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Overlærer Schirmer og assistent Sinding-Larsen

De algum modo, o inspetor deixa transparecer que o modo simultâneo era a chave do sucesso em sala de aula. Em outros sítios do país, outros inspetores também averiguavam a inadequação de procedimentos individuais e mútuos de ensino, pouco sistemáticos para o exercício do ensino aprendizado e morosos no tocante à rapidez do percurso do conhecimento transmitido. Dizia-se então que faltava método àquela escola. Por método entendia-se, porém, um compósito bastante complexo e talvez confuso de crenças e de expectativas, que envolviam, do desejo de organização e de disciplinarização da vida escolar à obtenção de procedimentos uniformes e científicos de proceder ao trabalho educativo. Era preciso selecionar saberes escolares; era urgente compor uma trajetória própria de apropriação da cultura pela via da instituição. Mas não era isso que se encontrava nos diferentes cantões do país.

Muitas vezes, a própria casa da escola era estabelecida em locais inadequados, dificultando o que, com uma considerável frequência, impedia o afluxo dos alunos, sem que nada fosse feito pelas autoridades responsáveis no sentido de alterar a situação. Havia escolas que ficavam mesmo junto ao rio, sendo inundadas em épocas de cheias.230 Havia escolas que ficavam excessivamente distantes, o que levava a que os alunos precocemente desistissem de sua tentativa escolar. Havia escolas cujo inspetor lamentava...

Com luz escassa e ventilação insuficiente, o prédio em questão é considerado pelo inspetor uma “masmorra de granito”, sendo assim inabitável. O professor não vivia lá, mas a 5 km de distância. Ele tinha na época 57 anos e o inspetor o julgava inapto para o exercício do magistério, onde, apesar da elevada idade, estaria há apenas seis meses. “Soletra e conta muito mal - comenta o inspetor - (...) Tem alguma vivacidade natural, mas na idade em que se acha nem é capaz de aprender, nem pode ser, por nenhum modo, apto para ensinar.”231

230 Sobre a escola situada no concelho de Loure, freguesia de São Thiago no distrito de Coimbra, o inspetor faz

as seguintes observações gerais acerca do edifício, mobília e utensílios escolares: “O local em que

estabeleceram o edifício da escola é péssimo, e segundo a opinião de pessoas autorizadas que a este respeito ouvi, não se encontraria em toda a Villa de Loure um sítio mais impróprio e até insalubre. A casa está junto ao rio, e amiudadas vezes no inverno entram nela inundações, tendo por este motivo de se interromper as aulas durante alguns dias. Perto da casa, e quase contígua a ela, estão também o matadouro e o açougue.” (MR 1071. Distrito: Coimbra. Concelho: Loure. Freguesia: São Thiago).

231 MR 1067 (Livro do Ministério do Reino). Inspecção das escolas públicas e particulares do distrito de Braga

(círculos 3 e 4). Quesitos aos inspetores - 1875. Concelho: Fafe. Escola primária do sexo masculino. Freguesia: Pedraido.

456 Secular e casado, o professor António José Domingos da Costa possuía bom comportamento moral e civil. Acerca das condições materiais de funcionamento da casa escolar, o inspetor relata:

“É uma vergonha, é uma dor, é um escândalo perante a consciência nacional que uma escola mantida pelo Estado e gratificada por um município se apresente a emparelhar com o covil das feras. Pela dignidade nacional, pelo bem da instrução, por Deus, por tudo, eu peço aos que superintendem neste serviço público que a escola de Pedraido ou seja extinta ou imediatamente provida e reformada. (Chama por ela o merecimento e a necessidade do concelho de Celorico de Basto ).”

Não há dados estatísticos com relação aos alunos que frequentaram o ano letivo anterior, o que se deveria ao fato de o atual professor (interino) exercer esse cargo há apenas um mês e a referida cadeira ter estado vaga de professor definitivo por quatro anos. E a cadeira, “tendo sido ocupada por outros interinos, estes não prestaram ao atual os menores esclarecimentos acerca do movimento anterior desta triste e miserável escola.”

Sem critérios de zelo e de assiduidade, o professor garantia a disciplina perante a imposição indiscriminada do medo. Lecionando no período diurno, daria aulas pela manhã: no verão, das quatro às seis e meia. Diz que tal horário foi adequado segundo comodidade sua e das famílias. Utilizando apenas uma tabuada e a Cartilha da Doutrina Christã, de autoria de António J. De Mesquita Pimentel, o popular Abade de Salamonde, dizia ensinar pelo modo individual. Em relação aos dispositivos utilizados em sala de aula, consta do Relatório que “ensina rudemente. Não tem modos nem idéia do que seja método, porque ignora tudo. Todo o método cifra-se em gravar na memória dos alunos os sinais da linguagem ideográfica e fonética com algumas combinações rudimentares. Nada mais.” Seus registros de matrículas eram irregularíssimos, até porque - ironizava o inspetor - o professor não seria capaz de “ligar as sílabas na escrita”. Os castigos aplicados seriam manuais, posto que - nos termos daquele

Relatório assinado pelo inspetor Joaquim Ignácio d’Abreu Vieira - “nem o fatal instrumento da palmatória eu pude encontrar na aula.” A respeito das características próprias da rotina escolar, o inspetor relata o que pudera observar:

“Homem verdadeiramente rústico, o professor entretém a escola como meio de receber a mensalidade e de ganhar certo prestígio entre os seus companheiros das selvas. Cheguei ao local da escola às seis e meia horas da manhã e já os pequenos rezavam em algazariado a Salve-Rainha da despedida. Entrei a custo e a medo na aula ( porque a entrada para ela é um perigo ) e vi o professor meio nu da cintura para cima e descalço. Os discípulos trajavam o mesmo uniforme. Tinha tudo um aspecto de selvajaria, que me assustou a consciência de homem livre.”

Dias depois da inspeção, o professor foi substituído, já que o inspetor interviera junto ao Concelho nesse sentido, afiançando aos órgãos competentes o que considerou ser inaptidão daquele mestre improvisado e desleixado em seu ofício. Sobre a frequência dos alunos, era o reflexo das condições daquele específico modelo de ensino:

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“Encontrei na aula apenas nove alunos, menores de 10 anos e só um teria um pouco mais. O professor afiançou-me que neste ano se tinham matriculado 25 e que frequentavam a escola regularmente 47... Pareceu-me impossível que esta fosse a verdade, mesmo porque, perguntando sobre o caso, o regedor desta freguesia, o pároco e algumas mais pessoas, responderam encolhendo os ombros e sorrindo. Dos nove que encontrei, o aproveitamento é lastimável. E como não há-de ser assim?”

Era comum haver professores desse tipo que revelavam pouco cuidado para com uma profissão que só teriam talvez escolhido por total falta de melhor opção. Algumas vezes, na impossibilidade de ministrar a aula, o professor confiava esse encargo a alguém de sua confiança, muitas vezes o pároco da freguesia.232 Por essa razão e por outras análogas, nem sempre o trabalho da inspeção era bem efetuado, o que, de algum modo, viria a se refletir nos resultados da análise.