Implementation
6.1 Overview
Recolhidos os dados, há que fazê-los «falar», o tratamento e a análise dos dados é um processo que “envolve o trabalho com os dados, a sua organização, divisão em unidades manipuláveis, síntese, procura de padrões, descoberta dos aspectos importantes e do que deve ser aprendido” (Bogdan & Biklen, 1994, p. 205).
Para realizarmos esta tarefa de tratamento e a análise dos dados recolhidos, optámos pela análise de conteúdo enquanto “um conjunto de técnicas de análise das comunicações” (Bardin, 1995, p. 31), pois através desta poderemos “obter, por procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens” (idem, p. 42). O que define, então, a análise de conteúdo não é simplesmente o facto de se aplicar a discursos ou comunicações, mas “uma hermenêutica controlada, baseada na dedução: a inferência” (idem, p. 9).
Procedemos a uma análise de conteúdo de tipo categorial considerando a totalidade do texto dos relatórios e “passando-o pelo crivo da classificação e do recenseamento, segundo a frequência de presença (ou de ausência) de itens de sentido” (Bardin, 1995, p. 36 e 37). Assim, categorizámos os dados permitindo, num primeiro momento “fornecer, por condensação, uma representação simplificada, dos dados brutos” (idem, p. 119).
Uma vez que não partimos com nenhuma hipótese que pretendêssemos testar, optámos por utilizar o procedimento de análise categorial “por milha”, ou seja, as categorias foram sendo construídas através do material recolhido e do seu conteúdo. Não contínhamos, então, qualquer categoria pré-definida, estas resultaram da classificação progressiva dos conteúdos que íamos encontrando nos dados, à medida que os íamos recolhendo. Podemos definir as categorias como “rubricas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos (u.r., no caso da análise de conteúdo) sob um título genérico, agrupamento esse efectuado em razão dos caracteres comuns destes elementos” (idem, p. 118). Deste modo, na primeira fase de “leitura flutuante” dos dados, fomos construindo categorias por propriedades comuns, tentando “introduzir uma ordem, segundo certos critérios,
na desordem aparente” (Bardin, 1995, p. 37). Para a codificação do material nas categorias procedemos ao seu recorte a nível linguístico e semântico optando pela frase como unidade de registo (u.r.). A u.r. “é a unidade de significação a codificar e corresponde ao segmento de conteúdo a considerar como unidade de base, visando a categorização e a contagem frequencial” (idem, p. 104). À medida que as categorias foram emergindo do material e foram ganhando consistência fomos especificando-as, gerando as subcategorias.
Este processo não foi sempre fácil nem linear, o que nos obrigou a reformular várias vezes a grelha que vamos construindo com estas categorias «experimentais». Deste modo, elaboramos e testamos várias versões da grelha, até à sua estrutura presente (Anexo 1), através do processo de categorização do material, isto é, de “uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o género (analogia), com os critérios previamente definidos” (idem, p. 118).
Tentámos que estas categorias obedecessem às seguintes qualidades definidas por Bardin (1995): pertinência, objectividade e fidelidade e produtividade. Assim, para que as categorias sejam consideradas pertinentes, tentámos que estas se adaptassem ao material de análise e aos objectivos e questões orientadoras da investigação. Para respeitar a objectividade e fidelidade das categorias, codificou-se da mesma forma todo o material, segundo a grelha categorial construída, tentando que a escolha e definição das categorias fossem bem estabelecidas, evitando ao máximo a interferência da subjectividade do investigador. Segundo aquele autor (idem, p.120), “o organizador da análise deve definir claramente as variáveis que trata, assim como deve precisar os índices que determinam a entrada de um elemento numa categoria”, e foi este o procedimento que tentamos adoptar. Pareceu-nos serem estas as categorias mais produtivas, ou seja, aquelas que nos permitiam resultados “férteis em índices de inferências, em hipóteses novas e em dados exactos” (idem, p. 121).
No que se refere às qualidades de exclusão mútua e de homogeneidade, também definidas por Bardin (1995), apesar de termos tido o cuidado de criar categorias homogéneas organizadas por um único princípio de classificação, para que “um elemento não pudesse ter dois ou vários aspectos susceptíveis de fazerem com que fosse classificado em duas ou mais categorias” (Bardin, 1995,
p. 120), como optámos por utilizar como u.r. a frase, por vezes encontrámos, numa mesma frase, elementos que deveriam ser codificados em duas categorias distintas. Desta forma, quando procedermos à quantificação das u.r. por categorias, a sua soma não corresponderá necessariamente ao conjunto do corpus (Anexos 2 e 3).
Terminada a tarefa de construção da grelha categorial retomamos ao corpus para reparti-lo pelas categorias, transformando o texto “por recorte, agregação e enumeração”, tentando “atingir uma representação do conteúdo, ou da sua expressão, susceptível de esclarecer o analista acerca das características do texto que podem servir de índices” (idem, p. 103). Procedemos de seguida a uma análise estrutural dos dados, tentando identificar a existência de uma «estrutura tipo» nos relatórios e, posteriormente, quantificando as u.r., para uma contagem frequencial, através do recorte efectuado a nível linguístico e semântico, utilizando a frase como unidade significante ou unidade base desta contagem. Esta quantificação foi efectuada na medida em que “facilita a atribuição de um coeficiente de importância a tal ou tal categoria, mas convém notar que esta importância é relativa – ao discurso (...), à própria análise de conteúdo” (Poirier, Clapier-Valladon & Raybaut, 1999, p. 137).
Feita esta primeira análise do material, efectuámos uma análise horizontal que “resulta do encadeamento, trecho a trecho, da totalidade do discurso organizado pelo sistema categorial. Os enunciados, desta forma destacados e reagrupados (...) reúnem, numa temática global, as mensagens e informações recolhidas” (idem, p. 125), permitindo uma visibilidade global dos dados.