5. MATEIAL AND METHODOLOGY
5.3 Surna river Hydrodynamic Simulations
5.3.4 HEC-RAS 2D Modeling for Surna river
5.3.4.2 Terrain creation
Considerando a palavra ‘resiliência’ a partir da sua origem etimológica temos: do latim resiliens, significa saltar para trás, voltar, ser impelido, recuar, encolher-se, romper. Pela origem inglesa, resilient remete à idéia de elasticidade e capacidade rápida de recuperação.
A noção de resiliência, segundo Yunes (2003),
vem sendo utilizada há muito tempo pela Física e Engenharia, sendo um de seus precursores o cientista inglês Thomas Young, que, em 1807, considerando tensão e compressão, introduz pela primeira vez a noção de módulo de elasticidade. Young descrevia experimentos sobre tensão e compressão de barras, buscando a relação entre a força que era aplicada num corpo e a deformação que esta força produzia. Esse cientista foi também o pioneiro na análise dos estresses trazidos pelo impacto, tendo elaborado um método para o cálculo dessas forças (TIMOSHEIBO, 1983). Silva Jr. (1972) denomina como resiliência de um material, correspondente à determinada solicitação, a energia de deformação máxima que ele é capaz de armazenar sem sofrer deformações permanentes.
Infante (apud MELILLO, 2005) esclarece que a resiliência (mais estudada na infância) tenta entender como crianças, adolescentes e adultos são capazes de sobreviver e superar adversidades, apesar de viverem, em condições de pobreza, violência intrafamiliar, doença mental dos pais ou apesar das conseqüências de uma catástrofe natural, entre outras (Luthar et al., 2000).
Lindstrom (2001), no entanto, nos adverte que “a utilização de modelos enfocando principalmente indivíduos, grupos e nações fortes, que são capazes de encontrar maneiras de sobreviver melhor que os outros, pode incorrer no risco de que essa linha de pensamento possa nos levar a retroceder para a arena de Darwin, para a "sobrevivência dos mais capazes". Dentro de uma perspectiva humanista do desenvolvimento humano é necessário levar em
consideração os assuntos: ética, eqüidade, ambientes humanos sustentáveis e equilíbrio ecológico, em vez de sobrevivência de indivíduos fortes e competitivos.”.
Compartilhando com a afirmação de Lindstrom, creio que uma minoria resiliente, fruto de uma amostra intencionalmente selecionada, não pode servir de base para eximir o Estado de sua obrigação de promover a resiliência daqueles que não reúnem as características desse grupo focal, responsabilizando, assim, o indivíduo pelo seu desenvolvimento. Ademais, se incorreria em mais preconceitos ao nomear os afrodescendentes em categorias dicotômicas: os capazes e os incapazes. Se esse grupo reduzido precisou desenvolver a exaustão a sua capacidade resiliente, não se pode esperar que todos consigam realizar a mesma façanha.
Grotberg (2005, p.18) observa que há uma mudança na linguagem dos estudiosos da resiliência, pois “a consideração dos fatores de resiliência que enfrentam o risco foi substituída pela dos fatores de proteção ao risco.” Manciaux (2005, p.305), entretanto, reconhece que há dificuldade na identificação dos fatores de proteção e de risco relacionados à resiliência, pois esses variam de acordo com o tipo de trauma e a personalidade afetada, mas também de acordo com a situação e o momento em que intervenham. O quadro abaixo, mencionado por Manciaux (Idem, p.307), é uma síntese dos estudos sobre a psicopatologia infantil que exemplifica alguns fatores de risco e de proteção da criança, da família e do ambiente:
Fatores de risco Fatores de proteção
Fatores específicos da criança
Sexo masculino Temperamento fácil
Escassas capacidades intelectuais Importante envolvimento no jogo e em iniciativas reconhecidas positivamente
Temperamento difícil
Anomalias cromossômicas Boas relações com seus iguais
História de doença crônica Apego seguro (secure) na tenra infância Transtornos de comunicação Capacidades intelectuais altas
Institucionalização prolongada Bons resultados no colégio
Graves danos cerebrais ( brain damage) Participação em duas ou mais atividades Complicações perinatais Auto-imagem positiva
Atrasos de desenvolvimento Locus de controle interno
História de abusos ou de negligência Boas relações com os membros da fratria Presença de um confidente
Grave conflito marital e divórcio Relações mãe-filho positivas Transtornos psiquiátricos da mãe Relações pai-filho positivas
Baixo nível de educação da mãe Escassez de separações longas do cuidador primário (primary caretaker)
Criminalidade paterna Família unida Baixo nível educacional do pai
Presença de uma companhia masculina no lar ou de um apoio marital
Superpopulação ou família numerosa Violência familiar
Fatores específicos do ambiente
Baixo nível socioeconômico Apoio de adultos da comunidade Muitos “estressores” ambientais Envolvimento da comunidade
Nível socioeconômico alto Renda familiar alta
Fig. 3 - Fatores de risco e de proteção (MANCIAUX, 2005, p.307)
Vanistendael e Lecomte (2004, p.91), afirmam que os dois fundamentos básicos da resiliência são o vínculo e o sentido. Assim, são duas forças que interagem, uma externa, o entorno e outra interna, a que cada um tem dentro de si. É possível mencionar, também, como afirma Tomkiewicz (apud CYRULNIK, 2004, pp. 42-43), que a resiliência “não decorre sistematicamente da soma dos fatores intrínsecos e extrínsecos, senão da sua interação permanente, que tece o destino de uma vida.”
A resiliência não é uma vacina contra o sofrimento, nem um estado adquirido e imutável, senão um processo, um caminho que é preciso percorrer.
PAUL BOUVIER (apud MELILLO, 2004, p.231)
Edith Grotberg (2005, p.15) define a resiliência como “a capacidade humana para enfrentar, vencer e ser fortalecido ou transformado por experiências de adversidade”. Segundo a autora, aos nove anos de idade as crianças já são capazes de promover sua própria resiliência e procurar maior ajuda externa. Diversos estudos sobre resiliência mencionam experiências de adversidade e não a vivência contínua e marcada pela adversidade, enfrentada pelos afrodescendentes na maioria dos países do mundo. Apple (2002, p.21) corrobora esta última afirmação ao referir-se à situação análoga vivenciada pelos negros e hispânicos nos Estados Unidos:
As populações negras e hispânicas dos Estados Unidos têm taxas muito mais altas de desemprego que as outras, taxas que aumentarão significativamente no futuro
próximo. Uma grande proporção desses trabalhadores está empregada no que se poderia chamar de “economia irregular”, uma economia em que seu trabalho (e seu salário) é freqüentemente sazonal, sujeito a demissões repetidas, salários e benefícios mais baixos e pouca autonomia. Tal como as mulheres, eles sofrem uma dupla opressão. Pois a formação social não é iníqua apenas com relação à classe – uma iniqüidade demonstrada, por exemplo, pelas diferenças significativas entre as classes nos retornos salariais devidos ao nível educacional – mas acrescentam-se a isso também as poderosas forças da reprodução de raça e de gênero. Cada uma dessas forças afeta as outras.
O conceito de resiliência tem sido utilizado pelas diferentes áreas do conhecimento, tendo dessa maneira diferentes aplicações e enfoques. Ojeda (apud MELILLO, 2004, p.18), nos exemplifica algumas utilizações do mesmo:
Psicologia: desde as suas origens, o conceito se baseou na observação do desenvolvimento psicossocial, e hoje se enriquece com o aporte da psicanálise. Antropologia: reúne as tradições ancestrais das comunidades e preserva o autóctono como sustentáculo da identidade individual e comunitária.
Sociologia: assume as estruturas e funções sociais como elementos coadjuvantes ou restritivos da resiliência comunitária.
Setor da Saúde: todos os agentes são vetores da capacidade resiliente; o conceito tem estado presente na gênese da promoção da saúde.
Setor da Economia: a resiliência é vista como uma estratégia contra a pobreza e um caminho na busca da melhor qualidade de vida.
Serviço Social: ferramenta para abordar os setores mais desprotegidos e fortalecer suas capacidades de superação.
Direito: está associada freqüentemente com os órgãos e a legislação que vela pelos direitos humanos.
Além das contribuições dos múltiplos saberes, no que concerne à resiliência, há segundo Ojeda (2004, p.19), diferentes correntes sobre resiliência: a norte-americana, essencialmente condutista, pragmática e centrada no individual; a européia, co maiores enfoques psicanalíticos e uma perspectiva ética; e a latino-americana, de raiz comunitária, enfocada no social como uma resposta a lógica aos problemas do contexto. Neste estudo é relevante o entrecruzamento dos aportes de todas as correntes mencionadas, sem excluir a nenhuma delas, pois o ser humano deve ser compreendido em sua individualidade, mas dentro de um contexto.