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Levar a cabo uma sociologia relativista e dos limiares implica reequacionar o papel que a teoria, e particularmente o conceito, tem vindo a cumprir na investigação sociológica que, sendo tradicional, ainda hoje prevalece. Reza a tradição que a ‘formação do espírito científico’, assertiva que intitula um dos mais conhecidos textos de Bachelard (1996), depende da observância de três etapas: a rutura com o senso-comum, a
construção do objeto científico e a verificação empírica. A teoria, conjunto articulado e coerente de conceitos, seria então o instrumento de rutura e construção por excelência e, por isso mesmo, o garante da cientificidade do objeto de estudo. Finalmente, numa última etapa, as hipóteses teóricas seriam empiricamente testadas, aduzindo a validade, ou falta dela, da teoria em causa.
Ora, esta visão a respeito do que deve ser a teoria, que lhe atribui uma função de comando, de guia regulador, esta visão que nela crê ter o último bastião científico e a sua salvaguarda, não pode deixar de estar em estreita afinidade com as perspetivas, sejam explicativas, sejam compreensivas, do social da transcendência, da mesma maneira que não pode deixar de estar intimamente estribada numa conceção de verdade que a afunda, que a empurra para as profundezas e a oculta para mais tarde, servindo-se da teoria,
desvelar. A teoria, como comummente percecionada, situa o que há conhecer. Queremos com isto dizer que ela não se vem aplicar a uma realidade dada, que ela não é um mero intermediário entre o observador e o observado, que não é uma mera ferramenta ocular através da qual o sociólogo aprimorasse a observação, não só aumentando a nitidez da realidade, mas sobretudo, trazendo ao de cima a verdade invisível, enfim, com ela, estaria o sociólogo seguro de converter a realidade senso-comunal num objeto científico. Estamos distantes deste tipo de ciência. Segundo pensamos, a teoria assim concebida engana-se quando julga focalizar a realidade: ela antes agencia, performa, isto é, seleciona e liga e com isto recorta e situa uma certa verdade, colhendo dessa dupla-operação o seu fundamento e a sua eficácia. Argumentamos, neste sentido, que a discussão acerca do que deve ser a teoria no curso da investigação sociológica está mais próxima de uma discussão política, do que propriamente epistemológica, que ela deve estar ciente da sua função performativa, mais do que na sempre ilusória esperança de obter uma verdade. Toda a questão da teoria se resume a isto: como performar? Questão, antes de tudo, política.
Essa incontornável afinidade que uma certa visão da teoria e uma aceção metafísica da verdade social estabelecem transparece na forma como o conceito deve operar na investigação, como ele nela atua e funciona. Se repararmos, o conceito é justamente o meio através do qual a teoria (re)corta, ele é o instrumento que permite à teoria selecionar o que importa, conectar esses elementos, limitar um determinado domínio de pertinência e, finalmente, policiá-lo, domesticá-lo, supervisionar os seus movimentos, medi-los, prevê-los e antecipá-los – os arautos da ciência veem nisto a aproximação à verdade (Hennion, 2012). Aos nossos olhos, não passa, o que já é muito, de política. Evidentemente que não há forma de estudar um agenciamento sem o agenciar, sem o colocar num outro agenciamento, um agenciamento que o estuda. É por isso que não propomos um estudo exterior e axiologicamente neutro do agenciamento literário desenvolvido no Programa de Português. Propomos um agenciamento do mesmo. A questão é colocá-lo num agenciamento que dele retire linhas profícuas, que dele extraia novas possibilidades de fazer diferente, que o estude sem recorrer a nenhum tipo de transcendência, que lhe seja, ao fim e ao cabo, imanente. Enriquecer a leitura literária, puxar-lhe linhas que possibilitem atualizar-lhe virtualidades até então inexploradas, criar novas visibilidades e sensibilidades – eis, assumamo-lo, a nossa política, não sob a forma de ideário, mas pleno programa de experimentação.
Para tal, sugerimos uma viagem até ao grau zero do conceito. É nele, nesse conceito zerado – o que é diferente de lhe postular a inexistência —, que pensamos
encontrar uma visão da teoria compatível com a aceção de verdade aqui defendida. Com efeito, “a pior coisa que pode suceder a alguém é possuir a verdade. A melhor é sê-la” (Silva, 1999, p. 162). É que o conceito permanece servo de uma lógica que vê na verdade, senão algo teoricamente apropriável, uma meta para a qual nos deveríamos encaminhar, uma luz-guia das tentativas de aproximação à mesma. Porque é um operador unitário, o conceito centraliza e exterioriza a explicação. “Habitus”, “libido”, interesse”, “agência”, etc.: seja como for, concentra-se num espaço virtualmente construído pelo conceito todo o potencial explicativo. Da mesma forma, por ser unitário, dotado de uma plasticidade previamente definida que lhe determina o alcance e as fronteiras, o conceito peca por interiorizar a diferença, por assimilá-la, referindo-a sempre à unidade, ao modelo, e com isso dominando-a. Assim, torna-se inevitável que, sendo filtrada pelo conceito, a diferença se modelize, se agrilhoe nas formas da oposição, do negativo, da contradição (mesmo que a dialética), nunca chegando a valer pela positividade que lhe é própria. Assim, torna-se inviável pensar a separação de si, a autodiferenciação, a variação, a disjunção, processos que, esses sim, enformam o literário. Pensar é, antes de tudo, fazer diferir, não refletir (Deleuze & Guattari, 1995, 2004; Foucault, 2009).
Ora, com o grau zero do conceito, procuramos, na senda de Agostinho da Silva, ser a verdade. Não por pensarmos que a verdade se ache no individual, no pessoal, no subjetivo, mas antes por considerarmos, como já foi defendido, que ela se encontra na relação, no fluxo nunca inteiramente apropriável. Nesta verdade, já não há espaço para a propriedade, apenas para a ligação, para a afinidade, para a amizade. ‘Zerando’ o conceito, demandamos uma conceção da teoria que seja útil ao procedimento descritivo e cartográfico, que seja compatível com o sociólogo caminhante sobre os filamentos, uma conceção de teoria que nos permita acompanhar os caminhos trilhados pelo texto literário, por mais estreitos que eles sejam, que não exclua nem imponha caminho algum.
Zerar o conceito não é sinónimo, como apesar de tudo tememos dar a entender, de abandonar totalmente o conceito. Pelo contrário, zerar é um procedimento que toma o conceito por alvo e que dele se vale. Ele não por finalidade a inexistência do conceito. Ao contrário, ele pretende amplificar-lhe a potência. O grau zero do conceito é o resultado da desunificação, da descentralização, da diferenciação, da variação, da sub-determinação do conceito: ao que resta, chama Hennion, com a nossa subscrição, “attachment” (Hennion, 2012). Noutras palavras, trata-se de um procedimento que visa trazer o conceito, objeto bem formado, de volta à sua condição-multiplicidade, à pura potência da relação, para que dessa forma nos possamos movimentar com a máxima expedição e
desembaraço pelos troços seguidos pelo texto. Attachment, o que sobra do conceito esvaziado, a ligação como grau-zero do conceito, a ligação fazendo-se; primazia da relação em detrimento dos termos relacionados; attachment, ferramenta propícia para mapear a constante circulação de fluxos, ferramenta sub-determinada, situacional, ferramenta de abertura à pluralidade e à diferença.