Um telejornal é uma representação do que “acontece” no mundo – acontecimento no sentido jornalístico daquilo que, emergindo da superfície supostamente lisa da vida, irrompe como singularidade e como “variação de sistema” na acepção de Alsina (1983), pela ruptura com normas ou procedimentos esperados, potencialmente comunicável a outrem (ou, pelo menos perceptível e implicando o envolvimento de sujeitos com relação ao ato comunicativo). Transformado em notícia, “relato jornalístico de acontecimentos relevantes para a compreensão do cotidiano”, na definição de Sodré (1996), o acontecimento reveste-se de uma linguagem adequada ao receptor a quem se dirige, tornando-se, na expressão de Mouillaud, (1997) um “fato envelopado”. A seleção dos “envelopes” expedidos aos possíveis leitores – telespectadores no caso do JN – dá-se no interior de um universo que, além das rotinas de produção57 e formatação de linguagem próprias, tem como objetivo atingir um vasto público de milhões de telespectadores, dos mais diversos extratos econômicos, sociais e culturais: pobres, ricos, analfabetos, intelectuais refinados. Espécie de utopia midiática, o telejornal
57 Sobre este tema, o fazer jornalístico, o cotidiano da redação e a linguagem do telejornalismo, cf. Silva (2002).
Em sua dissertação de mestrado, a autora não só descreve a rotina de trabalho de todos os envolvidos na produção de um telejornal – pauteiros, repórteres, editores –, como também se detém sobre o jargão específico da categoria: termos como escalada (o anúncio, no início do jornal, das principais notícias), a passagem (interferência ao vivo do repórter na matéria), espelho (previsão das principais matérias, que vai mudando, ao longo do dia, com o desenrolar dos acontecimentos).
persegue uma espécie de linguagem “branca”, isto é, sem marcas autorais, semelhante ao sonho borgeano de um conto passível de ser lido em qualquer língua, em qualquer tempo.
Em torno do objetivo impossível de ser alcançado, atingir os telespectadores durante o tempo todo, elabora-se o telejornal. As matérias jornalísticas são breves, a presença dos repórteres é discreta, tanto na emissão da fala, nas roupas de cores “lisas” (de preferência bege), quanto nos gestos minimalistas: ali naquela casa aconteceu tal coisa. O mais
importante é a notícia, proclamam os manuais de telejornalismo, não o repórter, que não
pode, jamais, se sobrepor a ela. A atenção do telespectador é cultivada obsessivamente – afinal, ela é efêmera, volátil, a qualquer momento pode deslizar pelo zapping para outro canal (e adeus pontos de audiência, o que significa perda de publicidade, recursos).
Para atingir simultaneamente essa vasta comunidade virtual, o JN – como qualquer outro telejornal comercial do sistema capitalista – cultiva o balance: o equilíbrio entre matérias jornalísticas consideradas importantes, relacionadas à política, à economia, que supostamente podem afetar a vida das pessoas, e as interessantes, que provocariam o alívio para o telespectador instalado em sua poltrona, propiciando o que se chama, nas redações, uma “pausa para respiração”. O telespectador, afogado em números, tragédias, fatos importantes, enfim, respira. E toma fôlego para continuar a aventura.
No JN, o chamado “equilíbrio” é utilizado também para contrabalançar a violência que irrompe no dia-a-dia em suas variadas formas (denúncia de exploração de trabalho escravo, prostituição infantil, corrupção, malversação do dinheiro público, assassinatos), contrapondo- se os aspectos considerados positivos também existentes na vida: as chamadas matérias “edificantes”. O termo, de uso oficioso e informal da redação, remete ao seu significado dicionarizado.58 Trata-se de reportagens que abordam atitudes de caráter positivo, de cunho
58 Em dicionários etimológicos franceses, como o Dictionnaire Historique de la langue française (p. 1187) e o
Dictionnaire Etimologique du Français (p. 216), a palavra édifiant tem raízes longínquas no tempo que evocam verão, céu luminoso, claro brilhante, passando pelo local, numa casa, em que o fogo aquece, daí derivando templos sagrados, casas e verbos que tomaram, desde o fim do século 17, em latim cristão, o
individualista ou coletivo. Pode ser, por exemplo, como já foi exibida, a história de um homem que encontrou a carteira de outro e, anonimamente, devolveu-a a seu proprietário, tendo antes pago as contas que iam vencer na data. Ou, no sertão nordestino, a matéria sobre vizinhos que se unem e põem fim ao autoritarismo de apenas uma pessoa controlar o poço de água de uso coletivo. Essas reportagens, de cunho social, existem na Globo há, pelo menos, duas décadas, mas sua exibição tornou-se mais freqüente nos últimos 5 anos, tornando-se, de 2003 para cá, as séries permanentes: “Brasil Bonito” e “Identidade Brasil”. “Brasil Bonito” ganhou identificação visual e auditiva: dezenas, centenas de rostos anônimos, estilo fotos 3X4 de brasileiros que, convergindo, se transformam na bandeira nacional. A outra série criada, “Identidade Brasil”, também recebeu uma vinheta própria que explora graficamente o símbolo da bandeira nacional e acordes estilizados do Hino Nacional, que se pretende e se apresenta como espelho do mundo real, mas na verdade trata-se de um construto, uma forma de apreensão desse mesmo mundo que também se utiliza amplamente (mesmo que não admita) de recursos ficcionais. Mas não se trata de um construto imóvel – nele também há movimento, conflitos, tensões –, por mais regrado e cerceado que seja por fórmulas em sua “linha de montagem”. Dele participam várias vozes, muitas vezes conflitivas: dos editores, dos seus proprietários, dos entrevistados, da própria concorrência a que é submetido (não podendo deixar de “dar” certos assuntos, por mais que isso contrarie seus interesses). O telejornal é um todo atravessado pelas vozes abafadas, suplementares, que emergem da sociedade, de tempos em tempos, tal como na narração historiográfica. Frente à imagem recorrente de harmonia racial no Brasil, de repente, num dia qualquer, comove a notícia, no telejornal, do assassinato de um jovem negro, num estacionamento, por policiais. Recém-formado em odontologia, fora confundido com assaltantes. Na tela, explode a fala emocionada do pai: “Meu filho morreu porque era negro; se fosse branco estava vivo.”
sentido moral de “fazer crescer na fé” e de “conduzir à virtude”. Por volta da metade do século 16, o verbo toma os significados ligados a instruir, “fazer alguém apreciar”.
No espaço tenso do telejornal, predominam as narrativas do Estado, mas também, numa polifonia atonal, aparecem as vozes dissonantes das minorias subalternas colocadas à sombra pelo poder dominante. O telejornal não representa apenas uma comunidade imaginada, porque isto constitui algo da ordem do impossível. Afinal, na cena simbólica em que a mídia representa a nação, o Outro sempre está lá. Como afirma Jacques, o alvo da comunicação não é o Outro, “ele está comigo em seu princípio” (Jacques apud França, 1998). Uma imagem de nação, por mais referenciada que esteja em tradições “inventadas”, sempre está vinculada ao real. Imagens de nação são como aqueles convites de festa intransferíveis: não são exportáveis ou intercambiáveis sem sofrer mudanças.
Daí o movimento, a face mutante do país. Às vezes, a irrupção do elemento performativo é escandalosa, como a cena do índio ajoelhado no asfalto, diante das armas que foram garantir a segurança nas celebrações oficiais dos 500 anos do Brasil. Em outras, ela é minúscula, discreta, quase imperceptível. Assim, uma simples nota coberta no JN, de apenas 20 segundos, fala da perseguição a um vira-lata que invadiu a pista de um aeroporto. O relato mostra o “enforcador” com que o animal foi capturado. A volta ao locutor, após a exibição das imagens de perseguição, mostra um apresentador visivelmente consternado – ele afirma que “o bichinho” terminou sendo morto na operação. O simples diminutivo – não se falou em cão, cachorro – mostra certa mudança de parte significativa da sociedade em relação a este outro, o absolutamente outro nos termos de Derrida, o Animal – pois também é em relação a ele que a humanidade se define, a este ser mais subalterno que todos os subalternos, porque sequer portador de discurso. Como afirmou Derrida (2004), a violência contra os animais torna-se, a cada dia, mais insuportável para muitos. O uso do diminutivo no telejornal traduz esta insuportabilidade na cena social contemporânea, tradução do movimento do mundo, de sua temporalidade vivida.
Cotidianamente, o JN inclui reportagens sobre violência nas principais cidades brasileiras, corrupção, mas também o famoso jeitinho brasileiro (para o bem e para o mal), o talento para o futebol, para a dança, a beleza das paisagens brasileiras, a hospitalidade brasileira e muitos outros elementos que compõem este vasto painel chamado Brasil. Muitos traços do desenho foram certamente herdados daquela concepção de essência do ser brasileiro. No entanto, na atualidade, o telejornal mostra uma composição mesclada a valores internacionais, pois também abre espaço para o zen budismo nas favelas cariocas, o balé internacional para crianças faveladas, os meninos pobres brasileiros fazendo um estágio num templo budista no Japão. Uma nação híbrida, inventada por Roberto Marinho. Ler este Brasil, suas várias versões, como afirma Silviano Santiago retomando o poeta Carlos Drummond de Andrade (Santiago, 2002b, p. XLVIII) faz parte do perene movimento de interpretar o nosso
claro enigma, cada vez mais encenado pelo discurso midiático informativo.