A professora Alessandra é solteira, tem menos de 35 anos e situa-se no grupo de professores que têm de 5 a 12 anos de experiência no magistério. Ela também fez sua licenciatura em Química em uma faculdade particular. Como a professora Denise, Alessandra tem um cargo efetivo no ensino fundamental em uma escola e atua como professora contratada em outra (ambas da rede estadual). Sua carga horária situa-se entre 18 e 36 aulas semanais. A renda de sua família é de cerca de dois salários mínimos por pessoa. O seu pai é um dos poucos que concluíram o Ensino Médio.
O discurso de Alessandra mostra uma recepção positiva da voz da inovação, identificada com “uma Química mais voltada pra realidade do menino, pra assuntos que estão mais presentes no dia-a-dia” (turno 6), onde se busca um maior envolvimento dos alunos. No entanto, é forte a oposição que essa voz enfrenta: nas escolas estaduais, os alunos são fracos e as condições materiais são precárias. No mesmo turno, Alessandra afirma: “achei o curso muito bom, sabe, mas eu achei isso, eu achei muito bom o curso lá!”. Nesse e em outros pontos de sua entrevista, Alessandra destaca, com muita ênfase,
a grande diferença existente entre os dois contextos: o do Programa e o da escola pública estadual.
/.../ As atividades que foram colocadas lá no Programa foram atividades bem de acordo com o conteúdo que a gente ministra, mas (+) eu achei as atividades bem ALÉM do que a gente dá no Ensino Médio. Foram atividades boas, claro, com material muito bem preparado, apostilas, os materiais de laboratório, materiais práticos, mas eu achei bem além. Primeiro, que nossas escolas nós quase não temos laboratório. /.../ Então nós / eu achei as atividades bem além desse nível dos meninos. E a gente percebe que nesses cursos claro que é muito mais fácil porque (+) estão sendo trabalhados lá professores. E a gente quando / mesmo que em determinado momento a gente tenta se colocar como aluno, é muito diferente da situação quando você traz isso aqui pra sua realidade, né?; você enquanto professor passar isso aí para os meninos. Porque (+) a dificuldade / a cada ano que a gente está percebendo que os meninos estão chegando menos preparados, mais fracos dentro da sala de aula. /.../ Quando a gente vai trabalhar, por exemplo, no segundo ano, na parte de Físico-Química, que a gente trabalha muito cálculo lá, a gente encontra meninos que não sabem fazer uma conta de divisão, o menino que quando você fala em fazer uma regra de três, ele não sabe o que é uma regra de três./.../ Então, (+) eu acho assim, esses cursos são muito bons, claro, a gente troca experiências e até essas angústias também do dia-a-dia, né?, essa falta de de retorno pro trabalho da gente MAS parece que fica muito lá. Igual eu gostei muito desse Programa, achei o curso MUITO bom, sabe, // mas eu achei isso, eu achei muito bom o curso LÁ, mas (+) na prática aqui, eu ainda não consegui colocar muito daquilo que eu vi, não, sabe? /.../ realmente eu acho que a gente precisa de uma mudança no estudo de Química, uma Química mais voltada pra realidade do menino, pra assuntos que estão mais presentes no dia-a-dia, eu sei que isso aí vai chamar mais a atenção. /.../
O clima é de tensão entre várias vozes
No longo turno 6, várias vozes se combinam numa composição marcada pelo conflito. É preciso tentar articular a proposta de inovação com o programa curricular vigente, representado pelas temáticas de cada série e pela seqüência que deve haver entre o trabalho dos professores das séries subseqüentes.
/.../ Então eu tento colocar um pouco mas ao mesmo tempo acaba que por mais que a gente tenta desligar de programa cê pensa: ‘Mas enquanto eu estou nisso e o meu programa do 2o ano? E depois? E se o ano que vem eu não estou com essa turma?’ Porque eu sou uma professora contratada. Aí o professor fala assim: ‘Ué, ela foi dar Química Orgânica e a parte de Físico- Química que ficou para traz? /.../
A situação de precariedade, representada pela condição de professora contratada também influi no posicionamento da professora Alessandra. A voz da formação inicial na licenciatura é outra que se opõe à inovação:
/.../ Acho que porque quando a gente estudou mesmo no ensino fundamental, quando a gente fez o curso da gente ((a licenciatura)), tudo isso, a gente foi preparado de uma outra maneira, né? /.../
Por outro lado, Alessandra e seus alunos estão cansados “do tipo de aula que eu (ela) já venho dando há muito tempo”. Mas as condições da escola não ajudam: Alessandra reclama da falta de material e apoio técnico.
/.../ E agora, essas mudanças que / eu tenho visto que é boa e eu tenho sentido necessidade DELAS porque eu mesmo estou cansada do tipo de aula que eu já venho dando há muito tempo. Eu penso que, claro, que se eu estou, ainda mais os meninos. Só que é difícil saber como fazer essa mudança. Acredito que quem está estudando HOJE, fazendo um curso de Química HOJE, diante de todas essas mudanças, vai encontrar muito mais facilidade do que eu, do que professores que fizeram o curso anteriormente, né?, como / novas / assim, metodologias antigas e hoje temos novas metodologias. Mas esses cursos eu acredito que é um passo, né?, não tenho idéia pra outra coisa. Acredito que esse curso é sim. Esse Programa, o Programa e (+) o material que o pessoal está preparando é muito bom, isso aí eu não (+) não estou colocando em questão, o material é bom mas só que / Igual lá no Programa também, nós fizemos lá no campus da Universidade: laboratórios ótimos, né?, tem o pessoal lá, técnico do laboratório pra preparar tudo pra gente, nós temos tudo de que necessitamos lá. O que aqui a gente não tem nada./.../
É uma conjuntura angustiante. Alessandra fala do seu interesse pelo material distribuído e discutido no programa, de sua empolgação inicial, da pequena carga horária da Química no Ensino Médio, do programa enorme e da expectativa de alguns alunos com o vestibular. Ela destaca também o seu despreparo, sua dificuldade de “coordenar” as novas idéias em sua cabeça e de “trabalhar de uma maneira diferente”, correlacionando os conhecimentos com a vida prática dos seus alunos.
/.../ a gente chega superdisposta, você querendo colocar aquilo tudo pros seus meninos mas o problema é como colocar, aí você vai tentando, você prepara, prepara, quando vê, você pensa: ‘mas isso aqui não cabe aqui nessa matéria’ e (+) o número de aulas pouco, aquele programa enorme e o menino querendo / levando pro cê apostilas de vestibular, sabe, levando provas de vestibular: ah ‘eu quero saber essa matéria aqui assim’, ‘eu quero que você me ajuda a resolver essa, essa e essa questão’ então a gente parece que se perde. Então quando eu fui pro Programa eu até coloquei no primeiro dia lá que pediram pra a gente colocar as expectativas, o quê que foi buscar, eu coloquei isso. Que eu fui tentar buscar isso aí, ver se eu conseguia coordenar essas idéias na minha cabeça e trabalhar de uma maneira diferente, que eu mesma estava cansada das aulas que eu estava dando, EMBORA (+) por mais que eu desse o melhor de mim eu acredito que os meninos também já estavam cansados de uma / de aulas que estavam distantes da realidade deles, né? /.../ eu tenho participado dos cursos mas eu tenho encontrado essa dificuldade (+) de correlacionar.
Alessandra reconhece a sua falta de preparo para saber relacionar o conteúdo químico com as práticas cotidianas. Além disso, faltam boas condições de trabalho nas escolas. Em meio a tanta carência, a hegemonia da voz do ensino tradicional parece permanecer fora de risco.
8. Eu (+) infelizmente (+) eu queria aulas mais práticas, sabe, não digo só prática de laboratório. O menino poder relacionar o que eu estou transmitindo de teoria com a prática. Vamos supor, ele ir no mercado, saber examinar o rótulo ali, né?, de um produto (+) e várias outras. Mas eu acho que (+) minhas aulas ainda estão bem teóricas, sabe /.../ está muito só ali, quadro de giz, aquela aula tradicional, sabe, fórmulas, resolução de problemas, isso tudo aí. Então eu gostaria dessas aulas mais ligadas mesmo com o dia-a-dia deles, com as experiências deles. Só que eu ainda encontro um pouco de dificuldade em como levar isso, sabe, um despreparo mesmo. /.../
Várias vozes estão em tensão na fala de Alessandra, disputando um espaço na forma de se posicionar frente à inovação: a do programa tradicional, a do Programa, a de um outro professor, a da formação inicial e a da própria professora, duplamente insatisfeita, com o ensino tradicional e com as condições de trabalho que representam obstáculos às possibilidades de mudança. Esse clima de tensão entre as diversas perspectivas marca toda a fala da professora Alessandra. Se a voz do ensino tradicional ecoa na realidade vivida, a da inovação soa no campo do desejo. A angústia e ansiedade presentes na fala de Alessandra parecem imobilizá-la e impedi-la de se posicionar mais claramente em relação à inovação.