoria que demonstrou pouca expressividade, mas que denota interesse foi a de turismo, por ter considerável diversidade de termos interligados tal como a categoria mais expressiva, a casa – enquanto representante da segunda residência –. Por mais que não seja, especificamente, o tema, o uso de uma diversidade de termos maior possibilita a inferência de que é este também um campo que merece atenção. Se considerarmos todo o contexto de análise, “Segundas residências – Cidade – Pessoas” são subtemas da vilegiatura, que nem sequer é mecionada no esquema.
Outras palavras como “projeto” e “negócio” também foram consideradas nos discursos, denotando a preocupação com a questão econômica. O fato é que, cada vez mais o lazer e suas práticas secundárias vêm ganhando importância e atenção especial nos municípios serranos, de acordo com os sujeitos ora analisados. Seus respectivos gestores públicos, mas principalmente privados, percebem-no como oportunidade de alavancar crescimento econômico e desenvolvimento local. Dentre os aspectos e padrões observados, qual delineiam características marcantes do fenômeno, podemos elencar: o fato da intencionalidade de gestores públicos e privados de tornar o lazer e visitação atividades fontes de riqueza e renda. A prefeitura municipal de Guaramiranga-CE, por exemplo, nas últimas décadas, tem implementado programas e políticas públicas a fim de promover o município como
produto turístico pautados nas amenidades do clima diferencial no contexto do Semiárido nordestino, bem como a cultura local, aliando-se ao investimento privado na realização de uma série de eventos e festivais ao decorrer do ano (OLIVEIRA, 2015a). Estas mobilizações de fixos e fluxos interferem diretamente na dinâmica espacial da cidade, de modo que em determinados períodos (Festival Nordestino de Teatro e o Festival de Jazz e Blues) a população de visitantes ultrapassa a população local.
Essa mobilidade constante dos visitantes e fluxos são estimulados intencionalmente com objetivo de manter em funcionamento a cadeia produtiva do lazer e do turismo nessas cidades, a considerar uma suposta sazonalidade do turismo serrano. O discurso que contém o incentivo à visitação e consumo da cidade, é o mesmo que aponta problemas com a falta de estrutura e capacidade para suportar o excesso de visitantes, em determinados períodos do ano. O período para realização dos alguns eventos é determinado estrategicamente ao longo do ano, a fim de amenizar os efeitos da diminuição do fluxo turístico. Em determinados festivais, a superlotação é relatada como problema por alguns gestores, tais como empresários do ramo imobiliário e turístico a apontar a falta de estrutura de alguns serviços que, teoricamente, seriam destinados a um população de uma cidade pequena. Porém, durante os momentos em que a ocupação supera a capacidade de infraestrutura, por vezes, os serviços se tornam ineficientes, a exemplo dos serviços de telecomunicações, como declara um proprietário de Hotel e apartamentos num condomínio de segunda residências em Gravatá:
Aqui o grande problema sabe o que é? É quando você pega um pacote no inverno, os telefones não funcionam, porque metade dos telefones (linhas móveis) de Recife estão em Gravatá, fica sem sinal, internet cai, tudo cai, porque é feito em cima de uma média anual em cima da população, fica até prejudicial para a gestão pública, o dinheiro que o município recebe é pela quantidade de habitantes da cidade, então se você tem uma população fixa atual de 77 mil habitantes, todo dinheiro de saneamento vem para 74 mil hab, todo dinheiro para segurança vem para 74 mil hab. (GESTOR PRIVADO/EMPRESÁRIO, 2016)63
Esses problemas são também vivenciados em Guaramiranga, sobretudo durante os maiores e tradicionais festivais realizados na cidade durante o carnaval
63 O gestor utiliza a referência de 77 mil habitantes referindo-se o que ele acredita ser a população naquela data, baseado em estimativas do IBGE. Mas quando referencia 74 mil, está se referindo ao dado oficial do censo de 2010.
(Festival de jazz e Blues) e em setembro (Festival Nordestino de Teatro). Nesses dois momentos do ano, sempre há lotação da capacidade hoteleira e reocupação das segundas residências, consequentemente há intensificação da prática da vilegiatura serrana. Quando se extrapola a capacidade de comportar a quantidade de pessoas em um determinado lugar, ocorrem rebatimentos diretos na qualidade do meio ambiente a influenciar o impacto de vizinhança. Para obter êxito em uma política territorial que de fato mitigue os desafios aqui expostos, é importante considerar as especificidades, aspectos legais e individuais do lugar, mas que, por vezes, podem entrar em conflito com os interesses políticos envolvidos.