Para balizar essa hipótese – de que a genealogia foucaultiana é rizomática – coloco- me como intermediário entre os pensamentos de Foucault, Deleuze e Guattari. A questão é como situar a genealogia foucaultiana dentro das críticas que foram feitas por esses dois interlocutores à idéia de genealogia. Obviamente, Deleuze e Guattari escreveram suficientemente em relação a Foucault para sabermos que seus projetos não se excluem, eu diria até que se complementam. Então de que genealogia aqueles dois autores fazem a crítica? Será que a crítica rizomática a toda a raiz se insere, de alguma forma, na problemática da genealogia histórica de Foucault? Esclareço, desde já, que minha exposição é
apenas um exercício de reflexão metodológica.
Já na introdução de Mil Platôs, Deleuze e Guattari recusam a genealogia tradicional em prol do rizoma e exigem uma crítica ferrenha ao modelo arbóreo de filosofar. Eles fornecem algumas caracterizações para o que entendem por essa noção, por essa imagem
do pensamento: o rizoma, conforme os pensadores, em não importa qual dos seus pontos, pode ser conectado a qualquer outro, funciona como uma haste subterrânea, então ela difere da árvore que funciona através do um, de um ponto, que se torna dois, que procede por dicotomia; é múltiplo, uma multiplicidade de raízes que se relacionam, e por isso escapa da imagem dicotômica da raiz única; sempre se trata de uma multiplicidade rizomática, em que o múltiplo é substantivado, em que não existem mais relações com as unidades, como os sujeitos, com os objetos, mas somente determinações, grandezas e dimensões (variedades de medidas), pois tudo está numa trama, em conexões, em linhas; um rizoma pode ser quebrado ou rompido em qualquer lugar, diferente dos cortes significantes que separam ou atravessam as estruturas; e o rizoma não é nem modelo estrutural nem modelo gerativo, pois é avesso à idéia de um eixo genético ou de uma estrutura profunda. O que exatamente isso quer dizer?
De uma maneira intensa (uma profusão de novos pensamentos e conceitos) e mesmo intrincada (emaranhado em diversos estratos diferentes: lingüística, biologia, geologia, psicanálise, música, filosofia), Mil Platôs apresenta os pontos de um pensamento diferente. É interessante perceber que o interlocutor privilegiado é Chomsky, o que me remete à lembrança de que existe uma discussão entre ele e Foucault no início dos anos 80, nos Estados Unidos.38 Chomsky, é esse outro pelo qual se fará o contraponto, por meio da crítica à lógica binária que este defende, crítica que se mostra com toda força em
Mil Platôs. Esse veio crítico, que é uma das forças deste livro, é múltiplo (engloba várias
análises) e se apresenta na linha das análises críticas que também vinha fazendo Foucault: a crítica à lingüística (ao mito da linguagem como fundamento), à psicanálise (que em Foucault será feita na História da sexualidade) e ao estruturalismo (que em Foucault aparece desde, pelo menos, A arqueologia do saber). O que significa dizer que existe convergência das lutas entre Foucault, Deleuze e Guattari.39 Aquele e esses divergem mais no enfoque e
38 Ver: Michael Foucault: uma trajetória filosófica (nota 7, p. 52 e p. 93), em que Dreyfus e Rabinow apresentam um resumo pertinente das diferenças entre os dois pensadores. Diferentemente de Chomsky, Foucault não apela para regras formais gerais localizadas no cérebro, funcionando binariamente em um mecanicismo estruturalista, para explicar como as regras gerais governam a formação de orações. Existe aí, na verdade, uma importante questão: a das práticas em geral e das práticas discursivas em particular. E como muito bem colocou Paul Veyne, em Foucault revoluciona a história, 1982, p. 160, o discurso não é semântica, ideologia ou implícito. Na realidade, as palavras enganam nos fazendo acreditar que existem coisas, essências de coisas, enquanto na verdade elas não passam do correlato das práticas correspondentes.
39 Ver sobre a convergência dessas lutas o prefácio para a edição inglesa do Anti-Édipo escrita por Foucault, em que este descreve o espaço de lutas desse livro, o território do pensamento instituído contra
na denominação dos conceitos, como pretendo mostrar, apesar de uma diferença fundamental no diz respeito ao desejo, do que no solo do pensamento (o rizoma como forma de pensamento).
Foucault, diferente daqueles – que elaboram sua teoria no nível do pensamento, no nível da abstração do pensamento, do plano que lhe dá forma –, trabalha mediante a história, em uma história do pensamento, e, por isso, é obrigado a trabalhar com sistemas, com positividades (que o pensador entende como os códigos ordenadores e as reflexões sobre a ordem de uma cultura) e, desembocando, com árvores. Com certeza, isso ocorre porque o método rizomático, por se caracterizar pela dispersão dos registros, dificulta o recorte do objeto e sua dissecação no processo de conhecimento histórico. As árvores, no entanto, oferecem duas tranqüilidades: a da familiaridade com a epistemologia em vigor desde a modernidade e a da possibilidade de abrigar confortavelmente o objeto num campo imaginável e em relação dialógica com o real. Essa intimidade – o projeto genealógico que supõe árvores – permite que Foucault trabalhe, do interior, na destruição dessas arborescências, em prol da insurreição de um emaranhado, em uma interação das diferenças, em que o que importa é o singular. Foucault trabalha como um médico que corta sistemas. Médico, todavia, que não admite posição de externalidade face ao seu ‗paciente‘, uma vez que a doença que tenta curar, ela, o afeta na sua atualidade. Desse modo, pressupõe a árvore – que submete ―o pensamento a uma progressão de princípio a conseqüência, ora conduzindo do geral ao particular, ora buscando ancorá-lo para sempre em um solo de verdade‖ (ZOURABICHVILI, O vocabulário de Deleuze, 2004: 97-98) –, apesar de decompô-la, deixando-a irreconhecível.
O método rizomático, com metodologia diversa da de Foucault, mas sob um mesmo ponto de vista, analisa ―a linguagem efetuando um descentramento sobre outras
qual essa obra se insurgia, aquele em que, ―era preciso estar na intimidade de Marx, não deixar seus sonhos vagabundear muito longe de Freud, e tratar os sistemas de signos – o significante – com o maior respeito. Tais eram as três condições que tornam aceitável esta ocupação singular que é o fato de escrever e de enunciar uma parte da verdade sobre si mesmo e sua época‖. Uma batalha nesses três níveis: contra ―os ascetas políticos, os militantes morosos, os terroristas da teoria, aqueles que queriam preservar a ordem pura da política e do discurso político – os burocratas da revolução e funcionários da verdade‖; contra ―os deploráveis técnicos do desejo – os psicanalistas e semiólogos que registram cada signo e cada sintoma, e que querem reduzir a organização múltipla do desejo à estrutura binária da estrutura e da falta‖; e, finalmente, contra ―o inimigo maior, o adversário estratégico: o fascismo‖ (FOUCAULT, ―Anti-Édipo: uma introdução à vida não-fascista‖, 1977, apud ESCOBAR, Dossier Deleuze, 1991).
dimensões e outros registros‖ (DELEUZE E GUATTARI, Mil platôs, 1995/1980: 16). Não se trata, em Deleuze e em Guattari, de dimensões e registros arqueológicos, mas de
registros geológicos: planos, linhas de segmentaridade, de estratificação, de territorialização e
reterritorialização. Não se pode simplesmente cortar, tal qual pressupõe a idéia de um sistema, pois ―as multiplicidades são planas, uma vez que elas preenchem, ocupam todas as suas dimensões‖, não possuem profundidade (Ibidem: 17). Isto está claro quando vemos que nos registros geológicos os cortes são entendidos como rupturas, em que os planos, os segmentos e as estratificações não ocorrem de forma ordenada e planejada. Dizer que não se pode simplesmente cortar o rizoma significa simplesmente afirmar que as multiplicidades se definem pelo fora, não é como um sistema que se define pelo que ele é, ela se define pela diferença, diferença daquilo que dela escapa e que, ao se conectar com outras linhas, forma outra coisa. Ou seja, quando as placas se movimentam, quando existem desnivelamentos, se formam outras linhas que podem se agrupar a linhas errantes e, assim, formar outra multiplicidade, outra dimensão. As rupturas, em um rizoma (nesse ponto, aparentados com as descontinuidades foucaultianas) são a-significantes (elas não visam a um significado, mas a uma interação). O que significa que, ―contra os cortes demasiado significantes que separam as estruturas, ou que atravessam uma estrutura – lemos em Mil Platôs –, um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer‖ (Ibidem: 18).40 Os autores citam o exemplo das formigas: ―é impossível exterminar as formigas, porque elas formam um rizoma animal do qual a maior parte pode ser destruída sem que ele deixe de se reconstruir (Ibidem). Citando Rémy Chauvin, Deleuze e Guattari colocam o rizoma na perspectiva de uma ―evolução a-paralela de dois seres que não têm absolutamente nada a ver um com o outro‖ (Ibidem: 19). Penso que esse traço do rizoma não está absolutamente distante do projeto de uma genealogia foucaultiana. Quando lança o livro sobre o hermafrodita francês Herculine Barbin, Foucault assim apresenta seu trabalho:
Os antigos gostavam de traçar paralelos entre as vidas dos homens ilustres; ao longo dos séculos essas sombras exemplares se faziam ouvir. As linhas paralelas, eu sei, são feitas para se unir no infinito.
40 Ver que Paul Veyne em Foucault revoluciona a história, 1982, p. 159, mostra brilhantemente que quando historicizamos o falso objeto natural, o objeto passa a sê-lo (a ser objeto) apenas para uma prática que o objetivava. Quando a prática se torna o plano de análise, vemos que a grande dificuldade era ter tomado o problema pelas extremidades e não pelo meio.
Imaginemos outras linhas que divergem indefinidamente. Sem ponto de encontro, sem lugar que as acolha. Muitas vezes não tiveram outra ressonância que não a de sua condenação. Seria preciso captá-las na força do movimento que as separa; seria preciso, talvez, reencontrar o sulco instantâneo e brilhante que elas deixaram ao se precipitar rumo a uma escuridão onde ―não se fala mais nisso‖ e onde todo ―renome‖ se perdeu. Seria como o oposto de Plutarco: vidas a tal ponto paralelas que ninguém mais pode reuni-las (FOUCAULT, ―Herculine Barbin...‖, 1978 apud ERIBON,
Michel Foucault, 1990/1989: 257).
Para fazer esse contraponto entre uma genealogia do tipo que faz Foucault e a idéia de rizoma, como elaborada por Deleuze-Guattari, eu tenho que descrever mais alguns princípios desta última noção: pelo princípio da cartografia (que difere do princípio estrutural, pois analisa os mapas uns sobre os outros) e da decalcomania (que não é um princípio gerativo, já que não é projeção de decalques, mas de redes), um rizoma é estranho a qualquer eixo genético ou estrutura profunda. O que significa que, diferente de um eixo genético, ele não se organiza sobre estados sucessivos e que, diferente de uma estrutura profunda, ele não se decompõe em constituintes imediatos. Ou seja, o rizoma não é constituído de imagens fotográficas sobrepostas, ele é, pelo contrário, o mapa. O mapa é aquilo que tem múltiplas entradas, é aberto, o que o contrasta com o decalque. Estes são as imagens umas sobre as outras e, mesmo que sejam inúmeras as variações das imagens no espaço e no tempo, busca e volta sempre ao mesmo (ao princípio de identidade daquelas imagens sobrepostas umas sobre as outras). As questões trazidas à tona pela oposição mapa/decalque abrem, como explícito em Mil platôs, possibilidades metodológicas. O projeto de Deleuze e Guattari é projetar o decalque (a imagem que guarda sua identidade) sobre o mapa, formando um plano em que o rizoma – considerado como anti-genealogia, memória curta ou anti-memória – procede por variação, expansão, conquista, captura, picada, ou seja, em que a fotografia seja desmontada enquanto idêntica a si mesma. Plano este em que o rizoma, oposto ao grafismo, ao desenho ou à fotografia, oposto aos decalques, refere-se a um mapa que ―deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga‖. Enfim, um projeto em que são os ―decalques que precisam se referir ao mapa e não o inverso‖ (DELEUZE E GUATTARI, Mil platôs, 1995/1980: 31-32).
Uma segunda possibilidade metodológica que é aberta por Mil platôs é mapear o decalque, isso é, perceber onde se enraízam ―unificações e totalizações, massificações,
mecanismos miméticos, tomadas de poder significantes, atribuições subjetivas‖ (Ibidem: 33). Aqui, a genealogia sempre móvel de Foucault encontra acolhida. Foucault não decalca (prende ao mesmo) por meio da genealogia, mostra, sim, os decalques (como as tecnologias de poder se vinculam a estados de dominação). Quando Foucault analisa a crise do pastorado e como este pôde explodir, dispersar e adquirir outra dimensão, a da governamentalidade, o que faz são sondagens e sinalizações descontínuas que não pretendem fazer a história de todo o pastorado (os decalques do pastorado sobre si mesmo), de tudo que podia ser o pastorado (de todos os detalhes de sua história) ou tudo aquilo que podiam ser os limitadores externos dessa tecnologia de poder (tudo o que lhe escapava ou com o que mantém relações). O pastorado será entendido com o campo e a grade em que Foucault pesquisará alguns pontos de resistência, de formas de ataque e contra-ataque, ou seja, dessa pseudo-árvore, que é elaborada por meio de algumas práticas e técnicas de conduta do outro, Foucault verá o que dela escapa por meio de revoltas específicas, ou seja, por meio de outras práticas de condução. No entanto, essas outras
maneiras de ver e de agir, apesar de sua especificidade (tanto são práticas religiosas ou movimentos religiosos quanto práticas que vão de encontro com às técnicas da forma religiosa mais dominante que é o pastorado), sempre devem ser remetidas ao mapa, que são outros conflitos e outros problemas (questões políticas, econômicas, de espaço, do estatuto feminino, entre outras).41Assim, poderíamos falar, com Veyne (que, por sua vez, encontra o decalque, remetendo-o a sua formulação na psicanálise, o recalque), que ―a idéia de uma inclinação natural recalcada só tem sentido no caso de um indivíduo que teve sua própria história‖, porém, no âmbito das sociedades, ―o recalque de uma época é, na realidade, a prática diferente de outra época, e o eventual retorno desse pretenso recalque é, na realidade, a gênese de uma nova prática‖ (VEYNE, Foucault revoluciona a
história, 1982/1978: 175).
Uma maneira de pensar rizomática exclui alguns tipos de genealogias, mas não, e com certeza isso é evidente nos autores de Mil platôs, a genealogia foucaultiana. Seu projeto não está distante daquele de Deleuze e Guattari, tal como pretendo mostrar na
dissertação. A história em Foucault é monumento, é possibilidade (paródias), dissociação
sistemática, destruição do sujeito do conhecimento. Não é um tempo interior, é outra
forma de tempo. É uma história perspectiva.42 Foucault não trabalha conceitualmente com os traços intensivos, com o plano de imanência; trabalha a história como conhecimento diferencial das energias e desfalecimentos sobre sistemas. Ele tem plena consciência de uma filosofia rizomática (contra as raízes como origens) e sabe muito bem dos alicerces do seu trabalho.
Seria equivocado pensar o contrário. Foucault está interessado na questão do saber, do poder e, logo depois, da subjetivação, da vontade de verdade. Seu trabalho, de enorme erudição, envolve amplas áreas e situa-se em outro plano, plenamente histórico, que não aquele visado por Deleuze e Guattari, filosófico. De modo algum, Foucault ignora que a operação do historiador apresenta inúmeros problemas, que analisar os decalques é um trabalho na corda bamba do transcendente ou do erro perspectivo, que fazer genealogia é apresentar-se árvore. Um risco sempre renovado de achar que as verdades efetivas de determinada positividade são verdades eternas e invariáveis. Entretanto, essa árvore que Foucault expõe já é uma árvore explodida em cada uma de suas raízes, uma árvore que manteve seu tronco somente pela força dos inúmeros decalques, pela força de sua história sempre renovada, sempre repetida. Essa história é aquela da ―variação‖ do acontecimento, pois, os acontecimentos variam com as positividades e cada uma dessas positividades – poderíamos chamá-las planos –, constitui um emaranhado de acontecimentos. Assim, com certeza, a árvore em Foucault é imaginária, mas é também realidade, isto é, apresenta possibilidades reais. Ele diz que, no seu trabalho, o real é polêmico:
Operar uma interpretação, uma leitura de um certo real, de tal modo que, de um lado, essa interpretação possa produzir efeitos de verdade e que, de outro, esses efeitos de verdade possam tornar-se instrumentos no seio de lutas possíveis. Dizer a verdade para que ela seja atacável. Decifrar uma camada de realidade de
42 Ver que sob a presença de Nietzsche Foucault afirma que o sentido histórico comporta três usos: 1) paródico e destruidor da realidade, que se opõe à história como reminiscência ou reconhecimento e a toma como um carnaval de máscaras orquestrado; 2) dissociativo e destruidor da identidade, que se opõe à história como continuidade ou tradição, buscando todas as descontinuidades que nos atravessam a fim de dissipar as raízes identitárias; 3) uso sacrificial e destruidor da verdade, que se opõe à história como conhecimento, ao mostrar que este último não é neutro e que a verdade, ao pedir o sacrifício do sujeito do conhecimento, perde, no fundo, qualquer intenção de verdade. Todos esses usos levam a uma história que se libera do modelo metafísico e antropológico da memória. Trata-se de um uso da história como contra memória, mediante outra forma de tempo, que é diferença na repetição.
maneira tal que dela surjam as linhas de força e de fragilidade, os pontos de resistência e os pontos de ataques possíveis, as vias traçadas e os atalhos. É uma realidade de lutas possíveis que tento fazer aparecer (grifo meu) (FOUCAULT, ―Precisões sobre o pode. Respostas a certas críticas‖, 2003/1978: 278)
Trata-se de árvore feita de sedimentos, os quais se depositam pelos atos repetitivos, mas que só aparecem por meio do diagrama do cartógrafo, por meio de inúmeros mapas sobrepostos. Não existe fundo em Foucault, só plano móvel. Em suma, Foucault é o outro lado do trabalho de Deleuze e Guattari; e vice-versa. Neles o rizoma ou os condicionamentos arqueológicos e genealógicos são maneiras de experimentar o pensamento. Uma decisão que comporta ao menos três desdobramentos:
Pensar não é representar (não se busca uma adequação a uma suposta realidade objetiva, mas um efeito real que relance a vida e o pensamento, desloque o que está em jogo para eles, os relance mais longe e alhures); não há começo real senão no meio, ali onde a palavra ―gênese‖ readquire plenamente seu valor etimológico de ―devir‖, sem uma relação com uma origem; se todo encontro é ―possível‖, no sentido em que não há razão para desqualificar a priori certos caminhos e não outros, todo encontro nem por isso é selecionado pela experiência (certas montagens, certos acoplamentos não produzem nem mudam nada)(ZOURABICHVILI,
O vocabulário de Deleuze, 2004: 99).
A história pensada por Foucault comporta essas três variáveis. Ela não é tanto uma representação da vida e do momento em que ela é, é mais, ela é uma fabricação que parte de uma experimentação e vai para o campo de uma intervenção no que é. Ela não considera que a realidade é uma miragem ou um referente ausente sem a qual o discurso não pode ser dito e o significado não pode ser construído, dando sentido ao apreendido e percebido, ao visto e ao que se ouviu, ao experimentado e aspirado, mas considera a realidade como uma forma mais ampla que engloba as racionalizações e os efeitos de real das práticas humanas as mais imaginárias. Ela não bloqueia as várias histórias possíveis, porém só considera aquelas que são pertinentes para analisar e intervir na nossa atualidade. Mas em que sentido pode ser dito que essa história é genealógica?
Para esclarecer esse ponto – em que direção pode-se dizer que a história em Foucault é genealógica, bem como o que comporta essa genealogia – é necessário buscarmos a trajetória da genealogia no pensador.
Em um primeiro momento ela é apresentada como um dos conjuntos em que a análise histórica deve ser feita, pois conforme A ordem do discurso, 1970, as análises históricas tem que ser feitas por meio de dois conjuntos: o conjunto crítico, que é entendido como a arqueologia, põe em prática o princípio da inversão; procura as formas