2.1 Innledning
2.1.2 Overordnede hensyn
Observado o processo dinâmico do nomadismo da voz em uma comunidade em que a oralidade é o veio principal na comunicação entre sujeitos, outro tipo de nomadismo que pode ser descrito em relação aos textos carolíngios é o nomadismo da escritura. Decodificar a trajetória de um texto milenar como as narrativas de Carlos Magno pode tornar-se um trabalho sisífico, pois desde La Chanson de Roland aos quadrinhos brasileiros, os textos carolíngios circulam sem território fixo. Nesse caso, a verba volant estará fixada na scripta manent, essa ocorrência esta atrelada ao
nomadismo da voz para a escritura, assim o texto movente adentra a letra dos folhetos nordestinos.
Para que se compreenda esse tipo de nomadismo, é necessário observar o caráter de popularidade dos folhetos carolíngios no nordeste brasileiro. Cascudo (1953, p. 441), descreve o potencial de popularidade da narrativa de Carlos Magno nas bordas sociais.
A HISTÓRIA DE CARLOS MAGNO E DOS DOZE PARES DE FRANÇA foi, até poucos anos o livro mais conhecido pelo povo brasileiro do interior. Raríssima no sertão seria a casa sem a história de Carlos Magno, nas velhas edições portuguesas. Nenhum sertanejo ignorava as façanhas dos Pares ou a importância do Imperador da barba florida. (CASCUDO, 1953, p. 441).
Dessa popularidade pontuada pelo autor destacam-se alguns elementos que devem ser levados em consideração nesse processo de nomadismo da escritura. São eles: o termo livro, único exemplar impresso, e a referência ao termo as velhas edições portuguesas.
Primeiramente, o que se pode entender do uso do termo “livro” utilizado por Cascudo (1953) diz respeito a como os folhetos eram/são percebidos pelo povo do Nordeste, assim sendo, esses folhetos e romances eram/são considerados pela população nordestina como seus “livros”. Sobre os títulos que são dados aos folhetos, Galvão (2000, p. 21), faz uma tipologia de nomes dados aos folhetos.
“Folheto”, “livrinho de feira”, “livro de histórias matutas”, “romance”, “folhinhas”, “livrinhos”, “livrozinho ou livrinho véio”, “livro de história antiga”, “livro de poesias matutas”, “foieto antigo”, “folheto de história de matuto”, “poesias matutas”, “histórias de João Grilo”, “leitura e literatura de cordel”, “história de João Martins de Athayde” ou simplesmente “livro”.
Curran (1973) demonstra que aquilo que é produzido pelo poeta popular pode ser entendido como livro. O autor destaca que “o poeta popular é um profissional, de seus livros” (CURRAN, 1973, p. 274). Desse modo, o termo livro não deve ser interpretado como o suporte livro, na perspectiva do povo nordestino o folheto de cordel pode ser vislumbrado como um livro.
No que concerne a matriz/referência de onde parte o impulso criativo para o poeta popular, tem-se uma menção, núcleo duro, ou plot para a concepção desses folhetos nordestinos, um livro português em prosa, História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França, que aborda a trama carolíngia que data o ano de 1864. Neste caso, tem-se o objeto “livro”, ponto de partida para o processo de criação dos textos carolíngios pelo poeta popular.
Cascudo (1953) descreve sem maiores desdobramentos a questão das “velhas edições portuguesas”, ou seja, livros que serviram de apoio e inspiração para a criação de textos sobre a temática carolíngia no nordeste. Todavia, o estudo de Ribeiro (1987, p. 86), acrescenta que:
Quando Cascudo nos diz que a lenda de Carlos Magno circulava no interior do Nordeste “nas velhas edições portuguesas”, isso permite supor que seriam edições livrescas de onde o tema passou à literatura de cordel.
No processo de nomadismo da escritura, a presença de um texto matriz é relevante para a elaboração dos folhetos nordestinos. Esta é a consideração que Jerusa Ferreira (1979) estabelece entre a expressividade de detalhes encontradas nos textos carolíngios, e a escassez desses mesmos detalhes presentes nos folhetos arthurianos. Segundo a autora, o fator preponderante que diferencia essas duas tradições discursivas (carolíngia e arthuriana) é a presença de um texto carolíngio matriz, texto que o poeta pôde manusear, no caso da tradição discursiva arthuriana há a ausência de um texto matriz para a confecção dos folhetos.
A obra descrita como “pedra de toque” (SANTOS, 2006) para a criação de uma tradição discursiva sobre Carlos Magno nos folhetos de cordel é a História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França (1864), segundo pesquisadores dos folhetos nordestinos, esta é a matriz ou estímulo primário para os poetas populares, como Leandro Gomes de Barros que concebeu seus “livros”, narrativas homônimas aos eventos encontrados nesse livro português. A esse respeito, Ribeiro (1987, p. 86) associa a figura de Leandro Gomes de Barros ao texto em prosa português.
Muitos poetas nordestinos cantaram as aventuras de Carlos Magno e os Doze Pares. Leandro Gomes de Barros, lembra Cascudo, “versejou” aproveitando motivos da História do Imperador Carlos Magno, A Batalha de Ferrabrás e A
prisão de Oliveiros. Na verdade, poucos poetas trataram o tema com a força expressiva, a riqueza de episódios, o domínio da arte narrativa, que distinguiram o velho mestre paraibano.
A partir do que foi exposto, pode-se inferir que a fonte em que o poeta retira a inspiração para a criação de seus folhetos é esse antigo livro português. Ora, todos os temas evocados por Ribeiro (1987) estão contidos na versão portuguesa em prosa da História do Imperador Carlos Magno (1864). Essa variante é considerada por alguns pesquisadores como matriz para o processo de criação dos folhetos por parte de Leandro Gomes de Barros.
Figura 1 – História do Imperador Carlos Magno, Segundo
Leandro Gomes de Barros se debruçou visando à concepção de seus folhetos sobre Carlos Magno15.
Outra fonte expressiva em relação ao nomadismo da escritura da narrativa portuguesa para o nordeste brasileiro é observado na pesquisa realizada por Abreu (1999). Segundo a autora, os textos envolvendo Carlos Magno (suporte folheto português) iniciam seu processo de desterritorialização rumo ao Brasil por volta de 1769 e 182616. De acordo com Abreu (1999), uma gama de folhetos portugueses foi enviada para o nosso país, e “os cordéis mais enviados ao Brasil narram as histórias de Carlos Magno (...)” (ABREU, 1999, p. 54). Têm-se então duas fontes primárias que servem de matriz para os textos carolíngios encontrados no nordeste. Neste caso, o nomadismo da escritura se dá tanto pelo viés do livro em prosa, quanto do folheto em verso17.
Vale destacar que os folhetos portugueses que chegaram ao Brasil diferem na forma, composição estrutural, dos folhetos produzidos no Nordeste. Ressalta-se a forma da escritura do folheto português, pois esse é produzido para ser lido ou declamado como um apoio mnemônico. Além disso, a composição textual do folheto português é
deveras truncada(ABREU, 1999), enquanto em solo tupiniquim, a estrutura das rimas
tem um caráter que favorece o canto, e por meio da performance do poeta, esse canto rimado favorecerá a fixação da narrativa na memória do público ouvinte.