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Inspirado em Bourdieu (1996), acredito ser necessário a ciência social aplicar-se ao estudo das estratégias de diferenciação social, reconhecendo que elas não estão fundadas somente em aspectos materiais, mas principalmente em aspectos simbólicos, em princípios de (di)visão de mundo, que não é simplesmente o oposto do real, pois que atua sobre a própria percepção que se tem dele, e estão marcadas por relações de poder.

Diante disso, convém analisar mais detidamente a relação Igreja-Casa, descrevendo e interpretando seus significados para compreender como suas características expressam representações elaboradas a partir do reconhecimento dos capitais simbólicos da tradição e do carisma familial na legitimação da distinção da sua condição de poder e da dependência da comunidade de adeptos à família na aproximação com o sagrado.

O templo57 projetado e construído sob os auspícios de William Hoyer é um retângulo com cerca de 8 metros de largura por 14 metros de comprimento, com capacidade para mais ou menos cem pessoas – número geralmente presente à principal cerimônia: o culto de domingo à noite. Na fotografia abaixo, temos a frente do templo voltada para a casa da família Hoyer, havendo uma distância de cerca de cinco metros entre as duas construções e uma contigüidade entre o local para classes de estudo da igreja e a casa da família.

Além dos cultos de domingo à noite, os demais rituais regulares no templo da COTP são: às terças-feiras à noite, o “culto de oração” dirigido pelo Pastor Carlos Hoyer; às sextas à tarde, “culto de libertação” dirigido por Grace Hoyer; nas manhãs de sábado tem o “culto de consagração” dirigido também por Grace e Nielsen Hoyer; sábado à noite tem um

57 A categoria templo é usada pela maioria dos grupos protestantes em contraposição a categoria igreja, sendo

esta a designação da comunidade religiosa, enquanto aquela, o local de reunião. Embora as igrejas protestantes enfatizem que o sentido de sacralidade esteja na reunião dos crentes independente do local, não retiraram por completo o caráter sagrado do templo, sendo um elemento resistente ao “enxugamento” do sagrado operado pelo protestantismo (fruto de sua maior secularização, em comparação com a tradição católica). No caso em estudo, em nenhum momento observamos essa clivagem entre templo e igreja exposta, o que permite uma maior valorização do templo, do local, como sagrado.

“culto de mocidade”, geralmente dirigido por Mirela Hoyer, esposa do Pastor Carlos Hoyer e líder dos jovens; e domingo pela manhã tem uma “escola bíblica”, dividida em classes por faixa etária, onde os professores são: dos adultos, o Pastor Carlos Hoyer; dos jovens a sua esposa Mirela Hoyer; das crianças, Rosa (moradora do condomínio da família Hoyer e funcionária da empresa Hoyer e Rocha), e dos chamados “Novos convertidos”, a Nielsen Hoyer. No culto de domingo à noite, a direção é quase toda do Pastor Carlos Hoyer, geralmente, auxiliado por suas irmãs e esposa.

Recentemente a igreja adotou uma estratégia de expansão bem comum às igrejas evangélicas. Existem grupos de estudos bíblicos nos lares que acontecem nas segundas ou quartas à noite, conforme a conveniência dos integrantes. Esses grupos estão à maioria na Divinéia e áreas vizinhas – um indício de que a maior parte dos adeptos da igreja reside nessas áreas –, e os líderes desses grupos são, na maioria, os diáconos; soube de apenas um grupo no Cohafuma que é liderado pela sogra do Pastor Carlos Hoyer.

Voltando à descrição física do ambiente, há quatro entradas para o templo, duas à frente e uma de cada lado, estas bem próximas a um patamar superior que funciona como palco de onde se dirige as cerimônias. O intrigante é que, apesar dessas entradas laterais estarem mais próximas ao portão de acesso à rua, portanto por onde os membros e visitantes adentram ao pátio exterior, eles preferem utilizar as entradas à frente da nave, acredito que seja, assim como me senti, para fugir do constrangimento de entrar próximo ao palco, e evitar chamar atenção dos que já estão dentro assistindo a cerimônia.

Desse modo, como vemos na foto seguinte, enquanto as entradas principais estão voltadas para a casa da família Hoyer, os fundos do templo estão voltados para a rua, isso impede qualquer contato direto do templo com a rua, sendo quase impossível aos transeuntes perceberem o que se passa ali dentro e até mesmo identificar se ali há uma igreja pela

ausência de uma arquitetura ou qualquer símbolo religioso, exceto uma placa sobre o muro lateral indicando o nome da igreja, porém um tanto ocultada por folhas e galhos.

O certo é que há dificuldade de identificar que ali há uma igreja e isso é sentido pelos próprios membros da comunidade. Conversando com M. (uma jovem há 4 anos pertencente à COTP), ela disse-me que primeiro o seu pai foi para lá, apesar de não ter identificado bem que era uma igreja: “Porque é estranho uma igreja que a porta não é pra frente!”.

Essa configuração espacial do templo em relação a casa e a rua é no mínimo incomum a qualquer religião que pretende fazer prosélitos; no cristianismo e no protestantismo brasileiro isso é ainda mais excêntrico. Todavia, podemos perceber que ela não é um mero detalhe que pode ser facilmente descartado. Primeiro, porque nos seus quase vinte anos de existência verifiquei, por fotos do início da igreja, que a arquitetura do templo não mudou. Segundo, porque a relação Igreja-Casa está no centro de uma “visão” de um chamado que é “pra família”, fornecendo sua razão de existir e a razão de existir da própria igreja. Por

isso essa configuração do espaço é mantida, embora um tanto constrangedora para os membros não pertencentes à família (como no momento de adentrar ao templo) e de ser objeto de controvérsias que, vez por outra, parece tumultuar a paz da comunidade religiosa.

Essa centralidade de sentido que tem a configuração do espaço é perceptível no depoimento de uma pessoa da família Hoyer:

já houve muita gente reclamando que a igreja fica nos fundos da nossa casa. Não é verdade, a igreja fica na frente da casa, é a própria razão de existir (...) é fruto de uma visão dada pra família, foi assim que Deus quis. Quem reclamar, que vá pedir uma outra visão pra Deus, montar uma igreja pra si.

O sentido do espaço é bem consolidado nas representações da comunidade. Quando perguntei a M. se já haviam pensado em mudar a porta para a rua, ela disse-me que não sabia, mas achava que não “porque ela foi feita assim pelo Pastor William e foi assim que Deus deu a visão”.

Como podemos perceber, enquanto uma pessoa da família assume, diante do pesquisador, os conflitos que a relação Igreja-Casa geraram, um adepto comum da igreja, acredita que isso não foi questionado, pois jamais alguém poderia querer transformar o modelo “dado” por Deus.

Esses depoimentos são importantes, pois confirmam que até mesmo a estrutura daquele espaço visa transmitir uma representação que se pretende impor ao grupo social, negando os conflitos, tensões e negociações subjacentes a essa lógica. Essa configuração do espaço assegura para a família que seus comportamentos, valores, crenças e modos de existir estão fundados em algo permanente, o SER e, simultaneamente, para os demais membros da igreja, desprovidos desse poder simbólico, o reconhecimento da hierarquia de autoridade pelo desconhecimento da arbitrariedade dessa representação. (BOURDIEU, 1996, p. 106).

Outro aspecto que é importante ressaltar na relação Igreja-Casa refere-se a um conjunto de elementos que envolvem o ambiente, infundindo em quem se aproxima dele uma sensação de lugar sagrado, não restrito ao templo e seu entorno, mas que se estende à casa da

família. Essa sensação é reforçada e constitui-se pela representação transmitida nos discursos, nas práticas, e nos símbolos presentes no ambiente. Em minhas visitas, percebi um esforço discursivo para criar um sentimento de identificação com o lugar, uma enunciação visando, ao mesmo tempo, torná-lo familiar e reafirmar o seu caráter sagrado.

Uma das fiéis da igreja geralmente apresenta poesias sobre a “Casa de Orações”. Seus versos são repletos de simbolismos significativos para um cristão. Certa vez, comparou a “Casa de Orações” com o “Mar Vermelho que se abre” e atribuiu o título de “lugar da adoração, da comunhão, da multiplicação”. Mais do que palavras, essas expressões revelam uma representação coletiva da presença da “graça de Deus” sobre o lugar, e não sobre as pessoas como é a ênfase das denominações protestantes, além de identificar as ações religiosas daquela comunidade, sob “administração do sagrado” da família Hoyer, como exemplos de reversibilidade das épocas criadoras. Assim como Deus fez no passado a “Casa de Orações”, é o Deus que faz no presente!

Certamente a narrativa da fundação da igreja contada anteriormente é a fonte dessa representação, tendo a “graça de Deus” atingido de maneira especial a família, como se vê nesses discursos do Pastor Carlos Hoyer pronunciados no culto de aniversário de fundação da igreja: “A história de nossas vidas [da família] se resume à história da igreja”; “Deus separou nossa família para essa obra”; “William foi obediente, um homem de Deus”; “fomos levados”.

Mas também o próprio ambiente em torno do templo e da casa foi projetado para dar essa sensação de proximidade com o sagrado. O pátio externo do templo é bem arborizado cercado de palmeiras imperiais e várias plantas menores. Também, na entrada principal do templo, tem um terraço envolto por um canteiro de plantas e um cercado de madeira. É um lugar bem silencioso, dando uma sensação de tranqüilidade bem distinta da rua, tanto que os

primeiros diáconos ao chegarem preferem realizar suas orações do lado de fora a adentrar no templo.

A foto acima expressa a sensação de continuidade entre as construções (o templo, ao lado esquerdo e a casa, ao fundo). O templo é o símbolo maior dessa integração Igreja- Casa. Sua arquitetura em nada infunde essa sensação de grandiosidade do sagrado e de pequenez do homem, comum à maioria dos templos cristãos (inclusive protestantes), tendo mais uma aparência de uma casa do que de uma igreja. Aliás, a arquitetura do templo, os materiais que foram usados na sua construção são semelhantes aos da casa da família Hoyer; até móveis são permutados entre ambas, aumentando a sensação de continuidade entre elas.

Se a igreja não deixa de ser uma extensão da casa (tendo até a aparência de casa), por outro lado, a casa é tratada como uma extensão da igreja, compartilhando de sua sacralidade, pela presença da “graça de Deus”, mas inserindo um novo elemento na diferença qualitativa do lugar – a tradição requerida pela família Hoyer.

Para Halbwachs (2006, p. 159), “A estabilidade da habitação e sua aparência interior não deixam de impor ao grupo a imagem pacificante de sua continuidade”. Um ambiente que conserva a sensação de antiquário, de museu através do mobiliário e dos comportamentos passados é uma espécie de retorno ao tempo passado, ao “tempo forte”, atuando sobre o espírito do grupo que vive ali, promovendo sentimentos de segurança quando as pessoas e o mundo a sua volta mudam constantemente, reforçando um sentimento de distinção para si e para os demais.

Essa é uma inspiração oportuna nesse caso. A casa da família Hoyer é decorada por objetos e móveis antigos e rústicos, notícias de jornal sobre a família, livros antigos nas estantes, fotos de William e do seu pai, Henry Hoyer, com uniforme militar. Enfim, certa nostalgia perpassa aquele espaço. A casa, com esse ambiente retrô, transmite uma auto- representação de que os valores da família estariam fundados “desde sempre”. Isso contribui para a consolidação da memória dos seus antepassados construída pela família no sentido de anunciar, como nos disse certa vez o Pastor Carlos, a herança da “graça de Deus que alcança as gerações da família”.

N‟outro aspecto também, a casa é muito responsável pela impressão do “ethos familiar” à igreja. É comum as pessoas depois das cerimônias na igreja irem para a casa dos Hoyer tomar um cafezinho (eu mesmo fui algumas vezes). A própria disposição dos ambientes e dos móveis atrai as visitas para a mesa da cozinha (uma mesa retangular de mais ou menos uns quatro metros de comprimento, podemos dizer, tamanho família) e de uma forma que as pessoas que entram ali logo se sentem mais íntimas e acolhidas pelos Hoyer.

No capítulo anterior, vimos o “resgate” desse passado dos Hoyer no Maranhão feito pelo William. É importante entender essa obsessão de William pelos antepassados (a viúva admitiu em uma de nossas conversas, tê-lo criticado duramente de “cultuar os mortos”), em sua reconstituição histórica. Para Eliade (2006, p. 83), “aquele que é capaz de recordar

dispõe de uma força mágico-religiosa ainda mais preciosa do que aquele que conhece a origem das coisas”. Além do mais,

O passado assim revelado é mais do que o antecedente do presente: é a sua fonte. Ao remontar a ele, a rememoração procura, não situar os eventos num quadro temporal, mas atingir as profundezas do ser, descobrir o original, a realidade primordial da qual proveio o cosmo, e que permite compreender o devir em sua totalidade (ELIADE, 2006, p. 108).

No tópico seguinte, venho explicitar como os ritos da igreja fundada (re)atualizam esse “tempo da graça” que se deseja perpetuar sobre a família.

6.4 Ritos e crenças

Para Eliade (1992, p. 63), “por meio dos ritos o homem religioso pode „passar‟, sem perigo, da duração temporal ordinária para o Tempo sagrado”. Os ritos, portanto, são instrumentos de recuperação do tempo mítico, pela repetição dos “gestos primordiais dos deuses”. Nele os seres humanos se sentem contemporâneo dos deuses e participantes de sua obra criadora. Os ritos são capazes de retirar os seres humanos de seu tempo histórico – profano e pessoal – e o lança num tempo sagrado, permanente, eterno presente indefinidamente recuperável. Assim, os ritos (re)atualizam o tempo primordial no tempo histórico profano.

Nesse sentido, destaco nos rituais que observamos da igreja em estudo apenas os significados que se expressam em práticas recorrentes nos cultos, tentando compreender, neste caso específico, o que Eliade chama de necessidade humana de viver no “tempo dos deuses”. Pretendo compreender também de que forma o par de conceitos identitários Evangélica-Pentecostal, assim como Igreja-Casa, é uma porta de acesso às lutas e negociações simbólicas daquela comunidade, atuando sobre suas crenças, atitudes e rituais.

Os cultos de domingo à noite começam por volta das 18 horas, com uma convocação feita pelo dirigente (geralmente, o pastor ou sua esposa) em tom emocional, enquanto alguns adentram ao templo, outros se ajoelham antes de sentarem e outros exaltam- se em expressões de “aleluia” e “glória a Deus”.

Em todos os cultos que estive, aos domingos, chamou minha atenção o fato da matriarca, Waldete, sentar-se sempre numa cadeira na frente dos bancos em que a congregação se acomoda, numa postura que lhe permite uma visão ampla do salão, observando todos os presentes e os que estão chegando.

Depois, tem-se um longo momento de cânticos, durante 50 a 60 minutos, onde o Pastor Carlos é músico, dirigente, “fala em línguas” (glossolalia) e as interpreta. Nesse período, os participantes demonstram mais liberdade em suas expressões corporais; eles dançam, levantam as mãos, batem palmas, choram e outras manifestações “efervescentes”, típicas das igrejas pentecostais.

Durante esse momento, dirigido pelo pastor e suas irmãs, uma delas Grace Hoyer, declara ter visões de anjos ou do próprio céu (um misto de visão e arrebatamento), trazendo uma mensagem para a igreja, ou para uma pessoa que está presente ali, mas sem declarar a quem se dirige, de maneira genérica e impessoal.

Algumas vezes, alguém se apresenta e ela impõe as mãos sobre a cabeça dessa pessoa com palavras de ordem para exorcizar ações demoníacas expressas em doenças físicas, emocionais e conflitos pessoais (não observei ali um exorcismo de possessão). Ela pede para todos clamarem, chama os diáconos para a oração impondo as mãos à distância, “unge com óleo”, “fala em línguas estranhas”, muda a entonação da voz. Cria-se, enfim, toda uma ambiência cuja polifonia de vozes e símbolos engajam o corpo do fiel através dos sentidos para essa situação, na qual o sentimento de compartilhamento de crença do grupo gera

estímulos psicológicos de “ação divina” e de cura do corpo e/ou da alma do fiel atormentado, por intermédio da ação de Grace Hoyer. (RABELO et al., 2002).

Logo depois desse período – ainda sob o impacto da efervescência do louvor e do êxtase da cura, misturada ao temor suscitado pela revelação e palavras de advertência do Pastor Carlos ou de Grace Hoyer –, tem início a exposição da Bíblia, geralmente feita pelo pastor, e mesmo quando não é ele o expositor, ao final da mensagem, ele procura fazer algumas emendas.

As exposições do Pastor Carlos têm uma característica interessante, poderíamos dizer que transpõem facilmente fronteiras imaginárias – criadas pelas classificações sociológicas – entre características “ditas” como de igrejas protestantes históricas e igrejas pentecostais; as mensagens bíblicas transitam de uma racionalização, intelectualização e sistematização (traços atribuídos às prédicas de igrejas históricas), a uma linguagem comum, repleta de exemplos do cotidiano e desenvolvendo gradualmente um tom emocional, expressando os “dons do espírito”, principalmente “línguas estranhas” e sua interpretação – dando a sensação de serem palavras do próprio Deus –, chegando até ao êxtase coletivo.

No primeiro domingo de cada mês, tem-se o ritual da ceia, no qual se distribui o pão e o vinho, comum às igrejas cristãs. Mas o que me chamou atenção na COTP foi o momento do vinho. Como sabemos, para o cristianismo, o vinho simboliza o sangue de Cristo, mas na COTP há acúmulo simbólico neste elemento, o pastor diz que “ele é milagroso”, “é santo”, e depois que todos o tomam simultaneamente, ocorre uns 3 a 5 minutos de êxtase na congregação, há uma polifonia incompreensível e que só gradualmente se tranqüiliza ou quando é complementada por uma oração do pastor mantendo essa ambiência extática.

Por fim, tem-se o momento dos dízimos, animado por uma música. São dados os avisos das programações da semana, quando o pastor incentiva a congregação a estar sempre nos cultos, perguntando se foi bom, se eles saíram diferente do que entraram.

Ao término do culto, é feita uma oração e depois as pessoas se confraternizam. Nesse momento, os membros da família Hoyer são bastante requisitados, sendo bem difícil conversar com algum. Todavia, a matriarca procura dar atenção a todos; ela comporta-se como uma mãe de todos da comunidade, tratando-os carinhosamente e até, já a vi, ajudando materialmente alguns membros que a procuram em suas dificuldades.

As categorias weberianas nos são úteis para qualificarmos a ação religiosa dos agentes e de que forma eles agregam capitais simbólicos reconhecidos pelo grupo social. Todavia, não podem se transformar em armaduras conceituais, porque a ação religiosa não está estanque nessas categorias. Na verdade, os agentes sociais transitam por elas, são fronteiras, lugares de passagem, ou, nas palavras de Weber, se encontram fluidas na realidade, isto é, estão combinadas.

Pela descrição acima, fica patente o monopólio no exercício dos carismas por parte da família. Do início ao fim do culto o Pastor Carlos Hoyer é o protagonista, atuando como dirigente, músico, adorador, pregador; na linguagem weberiana, ele transita entre as categorias de sacerdote profissional que influencia os deuses por meios de veneração e que tem seu poder legitimado pelo cargo que ocupa, e profeta, o indivíduo que atua graças ao seu carisma pessoal e cuja função se distingue da do mago por estar balizado em doutrinas e mandamentos (WEBER, 1999).

Durante o “efervescente momento de louvor”, ele é acompanhado por suas três irmãs. Estas também demonstram seus carismas através de revelações, profecias e ensinos; destacando a ação de Grace Hoyer transitando entre as categorias de magos, “que exercem uma coerção sobre demônios, por meios mágicos, tendo a revelação como oráculo”, e profeta

– como acontece no ritual descrito de cura do corpo e d‟alma dirigido geralmente por ela e pelas admoestações impessoais de conteúdo ético que faz. É com o monopólio destas práticas rituais que o carisma da família é “provado” perante a comunidade. (WEBER, 1999).

Se nos detivermos um pouco mais na ritualística da igreja, podemos interpretar a