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Quando recebemos uma mãe ou um casal de pais para a primeira entrevista, eles trazem como queixa inicial o recém-obtido diagnóstico ou pelo menos uma hipótese já levantada. Estão pedindo por uma segunda opinião profissional. O nosso papel é escutá-los e não olhar para a patologia, transtorno, doença, ou qualquer denominação que o caso recebeu, mas, desde o primeiro encontro, é preciso acolher suas dúvidas e questionamentos e conhecer as potencialidades da criança com suas características psíquicas, dando-lhe a escuta, brincando e observando a sua relação com os pais. (DOLTO, 2014; TAFURI, 2003).

A forma de avaliação pela qual a Psicanálise estabelece o próprio diagnóstico inicia- se com esse acolhimento, que ainda não é a análise propriamente dita, mas que pode vir a ser. Dolto (apud MANNONI, 2004) confirma que a singularidade do psicanalista é a sua receptividade e escuta, pois os pais já chegam encaminhados por alguém, médico ou professor, que conhece a dificuldade pela qual estão passando, mas também não os pode ajudar. Para chegar até esse encontro, passaram por muitas frustrações, tiveram a imagem do filho ideal quebrada e agora procuram por alguém que tome o seu partido, por isso, precisamos levá-los a relacionar aquilo que estão trazendo como queixa, rearticulando com sua própria história, para que possam resgatar algum sentido naquilo que estão trazendo (MANNONNI, 2004; ABERASTURY, 2007).

O que faz diferença nesse momento é que os pais vão poder falar livremente, não vamos julgá-los, dar-lhes ou tirar-lhes a razão. Até agora, os pais consideram seu filho como o problema que os levou até a consulta. À medida que falam e que introduzimos alguns questionamentos simples, como O quanto brincam com o filho durante a semana?, Como observaram as dificuldades que a escola relatou? Que estratégia usaram para ajudá-lo? A cada questão, é preciso escutar o que eles dizem e o que não dizem também, aos poucos

percebemos que o discurso vai mudando. É interessante como a primeira sessão pode ser reveladora, não de uma verdade contida nos manuais, mas de uma verdade daquela família, que só pode ser dita por eles mesmos, aos poucos, mas, ao sentirem-se acolhidos, é provável que retornem (DOLTO et al., 2004).

Tafuri (2003) apresenta uma forma de atendimento da criança autista, em que recebe os pais junto com a criança, desde a primeira consulta. Faz o acolhimento, com a preocupação de abrir o espaço para que falem da angústia que sentem frente ao problema. Podem falar também de suas expectativas com relação a toda a situação trazida. Observa-se, o modo como os pais lidam com as dificuldades que vão surgindo durante o tempo da consulta. Essa forma de acolhimento pode ser estendida para qualquer situação de chegada à análise. De acordo com Dolto (2010); Mannoni (2003); Aberastury (2007) e Tafuri (2003), a primeira entrevista é reveladora do lugar da criança no discurso familiar, porém é de grande importância que o analista não julgue, nem estabeleça críticas ou proponha condutas, para não correr o risco de impedir o início da análise.

Quando os pais continuam trazendo seu filho para as sessões, abre-se a possibilidade de uma demanda de análise. A partir daí, buscamos escutar em que lugar a criança está inserida no discurso dos pais, dependendo de como escutamos a queixa, é possível dialogar com outros profissionais. Primeiro, a escuta será com os familiares e outros cuidadores próximos, como babás e, em muitos casos, madrinhas que acompanham de perto o desenvolvimento da criança. Já vivenciamos situações em entrevista que a madrinha conhecia a criança e tinha algo a dizer mais do que a mãe. Não vamos julgar isso do ponto de vista moral, mas sim para considerar as relações afetivas que foram construindo.

As intervenções com os pais devem ser feitas com cuidado e a partir de uma necessidade vigente, muitas vezes, por entrarem em resistência, começam a não levar os filhos para as consultas, assumem outros compromissos, alegam falta de horário, outra terapia e assim por diante. Freud (2006, [1933], p. 181) diz que, ao se perceber a resistência, o psicanalista deve exercer certa “influência analítica” sobre os pais. Psicanalistas de várias gerações retomaram esse conceito mostrando que, nas intervenções com os genitores, é preciso entender a presença dos pais reais na transferência compartilhada (da infância atual da criança), dos pais criados na fantasia do adulto, por isso, às vezes, é preciso retomar com eles suas próprias histórias geradas pela fantasia de infantis, para que assim o desejo da criança ou o seu sintoma apareça e a análise avance, como no caso de Mel e seu meio-irmão do passado, que pôde ser resgatado, levando Mel a ressignificar a própria vivência de desamparo (DOLTO, 1981; MANNONI, 2004; FLESLER, 2012).

Durante esse tempo, uma análise vai iniciando dentro dos seus pressupostos. Atendemos a criança na sua própria forma de se relacionar com o ambiente, de brincar, de explorar o espaço disposto para acolhê-la e ela vai nos conduzindo para conhecer seu jeito de ser. Fora do consultório, nos dispomos ao contato, se for o caso, com os outros profissionais que estão trabalhando com ela também, como professores, médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, apenas para citar os que mais aparecem quando há um diagnóstico médico implicado. O objetivo desse diálogo é conhecer o que pensam sobre o caso, saber como estão tratando as dificuldades da criança.

Como vimos no terceiro capítulo, trata-se da criança que ficou de fora do ideal narcísico, tanto de seus pais, quanto da sociedade, representada pelo saber científico que define que ela não está de acordo com o que se espera para o seu grupo de idade. Esta criança passa a ser vista pelo rótulo das suas necessidades ditas “especiais” ficando à “deriva no campo da palavra e da linguagem” (LEVIN, 2005, p. 13).