Tabell funn
4.4 Hjemme med det premature barnet
5.2.3 Overgangen – forberedelser mot hjemkomsten
Ao mesmo tempo que elaborava o trabalho compro e vendo Imagens no cen- tro da cidade de são Paulo no inal dos anos 1990, desenvolvi o projeto com- pro e vendo Imagens por Kilo na Zona sul da cidade.
metrópole com extrema poluição visual, a lei cidade limpa3 ainda não vigo-
rava em são Paulo e o espaço público era disputado com as imagens publici- tárias. outdoors, faixas, cartazes, back-lights, front-lights, bonecos inláveis, cavaletes e outras peças de publicidade tomavam a visualidade do espaço público de forma voraz. A presença desordenada da mídia externa na cidade
3 A partir de 2007 a interferência da mídia no espaço público foi revertida de forma drástica, quando foi lançada, pelo então prefeito Gilberto Kassab, a lei cidade limpa. A lei foi criada com o objetivo de eliminar a poluição visual em são Paulo. Proibiu publicidades externas, vedou anúncios em táxis, ônibus, bicicletas e aqueles que identiicavam, no próprio local, a atividade exercida. Para ver a lei 14.233 – cidade limpa - na íntegra consultar o site da prefeitura de são Paulo: <http://www3.prefeitura.sp.gov.br/cadlem/secretarias/negocios_juridicos/cadlem/inte- gra.asp?alt=27092006l%20142230000 > ; Acesso em 20/02/1014.
286 287 encobria os referenciais arquitetônicos, obstruía a insolação, a ventilação, e
diicultava o deslocamento nas ruas e calçadas. A política do poder público em relação à paisagem urbana era pouco efetiva e a pressão do setor privado so- bre a legislação, genérica e permissiva, reletia-se nas fachadas dos edifícios, cada vez mais tomadas.
no deslocamento diário que fazia de bicicleta entre a universidade, o estúdio e minha casa, passava por grandes avenidas como Av. santo Amaro, Av. hélio Pellegrino, Av. Faria lima, Av. cidade Jardim, Av. valdemar Ferreira. nesse trajeto, meus olhos eram constantemente desviados do chão para os outdo- ors publicitários: mulheres vendendo todo tipo de produto e principalmente suas imagens, carros novos em mundos paradisíacos, cervejas praticamente congeladas no deserto, comidas de plástico que nutrem.
A constante tensão entre essa realidade simulada, mas amplamente repre- sentada em imagens, e outra realidade não anunciada em painéis, se inten-
siicava a cada deslocamento: suspensa em outdoors, uma cidade estilizada ao máximo; pé no chão, a pobreza, a feiura e tudo aquilo que não inge para agradar. os painéis publicitários icavam maiores e mais chamativos enquan- to escondiam ruídos que pudessem levantar suspeitas sobre suas imagens. no chão, os carroceiros na avenida denunciavam, simplesmente com sua pre- sença, a nem sequer suspeita, mas a óbvia falta de sentido desse mundo da representação.
todos os dias em que eu passava pedalando pelo Bairro da vila olímpia, car- roceiros e catadores dividiam comigo a pista da direita da recém-inaugurada Av. hélio Pellegrino. Remanescentes do processo de reurbanização e gentri- icação do bairro da vila olímpia, os carroceiros vendiam ferro, cobre e papel para depósitos de reciclagem. Frequentemente eu via carroças lotadas de papel de todos os tipos: caixas de papelão, restos de embalagens, jornais e revistas, principalmente pela abundância de seu descarte na cidade. o pedaço de papel mais inusitado que observei foi um pedaço de outdoor. o carroceiro
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desejo de criar uma ruptura no ciclo das imagens
290 291 andava pela rua com uma publicidade gigante em sua carroça, deixando es-
capar entre os pedaços amassados o belo corpo de uma mulher de biquini.
A imagem do carroceiro carregando a publicidade operava uma inversão, ao visibilizar - e tornar-se visível - com a imagem que escondia sua presença. essa sobreposição antagônica de imagens de mundos foi o que fomentou a criação da ação compro e vendo Imagens por Kilo.
A imagem, como elemento central na cultura contemporânea, chega a fazer a própria realidade confundir-se com as imagens, ou tornar-se, delas, apenas uma sombra. esta inversão é, em grande parte, provocada por uma “esteti- zação”: o produto/artigo torna-se acessório, ornamento, e a estética, antes o complemento, passa a ser o principal. esse processo de “estetização” pro- move uma grande confusão entre o “ser” e o “parecer”, e produtos duvidosos podem, graças ao enobrecimento estético, tornar-se altamente desejados. o consumo das imagens e não dos produtos se dá de diferentes formas: no am-
biente urbano, promove-se o belo e, com ele, avança a encenação de um esti- lo de vida; na tecnologia, avança a virtualização; na arte, a espetacularização.
movido pelo desejo de criar uma ruptura no ciclo das imagens e desejos pro- duzidos pela publicidade, comprei uma carroça no depósito de reciclagem: agora eu mesmo seria o carroceiro indesejado que carrega para a reciclagem as imagens redentoras da publicidade. Para acentuar a operação, pintei a carroça de laranja. Percorrer as ruas com uma carroça laranja e vestido intei- ramente de laranja tornava quase impossível o processo de, como carroceiro, ser ignorado.
Percorri com a carroça espaços nobres, como as avenidas, e espaços menos visados, como becos e vielas. em todos esses lugares, era possível obter ima- gens descartadas em todo tipo de publicidade formal e informal. Anunciantes com mais dinheiro locavam espaços de mídia exterior, em outdoors que com- punham a gigantograia de 9 x 3 metros, enquanto anunciantes informais pro-
292 293 duziam cartazes em tipograia ou em serigraia e veiculavam (em sua maioria,
a programação de casas noturnas) com uma colagem clandestina nos muros mais baixos. de tudo, eu coletava. Ao inal do dia, dirigia-me ao depósito e efetuava minhas vendas e outras operações estéticas.
A carroça percorre as ruas recolhendo imagens que já foram consumidas e que são, agora, vendidas meramente como matéria-prima desprovida de aura estética. no exato momento em que as imagens são vendidas por quilo, está invertida a relação estetizante: a aura imagética não só foi subordinada ao produto, como quanto mais branco e sem imagens for o papel, mais caro po- derá ser vendido para reciclagem. o carroceiro que vende imagens por quilo é, por sua vez, um ícone de resistência, uma imagem que não está entre as preferidas para ser repetida à exaustão e vendida como estilo de vida: pobre, vendedor de lixo.
Ao transitar pela cidade com a projeção do metro Quadrado, a estetização da
cidade se faz presente. A cada mudança do valor ela é percebida, pelo excesso ou falta.
A estetização do espaço urbano visa alterar o peril sócio-cultural das cida- des e a gestão urbana visa, com ela, aumentar as estratégias de requaliica- ção dos espaços públicos e privados, acelerando a gentriicação. Para que os espaços se tornem atrativos para o capital, os personagens principais na composição do espaço público não podem existir para denunciar a falência do discurso estético-progressista dominante: são as classes baixas, o mercado informal, os moradores de rua, que, juntos, certamente perfazem a maioria da população em cidades como são Paulo. cria-se, assim, uma guerra para a expulsão das pessoas que delagram a realidade.
A intervenção metro Quadrado não chega a transformar a estetização da ci- dade, pois isso é tarefa para os urbanistas e ativistas, mas aponta espaços onde é possível criar rupturas. nos espaços com menores preços do metro
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matéria-prima desprovida de aura estética
296 297 quadrado, a imagem da cidade estilizada ao máximo ainda não está presente
e o controle ainda não se faz por completo; existem espaços para manobras e a vida pública pode ser conigurada de formas alternativas.
se não é possível inverter, num passe de arte, a estetização e consequente gentriicação da cidade, é possível encontrar alternativas que estabelecem outras vivências e experiências frente ao padronizado.
circular com a carroça ou com a Bicicleta visual já são, em si, imagens de resistência. tanto o vendedor de água, com sua bicicleta de carga, quanto o vendedor de cds piratas, não podem possuir veículos oiciais logotipados ou alugar estabelecimentos comerciais, e assim sobrevivem de suas gam- biarras.
“Acima de tudo, para entender a gambiarra não apenas como prática, criação popular, mas também como arte e intervenção na esfera social, é preciso ter
em mente alguns elementos quase sempre presentes. Alguns deles seriam: a precariedade dos meios; a improvisação; a inventividade; o diálogo com a realidade circundante local; o lerte com a ilegalidade; a recombinação tecno- lógica pelo reuso ou novo uso de uma dada tecnologia; entre outros” (RosAs, 2006, p.37).
A informalidade combativa é feita dessas invenções. A Bicicleta visual é gam- biarra, a carroça é gambiarra e, cada uma à sua maneira combate a desuma- nização das cidades, a exclusão dos corpos e a miopia social, e promovem a recriação intrínseca e a vitalidade própria ao e do espaço urbano.
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