Imagens de Portugal sucedeu, em 1953, à série Jornal Português. Tal como a
antecessora - cujo fim coincidiu com a saída de Ferro do Secretariado - a produção e direcção da primeira série (1953-58) de Imagens de Portugal foi entregue, sem concurso, à SPAC (embora, desta vez, esta fizesse parte de um consórcio que também integrou a Produtores Associados, Lda.), recuperando o "cineasta do regime", António Lopes Ribeiro, a direcção técnica das actualidades de propaganda. Esta revista filmada - cujo operador a tempo inteiro foi Abel Escoto - tinha uma periodicidade quinzenal que, ao contrário da suposta mensalidade da sua antecessora, cumpriu e, como ela, tinha cerca de dez minutos de duração (uma bobina de 300 metros de película). Incluía sete a dez notícias e começava geralmente com uma "cultural" - uma reportagem mais alargada sobre localidades, festividades, museus, etc. - e prosseguia com o noticiário terminando, geralmente, com uma notícia de desporto.
Sobre as "culturais", Abel Escoto explicou-me: "Era uma maneira de dar a conhecer ao país coisas que havia e as pessoas não conheciam"98. Sobre o carácter oficioso de Imagens, Escoto comenta: "Praticamente era coisas oficiais. Havia desporto. Futebol, que era o que havia naquele tempo e pouco mais."
Uma informação de serviço, com data de 29 de Abril de 1964, de Bernardo Júdice da Costa, Chefe da Repartição da Cultura Popular, enuncia o que a lei da criação do Fundo do Cinema prevê quanto à utilização do "[...] cinema como meio informativo e cultural de exposição e divulgação, por meio de filmes de actualidades, documentários e congéneres [...]" e faz o historial da produção das actualidades. Esclarece que na primeira fase:
[…] a produção do jornal de actualidades foi, durante alguns anos, concedida, sem concurso. A partir de 1958, estabeleceu-se a norma de, mediante condições previamente divulgadas, abrir concurso entre as sociedades ou firmas inscritas no Grémio Nacional das Empresas de Cinema. Optou-se, assim, tanto num caso como no outro, pela aplicação da primeira modalidade – a do patrocínio – prevista na legislação em vigor, para o que o Fundo do Cinema atribuiu ao Secretariado um subsídio equivalente à importância da adjudicação.
Finalmente, explica que:
A responsabilidade da feitura das Imagens compete ao adjudicatário, junto do qual existe um delegado do SNI e através dele se vão transmitindo as instruções e sugestões que o Exmoº Secretário Nacional entende por conveniente, tendo sempre em vista a defesa dos princípios informadores do Estado Novo e o bom nome e prestígio dos seus dirigentes.
Abel Escoto (1919-) foi o único operador, a tempo inteiro, de Imagens. Entrevistei-o para apurar informação sobre o modo como se processava a organização das tarefas jornalísticas e a realização da revista filmada. Explicou-me que foi trabalhar para as actualidades a convite de Lopes Ribeiro e que Aquilino Mendes era também sócio da produção. Confirmou que o financiamento era proveniente, na íntegra, do SNI e que quando filmou as Imagens as condições técnicas tinham melhorado bastante relativamente ao modo como era filmada a revista de actualidades Jornal Português:
98 "MCP - E nessas notícias culturais também davam destaque às iniciativas do SNI, tipo inaugurações das pousadas de Portugal…
AE - Nas culturais não. Se havia uma reportagem de uma inauguração dessas entrava mesmo no jornal, na parte das reportagens. A parte cultural eram castelos, paisagens, coisas assim, que eram pouco vistas pelos portugueses." Entrevista na íntegra em anexo.
Quando foi o Jornal Português havia pouco material para filmar. Eram as Debrie, que eram uns caixotes sem mobilidade nenhuma. Quando foi das Imagens de Portugal, já tinhamos teleobjectiva, já tinhamos zoom, já tinhamos o material todo. E depois comprou-se uma máquina de propósito – mais tarde o Manoel de Oliveira comprou uma também…– que tinha imagem de um lado e som do outro. Por exemplo, os discursos filmavam-se e gravavam-se e o material saía logo síncrono.
Escoto filmou as actualidades num período em que não houve grandes manifestações organizadas pela propaganda mas confirma que a filmagem das manifestações populares era feita de modo manipulatório:
MCP - [...] chegou a filmar manifestações de apoio a Salazar?
AE - Não, não filmei muitas. Isso só se dava quando havia eleições. Principalmente quando houve as eleições em que entrou o Humberto Delgado. Mas aí ainda eu não estava no jornal. Quem fez isso foi o Queiroga. Até foi preso por causa dessa brincadeira.
MCP - E nessas manifestações havia muita gente ou tinham que filmar de modo a parecer que havia muita gente?
AE - Oh filha! Isso tinha que se fazer. Fui a várias manifestações – não dessas de eleições mas de outras - e tínhamos de mostrar que havia lá muita gente mesmo. Tinha-se de filmar com uma objectiva que fechasse o campo e que mostrasse muita gente, sem vazios à volta. Filmávamos sempre com objectivas que fechavam o campo, mostravam muita gente e que não deixavam vazios à volta. Isso fiz muitas vezes.
MCP - E que faziam mais, além disso?
AE: Apanhar o máximo possível as manifestações que interessavam à situação e fossem a favor da situação. Fazia-se o máximo possível para mostrar.
Sobre a estrutura das actualidades filmadas e a organização das tarefas jornalísticas, Escoto confirmou que eram idênticas às da imprensa escrita. Havia uma agenda relativa aos acontecimentos da actualidade. De resto, "o alinhamento era semelhante ao jornal escrito. É claro, não era tão desenvolvido como um jornal. Aquilo tinha que se fazer em poucas imagens. [...] De todas as notícias que havia, escolhia-se a principal". Imagens de Portugal estreavam, segundo Escoto, no cinema Império e no S. Jorge - "não sei se passava em mais algum", acrescenta - além de passar em vários cinemas do resto do país.
Ser detentor da carteira profissional que era atribuída pelo Sindicato dos Profissionais do Cinema (fundado em 1938 e presidido também por Lopes Ribeiro) não facilitava particularmente o trabalho do Escoto durante as filmagens. Aliás, documentação disponível no ANTT mostra que o SNI pedia geralmente livres trânsito às entidades organizadoras de certos eventos para que o operador das actualidades pudesse circular livremente nos mesmos (desportivos, chegadas e partidas no aeroporto de Lisboa, etc.).
MCP - Como é que a polícia lidava com os operadores de câmara?
AE: A polícia não chateava muito. Só me lembro de uma vez ter um problema. Ía para uma reportagem e não levava livre trânsito nem nada e mostrei a carteira profissional. Ele não quis
saber e depois eu até disse isso no sindicato: "isto não serve para nada". Diz lá para darem facilidades a quem possuir esta carteira mas afinal de contas não serve para nada. Depois lá consegui convencer o polícia e ele deixou-me.
MCP: Era a fazer o quê? AE: Já não me lembro. MCP: Mas era nas Imagens?
AE: Era nas Imagens. Mas quando ia para fora não. Aquele, o [Rosa] Casaca, que fugiu para Espanha, foi comigo em viagens com o presidente. Ele é que era o chefe da polícia de Estado. Lidava com a gente nas palminhas. Tinhamos tudo quanto queríamos deles. A polícia era simpática, pois não, não havia de ser… Ia até a a abrir caminho para a gente e tudo.
Escoto não filmou nenhuma das viagens presidenciais às colónias apesar de ter filmado a visita de Craveiro Lopes a Espanha, ao Brasil e a Inglaterra. Conta que se tivesse acompanhado Craveiro Lopes numa das viagens às colónias teria morrido num acidente de avião que se despenhou com vários jornalistas a bordo.
Eu era para ir, pelo jornal, numa viagem com o presidente a Moçambique. Havia um rapaz que era meu assistente e me escreveu duas cartas a pedir, por tudo, para o deixar ir na viagem do presidente. Para ele ir eu não podia ir. Como eu era o operador do jornal, lá pedi ao Lopes Ribeiro, que aceitou. Foi para Moçambique e um dos aviões que fazia serviço com os operadores caiu, no meio da selva. Levava esse rapaz, o operador da NO-DO [...] e outros jornalistas. Morreram lá todos. Se eu tivesse ido não estava agora aqui a falar consigo.
Como é que o discurso político colonial se projecta então nas actualidades?
O jubileu de Salazar em 1953 no poder é pretexto para, logo no nº 5, reportar a visita dos delegados do Ultramar e de representantes de associações portuguesas "nas cinco partes do mundo" e de régulos de Timor, Moçambique e Guiné. Porém, logo no arranque das actualidades, entre as poucas notícias de âmbito colonial, destaque-se, no nº 2, a da partida da metrópole de colonos - "22 famílias de agricultores embarcam no Benguela para Angola". "Gente humilde ao serviço do Império", é como são descritos e as imagens atestam a sua simplicidade e pobreza. O ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, foi despedir-se deles. A narração fala de "apreço pelos que mantém o esforço civilizador". Estas duas notícias de duas edições de Imagens sintetizam sumariamente como, à época, se concebe a informação sobre império colonial português: são notícia os delegados ultramarinos que vêm homenagear o presidente do conselho e os régulos que, de Timor, Moçambique e Guiné, prestam vassalagem, por um lado, e, por outro, são exibidos como símbolo da grandeza e diversidade etnográfica do império e do "respeito" deste pelas "culturas indígenas". Grandeza do império que saúda o génio político de Salazar, utilização folclórica dos régulos e o cumprimento da "missão civilizadora" por via da emigração, para as colónias, de agricultores pobres, em
suma.
É a "questão de Goa" que coloca, definitiva e regularmente, as colónias no agenda
setting. Pela primeira vez na história do Estado Novo, Portugal está no centro de um conflito,
impondo-se então as reportagens no "Ultramar".
A primeira referência, indirecta, à crise ocorre logo no jubileu de Salazar. A narração diz que, de vários pontos do império, chegaram pessoas para participar na manifestação a Salazar. Nesta participa uma delegação do Estado da India "cuja fidelidade a Portugal dia-a- dia mais se acentua", diz a narração. No nº 14, a propósito de uma visita a Portugal de filiadas da Mocidade Portuguesa que foram apresentar cumprimentos a Salazar, a narração diz que este foi mais sensível às mensagens de Málaca e Índia. O "XXVI aniversário de Salazar no poder", reportado na edição nº 31, é pretexto para uma manifestação de "lealdade" de "portugueses nascidos na Índia, residentes em Lisboa". A narração explica que são magistrados, professores, militares, comerciantes, industriais e estudantes e "tão portugueses como eu ou como qualquer de nós".
No nº 33, A viagem presidencial a S. Tomé e Principe -, em 1954, a primeira filmada alguma vez no terreno pelas actualidades do SNI - fixa o padrão que depois se repetirá, com pequenas variações locais ou de circunstância. A reportagem mostra aspectos da recepção a Craveiro Lopes em S. Tomé. O presidente viaja num carro aberto que é seguido por africanos. Meninos negros, que acenam com bandeiras portuguesas, aplaudem a passagem do Presidente. Todos estão vestidos de branco. Diz a narração, sublinhando a então premente questão da unidade nacional e enaltecendo a natureza festiva e pacífica da recepção:
As vibrantes aclamações da população indigena em contacto directo com o carro presidencial mostram a indissolúvel unidade da Pátria portuguesa em todas as latitudes bem longe dos diferendos raciais, sociais e politicos que afectam outras potencias ultramarinas. A ausência de qualquer força armada, militar ou policial, torna estas imagens únicas na nossa época.
Na edição seguinte, que reporta a continuação da viagem, já em Angola, diz-se que "Toda a população vibrou com patriótico fervor para saudar o Chefe de Estado cuja presença na terra portuguesa de Angola é claro sinal da indissolúvel unidade que une todos os portugueses do mundo". Uma visita à fortaleza de S. Miguel é pretexto para referir que os seus muros "recordam a restauração da nossa soberania total desde há mais de três séculos" e o hastear da bandeira pelo presidente é feito "perante os chefes indígenas cuja dedicação é indefectível".
O número 36, que reporta o regresso de Craveiro Lopes de África, sintetiza as ideias que a propaganda, através de Imagens e do cinema, o SNI quis projectar, sobretudo junto aos metropolitanos [nesta fase a exibição das actualidades no "Ultramar" ainda não é assumida como importante]. Explica-se, pois, que o presidente levou aos habitantes de Angola e S. Tomé e Príncipe "a certeza da indivisibilidade moral e territorial da pátria portuguesa". E para a ordem do discurso impôr-se de modo mais convincente, o regresso de Craveiro Lopes é encenado triunfalmente pelo SNI e fixado pelo cinema. Além da presença de Salazar no aeroporto e da entrega de flores pelos netos do presidente ao próprio, Craveiro Lopes atravessa Lisboa convocada para receber o presidente nas principais avenidas. Atente-se na narração e na análise da imagem: "E saudou em continência a cidade, capital daquela terra espalhada pelos quatro cantos do mundo de que ele é o primeiro cidadão" [vêem-se imagens de lisboetas aclamando o presidente e lançando confetis]. Verdadeira explosão dos mais altos sentimentos patrióticos, grito de alma sincero consagrador de uma política de ordem, de uma política única de paz e unidade nacional. [imagens da Avenida da Liberdade cheia de gente]. A simples presença de tamanha multidão não deixa dúvidas sobre o que lhe vai no espírito quando estão em jogo [...] no mundo os fundamentos da civilização que os portugueses ajudaram a construir". [No Rossio, aglomera-se gente em torno das estátuas. Um miúdo aplaude, empoleirado em cima de uma mão de pedra do seu tamanho. Em Belém, centenas de automóveis.] Diz-se que "Portugal não se divide" e que "Lisboa e Goa, [são] cidades portuguesas" acrescentando-se que vieram pessoas de todo o país manifestar-se. "Centenas de automóveis seguiam o carro presidencial e delegações vindas de todo o país empunhando letreiros expressivos acentuando ainda mais nitidamente os sentimentos do povo português sempre que se trata de manter intacta e incorrupta a justa soberania de Portugal na Europa, ou na Oceânia, na África ou na Ásia". A narração inflama-se. Diz que "A Nação prolonga-se do Minho a Macau" e que "Portugal está unido". A reportagem encerra com o hino nacional.
Desde a vigência do Estado Novo que as manifestações eram ordeiras, de apreço pelo regime e de agradecimento a Salazar. A "questão goesa" inaugura uma nova categoria de manifestações, ordeiras e de repúdio contra os que atentam contra a soberania e unidade nacionais. Organizadas pela propaganda, não podiam deixar de ser fixadas pelas actualidades estatais para depois serem exibidas.
Imagens de Portugal nº 38 mostra mais manifestações de descontentamento no
narração ilustra o tom da propaganda:
Portugal inteiro vibra de patriótica indignação perante os inclassificáveis atentados à soberania nacional perpetrados na Índia pelos acólitos comunistas do 1º ministro da União Indiana. Bastou o veríssimo ataque a uma pequena aldeia isolada de qualquer possibilidade de auxílio nosso para que a Mocidade Portuguesa se fosse manifestar aos Jerónimos, junto do túmulo de Vasco da Gama, […] declarando a sua incondicional disposição de se bater, se tanto fôr necessário, para que a bandeira portuguesa continue a flutuar, honrada e altiva, em todas as parcelas da Pátria pelo mundo em partes repartida. […] Atrás dela, ergueram-se em todo o país vozes de aplauso ao governo de Salazar pela impecável atitude assumida desde a primeira hora, de não transigir com quaisquer salteadores ou traidores seja onde fôr que as suas odiosas ambições se manifestem. E como Portugal é o mesmo, na Europa, em África, na Oceânia ou na Ásia, do povo português se eleva agora o mesmo clamor de indignação e os povos amigos acompanham-nos na hora grave que é a hora dos verdadeiros amigos. Veja-se esta expontânea manifestação dos súbditos do Paquistão, […] que, em Lourenço Marques, atravessaram as ruas para irem dizer ao governador geral que confiavam no governo português tão firmemente como neles o governo pode confiar. Três dias antes, ao mesmo tempo que na metrópole e em Luanda e em Goa multidões afirmavam iniludivelmente a sua fidelidade e decisão, os naturais de Lourenço Marques, sem distinção de raças ou de classes, juntaram-se junto da câmara municipal pedindo a justa desafronta. "Negros de Portugal lutai por Portugal", diziam os letreiros. […]
A edição seguinte, nº 39, continua a reportar as manifestações de repúdio pela questionação da unidade territorial portuguesa. A narração de mais uma manifestação [nocturna, no Porto, e composta exclusivamente por homens] começa por comentar um cartaz empunhado por um manifestante: "A nossa Índia não sairá de Portugal": "Este cartaz resume a firme determinação do povo português de não admitir expoliações em nome de princípios que não reconhece e que oito séculos de história repudiam". Ainda nessa reportagem, que
mostra outra manifestação em Lisboa, no Largo do Município, fixa-se um excerto da intervenção do Presidente da Câmara em que este denuncia "um imperialismo mal disfarçado que procura mutilar a integridade da Pátria".
Durante esta primeira série de Imagens, o jubileu de Salazar, a viagem de Craveiro Lopes às colónias e as manifestações de repúdio pela reclamações da União Indiana são os principais acontecimentos abordados, pretexto para a retórica do regime - que se transfigurou de "império colonial" para se afirmar como Portugal continental e “Ultramar” - se projectar por via das actualidades filmadas.
Em 1955, Imagens de Portugal nº 58 inclui uma notícia sobre nova viagem, durante um mês, de Craveiro Lopes ao "Ultramar" a qual teve início na Guiné. Uma análise sumária das imagens e da narração comprova a falta de incorporação, pela propaganda, nas actualidades, do luso-tropicalismo e a conservação de um registo ainda próximo do do filme
de ficção Feitiço do império: "[...] 30 mil indígenas de todas as raças, que fazem da Guiné um verdadeiro tesouro etnográfico, vieram de toda a província para saudar o general Craveiro Lopes". A reportagem mostra Melo e Alvim, governador da Guiné, a cumprimentar o presidente. A narração prossegue: "Os mais variados e exóticos instrumentos tocavam a Portuguesa". Nas imagens vêem-se as mulheres de Craveiro Lopes e de Sarmento Rodrigues, o Ministro do Ultramar que acompanhou o presidente. Após revista à Guarda de Honra, no plano seguinte, vêem-se mulheres africanas vestidas com panos e depois surgem rapazes e homens empunhando bandeirinhas nacionais. Fixam-se os cumprimentos oficiais aos representantes da França e do Líbano, a Castro Fernandes [director do BNU] e a um representante da Igreja. Craveiro Lopes fez o percurso do aeroporto até ao palácio do governo a pé: "O General Craveiro Lopes foi acompanhado por um emocionante cortejo a pé, onde os Fulas, os Papéis, os Balanta, Mandingas, Manganhas e Bijagós vitoriavam a mesma Pátria, a mesma bandeira e o mesmo chefe". Afirmação, portanto, da unidade do império mas não da multirracialidade - apesar de enunciar-se a diversidade racial existente na Guiné ela não é enquadrada na "portugalidade". O que há, claramente, é o enaltecimento da submissão das populações guineenses ao colonizador português sem se sublinhar uma suposta hibridez que só se fará quando o luso-tropicalismo é incorporado no discurso do poder político (e não apenas usado como argumento pelo discurso diplomático para o exterior, como se sabe que aconteceu neste período). A presença de Sarmento Rodrigues - que, recordemos, foi quem convidou Freyre para visitar o "Ultramar" português e procurou iniciar uma reforma administrativa inspirada pela teoria do sociólogo brasileiro - nesta viagem poderia garantir o recurso a esta retórica se esta fosse, já então, a prática.
Em 1956, Craveiro Lopes visita Moçambique e nos números 91, 92 e 93, Imagens reporta o acontecimento sem mudar o "guião" que a primeira viagem fixada simultaneamente na metrópole e no "Ultramar" impusera [embora o regresso se faça com menor aclamação - ou, com uma organização em menor escala - popular].
Continua, portanto, a não noticiar-se a actualidade das colónias – o quotidiano nesses territórios – mas apenas os assuntos que lhes concernem na óptica administrativa da metrópole. Mudança de relevo nesta fase é que começam a reportar-se, in loquo, as viagens presidenciais ao "Ultramar", fixando as aclamações populares que "mostram" não haver crise nas colónias e dizendo que a discórdia é promovida, no exterior, por "terroristas comunistas".
representações do colonialismo português noutras vertentes para além da recém-instaurada crise "ultramarina". O nº 46 das actualidades reporta a comemoração, em Barcelos, do primeiro centenário do nascimento de D. António Barroso, missionário e explorador em