• No results found

Como exposto no Dicionário de Ciência Sociais (1987) o termo “geração” sociologicamente pode ser definido de quatro formas:

a) uma geração compreende todos os membros de uma sociedade, cujo comportamento entre si e com relação aos membros de outras gerações se baseia no fato de serem contemporâneos, ou de descenderem de um ancestral comum no mesmo número de graus; b) uma geração compreende a prole do mesmo progenitor ou progenitores e é contada como um único grau ou passo para calcular a descendência de uma pessoa ou família de um ancestral mais distante; c) uma geração compreende todos os membros de uma sociedade que nasceram aproximadamente na mesma época, aparentados ou não por laços de sangue; d) uma geração é o segmento de tempo entre o nascimento dos membros de uma sociedade nascidos na mesma época e o nascimento de sua prole, considerado este segmento de tempo estatisticamente admitido pelo cientista social um certo período, geralmente 30 anos (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1987, p. 514).

Para Mannheim (1982) uma geração não seria um grupo concreto e menos ainda se configura como uma associação, em sua ótica geração é assemelhada às posições de classe. No entendimento do autor, os indivíduos são pertencentes a classes, mesmo que desconheçam tal fato, o que acontece também com relação à geração. Mesmo relacionando geração com fatores biológicos, Mannheim considera que a interação social entre os indivíduos, a presença de estruturas sociais definidas e ainda a necessidade de continuidade, o pensamento sobre geração não seria alocado como um “fenômeno de localização social” mas apenas haveria o nascimento, envelhecimento e a morte.

De acordo com Eisenstadt (1956) em sua obra “De geração em geração” a interação entre indivíduos de faixas etárias diferentes é essencial para que o sistema social funcione e tenha continuidade; ainda chama atenção para as divisões sociais, em especial no trabalho, relacionadas às diferenças etárias.

Qual é a significação destas características para a vida familiar, para o indivíduo e para a sociedade? Sua maior importância parece residir no fato de que indicam os vários tipos de relações sociais e atividades que se acham combinadas no seio da família. É a combinação destas várias atividades [...] que permite à família desempenhar sua função socializante e ser a viga mestra da solidariedade e continuidade social. Na família, o indivíduo

aprende os vários tipos de atividades que exigem dele, na qualidade de membro pleno da sociedade e as várias maneiras de superar as tensões e frustações inerentes à vida social disciplinada (EISENSTADT, 1956, p. 13).

Feixa e Leccardi (2010), ao realizarem um levantamento histórico sobre o conceito de geração a partir das teorias sobre juventude, propõem uma revisão das raízes do pensamento sociológico no que tange à conceituação de geração. Dessa forma, os autores descrevem que a noção de geração surgiu em três momentos históricos distintos, com quadros sociopolíticos específicos: na década de 1920 entendia-se como um “revezamento-geracional”, com uma perspectiva de coexistências de gerações; na década de 1960, quando surge a noção de “problema geracional” e seus conflitos e por fim, em meados de 1990, entendida como uma “sobreposição geracional”. Ainda cabe fazer referência ao fato de nessa última abordagem os autores descreverem um jovem mais habilidoso que os jovens de gerações anteriores.

Na ótica de Foracchi (1972, p. 24) “as relações entre as gerações, o conflito ou a continuidade que entre elas se estabelecem, são analisadas com base na crise da juventude ou, mais precisamente, na crise de uma geração”. A autora ao afirmar a necessidade da continuidade das gerações, esclarece que o conflito entre as gerações seria o embate de uma geração com os valores básicos de outra geração, por desconhecê-los ou não os querer preservar. Quando uma geração se nega a seguir tais valores se dá o conflito, “o conflito se estabelece quando a crítica não é absorvida, quando as tradições mais ricas perecem na apatia, no conformismo, na negociação de si. As barreiras de idade são irrelevantes nesse conflito que é de valores, de adesões prévias”. Porém, “isso não impede que a idade seja objeto de definição social e que, sob esse ângulo, o conflito de gerações seja estabelecido em torno de limites de idade” (FORACCHI, 1972, p. 25).

Para Dowbor (2005) é por meio das gerações sucessivas que a sociedade se reproduz e onde se dá a organização dessa reprodução é na família, considerando que atualmente o processo ocorre de forma mais complexa perpassando outras instituições. O autor, ao considerar essa temática em localidades rurais, expõe que:

Nas sociedades tradicionais, havia uma certa continuidade na organização da produção de uma geração para outra. Na era rural de agricultura familiar, a inserção produtiva ocorria naturalmente, pelo fato de haver coincidência do domínio e do espaço produtivo. O filho ia pouco a pouco aprendendo com o pai as fainas agrícolas;

organizavam-se diversas formas de divisão de trabalho familiar. Em outros termos – e mantendo a nossa visão de que a família constitui um processo de reprodução social –, o trabalho representa uma continuidade entre as gerações (DOWBOR, 2005, p. 302). Considerando as relações geracionais em contextos rurais, Krauskopf (2005, p. 176) salienta que “a diferença entre o que o indivíduo projeta para a sua vida e os projetos que sua família forjou para ele pode ser considerada como indicador da velocidade de mudança na sociedade”. Ainda, segundo a autora,

mantém-se o “adultocentrismo”, que provém das tradições patriarcais: discrimina as pessoas que estão na fase juvenil pela idade, não incorpora nem legitima suas perspectivas, desqualifica ou estigmatiza as manifestações que não coincidem com as expectativas dos interlocutores mais velhos. [...] A distância entre jovens e adultos se modificou. Os jovens sabem coisas que os adultos não sabem e os adultos têm recursos e capacidades para oferecer. Por isso é fundamental a colaboração e a co- responsabilidade ente as gerações (KRAUSKOPF, 2005, p. 177- 178).

A autora finaliza que para os adultos é difícil encarar a necessidade de redistribuir o poder caracterizado pela participação do segmento juvenil, porém afirma que é necessário valorizar a juventude e flexibilizar a geração anterior para que se possam incorporar conhecimentos e ainda contribuir com inovações. Vale retomar o que nos anos 1970 foi exposto por Balandier (1976) o confronto de gerações; para ele a relação de gerações é algo central que explicita de forma clara o problema da reprodução social.

Outra perspectiva a respeito do conceito de geração é dada por Lima (2008) quando esta a entende como categoria social. A autora expõe que:

As categorias sociais – ou gerações – como a infância, a adolescência ou a juventude, são resultados das transformações materiais, conceituais, religiosas, históricas, culturais, sociais, econômicas, ideológicas e outras, que as ações humanas no mundo desencadeiam, criando assim novas realidades e formas de existência para cada segmento geracional (LIMA, 2008, p. 32). Por fim, como exposto por Barros (2006), atualmente é por meio de reflexões acerca das formas de sociabilidade, das experiências de vida dos distintos segmentos da sociedade e ainda grupos etários que se pode entender as gerações.