Sofia tem 19 anos e é de nacionalidade portuguesa. No início da conversa disse- nos que “vivia bastante longe (…) ao pé de (…) uma serra (…)”
Viveu com a mãe até esta falecer por motivos de doença. Da sua infância guarda diferentes memórias, destacando momentos complicados, relacionados com a doença da sua mãe, e a falta de apoio em algumas situações, que a faziam sentir-se sozinha e ridicularizada pelos amigos e colegas.
Sofia nunca conheceu o pai, porque este faleceu quando ela tinha 4 anos. A sua mãe, devido à doença e aos problemas do foro psiquiátrico, automedicava-se frequentemente, situação que foi muito marcante para Sofia. Apesar disso, ao longo da sua infância teve pessoas que a apoiaram consideravelmente.
Outras memórias remetem para recordações de infância que Sofia guarda com saudade. Recordações de momentos felizes enquanto criança e jovem, como o fazer caminhadas pelo mato, subir às serras, acampar ou ir à praia. Foi sempre uma criança divertida e mexida, apesar de não ter tido muitos amigos. Brincava sobretudo com os filhos da sua madrinha.
Sentiu que uma das grandes falhas por parte da sua mãe foi a falta de carinho, apesar de nunca ter deixado que lhe faltasse nada. Enquanto adolescente, estava com os amigos, mas não saía muito. Teve poucos namorados e nunca esteve envolvida em grandes confusões.
Não se recorda de vivenciar momentos de violência entre pais ou avós; apenas ouviu relatos da sua avó afirmando que o avô lhe batia ou que o pai de Sofia chegou a bater na mãe, nos momentos em que estava alcoolizado.
Aos 16 anos deu-se uma reviravolta na sua vida, que mudou para sempre o seu percurso de adolescente e mulher: engravidou de modo inesperado, e sem nada ter sido planeado, pouco tempo depois de a sua mãe ter falecido. A descoberta da gravidez trouxe à sua vida de adolescente mudanças profundas. Pensou em abortar, mas não o fez porque a gravidez já estava avançada. Hoje acredita que não teria sido capaz de o fazer, mesmo que fosse possível.
Algum tempo depois, quando a gravidez começou a notar-se, decidiu sair da escola, receando que os colegas falassem de si. Além disso, fazia-lhe alguma confusão continuar na escola, grávida, junto de outros colegas adolescentes.
Nesta altura da sua vida, acabou por sentir uma grande falta de apoio por parte da família, mais concretamente dos seus padrinhos, que sempre prometeram ajudá-la. Sabia,
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contudo, que a avó, mesmo que a quisesse ajudar, não o conseguiria, devido à idade, aos problemas de saúde e à reduzida mobilidade que tinha.
Sofia acaba por decidir mudar-se para casa do namorado e, a partir desse momento, tudo muda. Nos primeiros tempos, tudo correu bem, apesar da depressão que teve com a morte da mãe e da ameaça de aborto espontâneo. Estava em constante estado de ansiedade. A relação com o pai do filho começou por ser uma grande paixão, afirmando-se “(…) loucamente apaixonada (…)”. Com o passar do tempo, começou a sentir permanentemente medo, pressão e uma grande insegurança.
No início da relação, Sofia foi advertida por algumas pessoas, que a alertaram para não começar aquele relacionamento; mas, na altura, o que sentia falou mais alto do que qualquer chamada de atenção que lhe fizessem em relação ao namorado. A verdade é que os ciúmes e as desconfianças foram sempre um grave problema na relação e foram piorando ao longo do tempo.
O nascimento do filho, no ano de 2013, foi um choque. A perceção real do que se iria passar a partir daquele momento na sua vida, as limitações que iriam surgir, fizeram- na compreender todas as mudanças que estavam para vir. Até ao nascimento do filho, nunca foi agredida fisicamente, mas o nível de agressividade e desconfiança foi aumentando, as discussões e agressões verbais eram uma constante e começaram a ser recorrentes as agressões físicas.
A primeira, uma estalada, ocorreu logo após o nascimento do filho, devido a um incidente com a criança. As agressões em frente ao filho, sem razão aparente, eram frequentes. Ficava com marcas nos olhos, no nariz, na boca, na cara ou nas pernas; teve uma faca apontada ao pescoço...
Por diversas vezes pensou que iria morrer. Sofia sentia que o que mais lhe custava era quando as coisas acalmavam e “tinha que fingir que nada tinha acontecido e tinha (…) que olhar para ele, tinha que dizer amo-te (…) fingir que nada aconteceu (…) porque (…) eu já não conseguia sentir amor (…)”.
A proibição frequente de ir trabalhar foi uma imposição do companheiro e Sofia dava os argumentos mais diversos à entidade patronal.
Nenhuma das tentativas para fugir de casa foi bem-sucedida. A sua ideia foi sempre “(…) fugir de casa e pedir ajuda, ir buscar o meu filho porque eu sabia que não era capaz de fugir logo com ele.”
As discussões e os desentendimentos eram regulares. Sofia sentia-se sempre culpada por tudo quanto acontecia. A ideia da morte foi algo em que pensou durante os
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cerca de três anos em que esteve com o agressor, até que, num dia normal de trabalho, decidiu apresentar queixa do seu companheiro. Nessa altura, conseguiu ir buscar as suas coisas e alguns pertences do filho, acompanhada de agentes da Guarda Nacional Republicana (GNR), à casa onde vivia com o seu agressor, a mãe deste e o filho. Acaba por sair sem o filho.
A sua entrada para a Casa de Abrigo, em 2015, depois da formalização da queixa, permitiu-lhe ter tempo para pensar e refletir sobre muitas das coisas que vivenciou até à data. Os primeiros tempos, apesar de ter conseguido levar o filho consigo, foram muito complicados para Sofia; deixou tudo para trás: família, amigos, casa, trabalho.
A experiência na Casa de Abrigo ajudou-a a crescer e a encontrar diferentes oportunidades; mas é o futuro que a deixa mais preocupada, porque não consegue vislumbrar o que irá acontecer após a sua autonomização.
Para o futuro, Sofia quer estabilidade. Já tem emprego e procura agora uma casa onde morar, organizar-se e conseguir ter mais confiança nas pessoas. Está a começar a sua vida do zero e, por isso, procura estabilizar e “fazer contas à vida”, pretendendo voltar a estudar. Sofia autonomizou-se pouco tempo depois da realização das entrevistas.