Cartum 16: Superadas 2, p. 41
Neste cartum, a esposa recategoriza o “lugar desconhecido” a que se refere o esposo como as atividades rotineiras no acompanhamento da vida dos filhos; construindo, de forma irônica, outra versão que possa satisfazer o desejo do marido. Dessa forma, por meio da desfocalização, a esposa põe em cena o seu problema: o de não compartilhar com o cônjuge as suas “viagens” no cotidiano com os filhos.
A leitura do não verbal, com a mão da mulher apontando para si mesma reforça a ideia de que a questão colocada por ela é que deve estar em posição focal.
O pressuposto compartilhado referente ao descomprometimento de muitos pais nesse universo de cuidados com os filhos é responsável pela construção do constrói o humor.
Cartum 17: Superadas 1, p. 20
Uma mulher, desesperada pelo fato de o marido ainda não ter retornado, recebe da(o) amiga(o) o consolo de que o acontecimento que o fizera se atrasar possa ser de pouca gravidade. Ao fazer a interpretação da mensagem, a personagem infere um possível acidente. Ao dizer que tem que ser otimista, pois pode ter sido só um acidente na estrada, a personagem recategoriza a situação do possível acidente como uma situação positiva, se comparada à possibilidade de o marido estar com outra mulher.
A produção do sentido cômico dá-se pela forma com que a personagem reavalia uma situação trágica, como um acidente, como motivo para tranquilizar-se.
Cartum 18: Superadas 2, p. 27
Ao dizer que, com a separação, a amiga se livrou do marido como algo de que não utiliza há muito tempo, a segunda personagem recategoriza a “utilidade” do esposo da outra como um objeto de uso, que, se inútil, deve ser descartado para o fluir das boas energias, conforme a filosofia do Feng-Shui. O sentido cômico vincula-se ao saber partilhado sobre os discursos feministas que, muitas vezes, relegam o homem à posição de objeto de uso doméstico e sexual.
Observamos que os cartuns 16, 17 e 18, apresentados neste último bloco, referente à recategorização, são exemplos de como os objetos de discurso são construídos e reconstruídos durante a interação verbal, atendendo a um propósito argumentativo.
QUADRO SINÓTICO
LIVRO PRIMEIRO BALÃO SEGUNDO BALÃO TERCEIRO BALÃO SITUAÇÃO DE
ANÁLISE PÁGINA
Superadas 1, p. 135 Ufa! Alguma coisa te
deixa pior do que uma mulher que não trabalha e fica te pedindo dinheiro para tudo?
Sim, ter uma mulher que trabalha e nunca te pede nada... porque ganha mais do que você...
- Focalização 78
Superadas 1, p. 123 Não deve haver coisa
pior do que seu marido te trocar uma mais nova...
Tem sim, Clarinha, que ele te troque por uma da sua idade...
- Focalização 79
Superadas 2, p. 60 Ih, todo aniversário
minha vó faz a mesma coisa! Tem coisa pior que ganhar roupa?
Tem... ganhar um
joguinho didático...! - Focalização 81
Superadas 1, p. 64 Ah, estou babando
tanto com meu bebê! Foi assim com você? Quando teus filhos eram pequenos, não te dava vontade de comê-los?
...Sim, e depois, quando cresceram, fizeram tanta besteira que às vezes me pergunto por que não comi!
- Focalização 82
Superadas 1, p. 85 Esse papo de que a
tecnologia afasta a gente do lado humano é besteira... eu tenho celular, computador, laptop, agenda eletrônica, e--mail... E continuo com celulite! - Focalização 83
LIVRO PRIMEIRO BALÃO SEGUNDO BALÃO TERCEIRO BALÃO SITUAÇÃO DE
ANÁLISE PÁGINA
Superadas 1, p. 10 ...É que eu gosto da
vertigem, da aventura, das emoções fortes, entendeu? E você nunca me expõe a nada...! Tá legal... Vou te apresentar a meus pais. - Inferências 86
Superadas 1, p. 138 Quando minha filha
me disse que o namorado se dedicava à pintura, eu me acalmei porque imaginei outra coisa, entendeu?
Que pintava quadros, que expunha!
Não, que pintava apartamentos... que trabalhava!
Inferências 87
Superadas 1, p. 113 É casado sim... mas
está se separando, sabe?
Uhh! Imagino... Só não se separa porque a mulher está doente e é meio doida, né?
Ééé... Como sabe?
Conhece ele? Inferências 88
Superadas 1, p. 11 Desculpe, doutor,
mas... onde é que se injeta colágeno para preencher o vazio existencial?
- - Inferências 89
Superadas 1, p. 145 Conversamos por
várias semanas, trocamos e-mails... Ele diz que é alto, moreno e de olhos verdes... mas não sei se devo encontrá-lo!
Não seja
desconfiada! E por que não acreditar nele?
...porque eu disse que era magra, alta, ruiva e de olhos cinza...
LIVRO PRIMEIRO BALÃO SEGUNDO BALÃO TERCEIRO BALÃO SITUAÇÃO DE
ANÁLISE PÁGINA
Superadas 1, p. 80 É, meus pais se
divorciaram mal pra caramba, sabe? E minha mãe perdeu o processo pela custódia no tribunal...
Ih, que chato! Você a
vê...? Claro, ela teve que ficar comigo... Polifonia, interdiscursividade e intertextualidade
91
Superadas 1, p. 72 ...Decidi dar os
abajures de presente para que, quando se separarem, cada um possa levar um sem brigar... É, pode ser inacreditável pra você, mas me dá uma inveja Polifonia, interdiscursividade e intertextualidade 93
Superadas 2, p. 20 É, pode ser
inacreditável pra você, mas me dá uma inveja...
Pelo menos os dois sabem por que estão juntos...
- Polifonia,
interdiscursividade e intertextualidade
94
Superadas 2, p. 13 ...As jóias sempre
foram usadas para enfeitar as partes do corpo que merecem destaque... numa certa época, foram os decotes, em outra as mãos... os brincos também! Para emoldurar o rosto, dar brilho ao olhar...
Ah é? E nestes tempos de tanto individualismo, histeria e ego... onde são usadas? Onde mais? No umbigo! Polifonia, interdiscursividade e intertextualidade 95
Superadas 1, p. 127 ...Sim. Tenho 30
anos a mais, e daí? Hein? Pensem o que quiserem. Enfim... eu sei que ela gosta de mim pelo que sou!
...Um milionário. - Polifonia,
interdiscursividade e intertextualidade
LIVRO PRIMEIRO BALÃO SEGUNDO BALÃO TERCEIRO BALÃO SITUAÇÃO DE
ANÁLISE PÁGINA
Superadas 2, p. 41 ...Não falo de uma viagem só por viajar, é para conhecer algo novo, ir a um lugar desconhecido...
...Bom, se é assim, você pode levar os meninos ao médico... ou ir a uma reunião da escola...
- recategorização 92
Superadas 1, p. 20 E o que quer que eu pense? São duas da manhã e ainda não voltou para casa! Saiu com uma mulher! Entendeu? Ele tem outra!
Calma, deve ter acontecido alguma coisa...
Ah, tem razão. Tenho que ser otimista. Pode ser só um acidente na estrada! recategorização 97 Superadas 2, p. 27 O feng-shui é alucinante! Trata de modificar o espaço para alterar nossos destinos, entendeu? Por exemplo... diz que é preciso se livrar de tudo o que você não usa há mais de um ano...
Ahh... Agora entendi por que sua vida mudou. Você se separou?!
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embasados nas teorias da Linguística Textual, fizemos, neste trabalho, um estudo dos mecanismos linguístico-discursivos presentes nos cartuns de Maitena, responsáveis pela construção do sentido do texto e, por conseguinte, da comicidade, própria da intenção comunicativa do gênero trabalhado. A análise foi feita considerando as diversas teorias da Linguística Textual, as quais orientam nosso olhar para a produção do sentido, principalmente pela concepção de linguagem adotada por nós, que concebe o leitor como sujeito do ato de leitura, como um ser social capaz de construir um sentido para o que lê, num processo de colaboração com o uso efetivo da língua.
Ao interpretar a linguagem do cartum, todavia, esse sujeito-leitor pode ou não perceber um movimento cômico que o leve a achar graça no enunciado, pois isso dependerá da mobilização de seus conhecimentos de mundo, enciclopédico, linguístico, genérico e textual, quando da interação com o texto que, no caso do cartum, conjuga-se à imagem. A intencionalidade do autor em provocar o humor em um texto, portanto, não é o suficiente para provocar o riso. Cumpre salientar, no entanto, que, sendo o propósito comunicativo do cartum a provocação do humor, aquele que ri não estará rindo sozinho, já que, com ele, há os que compartilham da mesma crença.
De maneira geral – e estrategicamente –, na promoção do risível, a cartunista utiliza-se do diálogo, de forma recorrente, com o intuito de romper, na interlocução, com as expectativas do leitor em relação a seus conhecimentos e crenças (frames), conduzindo-o a outra orientação argumentativa. A partir do jogo lúdico, Maitena instaura a polêmica com a sociedade, apresentando discursos institucionalizados ao lado de outros que, por estarem ainda em discussão na sociedade, apresentam-se como novos. Essa estratégia torna latente o aspecto dialógico a que se refere Bakhtin (1988), pois sendo o dialogismo o princípio constitutivo da linguagem, o reconhecimento do discurso alheio passa a ser um pressuposto para a interação. Nesse ponto, rememoramos as ideias de Bergson (1983)[1940], para
quem o riso não se deixa acontecer sozinho, mas em uma interação viva com o discurso do outro.
Constatamos, pela análise referente à focalização, que um dos recursos utilizados pela autora para dar comicidade aos seus cartuns é a ruptura entre as diferentes focalizações que, num primeiro momento, concentram o leitor em um paradigma discursivo para, depois, desviá-lo para outro. Os cartuns analisados apresentam, dessa forma, uma caricatura da vida cotidiana sob um enfoque duplo, permitindo ao leitor a formação de uma nova compreensão das normas e valores advindos dos discursos sociais. Tal constatação encontra eco nas palavras de Travaglia (1990), para quem o humor aparece como uma forma de revelar e de flagrar outras possibilidades de visão de mundo, gerando conflito ao desorganizar padrões convencionados quando da busca de uma verdade.
Quanto às inferências, enfatizamos o processo inferencial como estritamente relacionado a um conjunto de saberes de natureza histórica, social e cultural, sem os quais não se podem estabelecer relações de sentido. No caso dos cartuns, as inferências são realizadas quando se é capaz de apreender as informações disponíveis, não só pelos componentes verbais, como também pelos não verbais.
Em relação à polifonia, interdiscursividade e intertextualidade, demos relevância ao processo intertextual e interdiscursivo, bem como evidenciamos o movimento polifônico. Nos cartuns apresentados nesse bloco observamos, de forma mais nítida, o entrechocar das vozes sociais.
No tópico referente à recategorização, atentamos para a forma como os sujeitos representam os objetos do mundo em uma situação discursiva, de acordo com os pressupostos compartilhados na interação e com outros fatores contextuais.
Com base nos resultados obtidos da análise, podemos afirmar que o sentido do texto não está no texto; tem, contudo, sua construção a partir dele quando o sujeito-leitor é capaz de estabelecer, no momento da interação, as relações autorizadas por:
a) reconhecimento do discurso do outro (interdiscursividade); b) focalização;
c) forma de utilização do léxico (modalizações/categorização/ recategorização);
d) inferências na busca do implícito;
e) reconhecimento do uso social que se faz da língua;
d) conhecimentos constituídos (de mundo, enciclopédico, textual, intergenérico e linguístico);
e) propósito comunicativo do gênero;
f) relacionamento dos textos entre si (intertextualidade); g) conjugação do verbal com o não verbal.
A percepção do jogo linguístico-discursivo que promove o sentido do humor está, de forma intrínseca, ligada aos fatores acima relacionados.
Em consonância com Possenti (2008), estamos certos de que os gêneros que pertencem ao domínio humorístico podem ser fontes expressivas para estudos linguísticos. Dessa forma, consideramos o nosso trabalho relevante, pois o cartum, dentro desse mesmo domínio (humorístico), apresenta-se como um gênero de abrangência múltipla à investigação da construção do sentido. Devido à característica icônico-verbal do gênero em questão, acreditamos ter contribuído também com a valorização de estudos no universo da imagem ligada à palavra.
Os resultados não se pretendem conclusivos – haja vista o universo de possibilidades oferecidas por esse gênero discursivo – e merecem, portanto, ser complementados por outras pesquisas voltadas ao funcionamento da língua.
De natureza anárquica – própria do humor que lhe é característico –, com textos curtos e com o apoio da imagem, o cartum apresenta-se de forma dinâmica para o leitor, reduzindo-lhe a resistência à leitura. Constitui-se, dessa forma, em um gênero aliado àqueles que se dedicam ao ensino e à aprendizagem da língua. Ademais, indaga-se: por que não aprender a língua rindo?
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