PART I: Extended Abstract
5. The findings and the discussion
5.1 The overall findings
4.1. Propomos uma apresentação do conceito-chave da teoria coseriana através das estratégias semântico-poéticas. Consideramos útil operar a demarcação destas no processo contínuo e não distintivo da criatividade humana, uma vez que a energueia torna possível o processo metafórico entendido como um processo de criação de sentido. Em seguida, tenta-se problematizar e revelar três facetas da mesma realidade que não se podem reduzir umas às outras e assim excluem-se as formas de pensamento reducionista e oferece-se um caminho possível de ultrapassar a simples descrição formal. Os momentos dividem teoricamente o processo criativo em passos sucessivos que não anulam o valor monádico e global da criação que surge espontaneamente.
Como sentido, a energueia altera a visão do mundo e a sua estruturação na nossa mente onde tudo o que se relaciona com o homem recebe a marca humana. Para melhor se entender este facto através da manifestação contínua, complexa e indivisível da energueia, interpreta-se a realidade semântica deste conceito em três estratégias semânticas possíveis, apresentadas como momentos de estruturação semântica: diafórico, endofórico e epifórico.391
4.2. O primeiro momento, diafórico, marca o rompimento entre a vida, a realidade, as coisas e as suas representações. O homem quer entender tudo. A energueia da linguagem está presente neste princípio da intelecção das coisas, de atingir a essência do existente, de criar, simbolizar, levar consigo e transmitir conteúdos semânticos, num processo contínuo de dar e receber sentido para a vida. Do ponto de vista histórico, é o momento em que são criadas as línguas, do ponto de vista individual é a altura em que o homem principia a falar. No momento diafórico, o homem deixa de ser o animal que vive numa horizontalidade dum presente contínuo, satisfazendo unicamente as necessidades vitais. Este primeiro momento cria uma tensão semântica que o acompanhará durante toda a sua vida, tensão entre o que ele vê, sente, vive, apalpa, cheira, ouve e a compreensão destas faculdades e actividades vitais através da linguagem, do relacionamento mental entre realidades, imagens mentais e palavras.
391 Termos pertencentes a Aristóteles. Mircea Borcilă no seu curso de poética na Faculdade de Letras de
Cluj, Roménia, utiliza estas estratégias semânticas para explicar o processo metafórico. cf. Simion Doru CRISTEA, Funcţia simbolic-mitică în textul religios, Cluj-Napoca, Editura Gedo, 2005, p. 117.
Quando o homem se depara com algo novo, transpõe o seu conteúdo mental para uma interpretação dos conteúdos semânticos já existentes ou cria uma palavra especial para denominar aquela realidade, sem a qual esta não pode existir numa dimensão semântica. O mesmo acontece quando o aluno se depara com novas palavras que devem ser preenchidas com conteúdos semânticos para serem entendidas, pois estas não contêm nada se os falantes não conhecerem o conteúdo da língua. Este momento leva-nos a entender como a linguagem, antes de qualquer determinação ulterior, é fundamentalmente “lógos semantikós”.
4.3. O momento endofórico, inteiramente simbólico, utiliza apenas as palavras para solucionar a tensão diafórica. O sujeito falante busca sempre correspondências entre configurações múltiplas. É o lugar de manifestação das operações mentais importantes do pensamento. Tenta-se pela primeira vez anular qualquer tensão entre o desconhecido e o conhecido, converter tudo em conteúdos de consciência, o que Coseriu denomina “entendido”. Tudo é e deve ser entendido, acreditado e partilhado com os outros. Estruturam-se mentalmente os mundos visível e invisível, palpável, afectivo, humano e divino. Qualquer dúvida e tensão no entendimento das coisas, na sua coerência e fluidez são anuladas. O sentido criado pela energueia numa actividade sistémica é de equilíbrio, de estrutura estável, de permanência, concretizado nos conceitos de verdade, de belo, de virtude, de mistério, de limpidez, de profundidade, de amor, de consanguinidade, de família, de amizade, por outras palavras, tudo o que confere um equilíbrio à humanidade. É uma boa oportunidade para desenvolver a reflexão humana, a meditação, a introspecção, preparando e motivando o homem a agir, executar, colocar em prática as palavras, os seus textos ou os textos de outrem.
4.4. O terceiro momento, epifórico, transpõe a dimensão semântica da língua para a prática, ultrapassa as limitações semânticas dos termos textuais, modela a realidade externa seguindo o sentido criado dum texto numa designação própria com uma abertura total para qualquer recriação. Esta última é, por assim dizer, a outra faceta da energueia, uma vez que tudo o que acontece é o resultado dum texto, sem o qual não existia nenhuma recriação. A energueia manifesta-se aqui como uma contínua modelação dum texto originário em textos derivados, recriados numa determinação ou outra. Epifórico é o espaço amplo da manifestação do “lógos semantikós” junto com as suas determinações ulteriores do “lógos apofantikós”, “lógos pragmatikós“ e “lógos poietikós”. O “lógos semantikós” com a determinação ulterior do “lógos apofantikós”, diferencia num juízo dual a existência da não-existência, a verdade da mentira, o bem do mal. Juntamente
com o “lógos pragmatikós”, visa qualquer manifestação pragmática da linguagem e a relação entre os textos e as diversas actividades humanas em domínios específicos: técnicos, científicos, políticos, ou as línguas gestuais. O “lógos semantikós”, concomitantemente com o “lógos poiéticos”, manifesta a energueia na sua forma mais comum: criar, identificar e comentar obras de arte. A manifestação poética da linguagem está igualmente presente na construção dum texto de outra natureza: científica, religiosa, política, concretizando a intencionalidade dos autores em demonstrar algo e convencer de algo.
Estas estratégias semânticas auxiliam-nos a entender a natureza processual da energueia, a sua vivência e dinâmica regenerativa contínua, o tomar sempre tudo do princípio e nunca se esgotar na criação do sentido, caracterizando a língua na sua essência e no seu conteúdo semântico. Precisamente por esta razão o homem é a sua linguagem, o homem é a linguagem, o homem é energueia em acto.