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In document The Paradox of Forgiveness (sider 18-21)

Conhecendo os autores

O geógrafo Melhem Adas - um dos autores da coleção Expedições Geográficas - faz parte da história de livros didáticos de Geografia no país e trouxe contribuições importantes nesse cenário. O autor, 79 anos de idade, é licenciado e bacharel em Geografia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pós-graduado pela Universidade de São Paulo (USP). Durante a entrevista, ele nos conta um pouco de sua trajetória, dizendo ter sido professor de Geografia por quase 50 anos, lecionando na rede pública de ensino do estado de São Paulo e na rede privada, em cursinhos preparatórios pré-vestibulares além dos antigos cursos de madureza52.

Adas estreou no mercado editorial em 1976, com livros destinados ao antigo segundo grau, denominados “Estudos de Geografia”, cujas abordagens, segundo o próprio autor, rompiam com o caráter mnemônico e descritivo dos antigos livros didáticos de Geografia, com um estilo mais voltado para as vertentes críticas da Geografia, com enfoque histórico e social.

Durante a entrevista, Melhem nos relatou que seu primeiro livro surge a partir de um convite:

Alguns colegas fundaram uma editora, e me convidaram para transformar as apostilas que eu utilizava [no colégio particular] em livro. Eu disse que topava fazer o livro, mas não com essas apostilas, pois eu as achava muito fracas! Então, eu fiz o meu primeiro livro “Estudos de Geografia”. Nasceu de um convite e estou na editora até hoje (MELHEM ADAS, 2018).

51 Dados extraídos do site Valor Econômico. Disponível em:

<https://www.valor.com.br/empresas/5458219/kroton-negocia-compra-da-santillana-brasil> Acessado em jun. 2018.

52O Madureza eram cursos destinados à educação de Jovens e Adultos que ministravam disciplinas dos antigos períodos ginasiais e colegiais, a partir da lei de diretrizes e bases da educação (ldb) de 1961, abolido em 1969.

Segundo o autor, suas experiências e criações em sala de aula como professor eram utilizadas em suas obras. Relata também que seu objetivo sempre foi o de desvelar a realidade para o educando, mostrando os conhecimentos da análise do espaço geográfico para evidenciar as contradições existentes nas relações desenroladas nesse espaço. Por esse motivo, escolheu a linha teórica de uma Geografia mais questionadora.

Durante toda a minha atividade em sala de aula, eu primei principalmente pelo “descortinamento” da realidade, para estabelecer a criticidade. Além de informar, a escola tem o grande papel de desenvolver atitudes sociais junto ao educando (...) não é somente aprender Geografia, a Geografia no meu entender é um meio para se atingir um fim maior, a formação da cidadania. Se não, qual é o papel político da escola? (MELHEM ADAS, 2018).

No decorrer da entrevista, tivemos a oportunidade de visualizar os livros didáticos antigos de Melhem Adas, momento em que foi possível fazer algumas comparações. Constatamos que as obras didáticas de Geografia passaram por diversas mudanças, tanto no que se refere aos conteúdos e a sequenciação das temáticas, como na forma de abordagem dos assuntos, como podemos verificar nas figuras 17 e 18.

Figura 17: Capa do primeiro livro de Melhem Adas, “Estudos de Geografia”, 1976.

Figura 18: Representação de um tema da Geografia na obra didática “Estudos de Geografia”, 1976.

Fonte: ALMEIDA, D. G., 2018.

As imagens retratam um antigo perfil de escrita de Melhem; o espaço geográfico é diferenciado em “desenvolvido e subdesenvolvido”, evidenciando sua aproximação com as abordagens críticas da Geografia. As páginas contam com quadros de glossário, mapas, mapa conceitual, com um layout em tons de preto e cinza.

O autor comenta sobre essa obra:

Veja que interessante a diagramação, tem um texto e as complementações. Isto era inovador para a época, e crítico. Os livros da década de 1970 não chegam nem perto dos livros de hoje, quanto a complexidade. Os recursos eram mais limitados que hoje. Este livro, na época, foi um grande impacto, ele era completamente diferente, era uma nova Geografia. Mas como era época da ditadura, tínhamos que colocar as coisas nas entrelinhas (MELHEM ADAS, 2018).

Sobre as inovações nos livros didáticos, Melhem complementa que atualmente observa muitos avanços nos livros, no próprio pensamento geográfico, na teoria e na prática de ensino, em contrapartida reconhece alguns retrocessos, ao mencionar que “(...) existem algumas pressões para que não haja uma Geografia de profundidade, às vezes há uma defesa muito mais de aparência e não de essência (...)” (MELHEM ADAS, 2018).

Ao final da década de 1970, as obras de Adas estavam inseridas na proposta dos Estudos Sociais em co-autoria com José Dantas. Esta proposta estava fortemente presente nas obras de 5ª a 6ª séries, mas nas 7ª e 8ª séries do ensino de 1º grau, a Geografia era tratada de forma independente, configurando-se em uma disciplina desmembrada da História.

Nos anos de 1980, em meio ao movimento de renovação da Geografia, algumas das inovações mais significativas, trazidas pelo autor, para esse universo dos livros didáticos estão contidas em seu conjunto de obras denominadas de “Geografia”, em que Melhem Adas aborda questões relacionadas ao subdesenvolvimento e à desigualdade, utilizando imagens que evidenciavam as mazelas sociais e os contrastes da vida urbana e da sociedade de consumo capitalista, tais como pobreza, favelização, subnutrição infantil, entre outros.

Segundo Gomes (2011), no livro “Geografia” em seu quarto volume (A formação do terceiro mundo e o mundo asiático e europeu desenvolvido), na capa, já era possível observar uma fotografia com crianças subnutridas na Etiópia, em tamanho grande, ocupando maior parte da página, evidenciando essa forte tendência do autor em mostrar mazelas sociais e econômicas.

Tanto Azambuja (2014) como Gomes (2011) argumentam que a coleção “Geografia” se destaca pela dinamicidade de recursos visuais tais como fotografias, gráficos, mapas, quadros e outros. São obras com grande repercussão no cenário nacional e se destacarão também nos anos de 1990 e 2000.

Percebemos que ainda existe esse perfil de escrita do autor. As obras “Expedições Geográficas” evidenciam algumas preocupações relacionadas às desigualdades e contradições sociais, ao mesmo tempo em que procuram se comprometer com a renovação temática da Geografia e com a forma de representação dos conteúdos, como podemos observar nas páginas 88 e 89 do livro para o 7º ano (Figura 19).

Figura 19: Apresentação de uma abertura de unidade no livro do sétimo ano “Expedições Geográficas”, retratando a atuação de movimentos sociais no Brasil.

Fonte: Manual do Professor de Geografia da coleção “Expedições Geográficas” para o sétimo ano do Ensino Fundamental, 2015.

Mais recentemente, Melhem Adas fez parceria com o filho, Sérgio Adas, também geógrafo e professor. Juntos, escreveram a coleção para o ensino de Geografia denominada de “Panorama do Brasil”, publicada em 1998 pela editora Moderna. Em 2011, publicaram a coleção “Expedições Geográficas” para os anos finais do ensino fundamental. Em 2015, a editora lança a segunda edição desse conjunto de obras. Estas últimas tiveram boa aceitação entre os docentes de Geografia do país, como nos mostram os dados do último PNLD/2017, apresentados anteriormente.

Sérgio Adas, também autor da coleção de livros didáticos “Expedições Geográficas”, trabalha com o pai Melhem Adas a mais de 20 anos. É formado em licenciatura e bacharelado em Filosofia e Geografia, mestre e doutor na área da Geografia Humana, com pós-doutorado em Educação. Atualmente é professor da Universidade de São Paulo (USP) na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras na cidade de Ribeirão Preto, onde atua como pesquisador na área de Ensino de Geografia.

Os dois autores atualmente estão produzindo a terceira edição da “Coleção Expedições Geográficas”, tendo em vista algumas mudanças na legislação e a melhoria de alguns aspectos das obras, para concorrerem ao PNLD de 2020, também para os anos finais do ensino fundamental.

Durante o diálogo com os autores, constatamos o engajamento de ambos com as questões que envolvem o ensino e a aprendizagem de Geografia, com a produção de livros didáticos dessa ciência e com o mercado editorial junto a editora. Mostraram ter vasto conhecimento das políticas e questões relacionadas ao PNLD, ao currículo oficial de Geografia e sobre os aportes estruturais e editoriais em torno da produção desses materiais. Suas experiências na docência e nos processos de autoria, foram as bases dessa filiação.

Sobre esse trabalho autoral entre pai e filho, Sérgio Adas nos relata que:

Fazemos um trabalho complementar e para isso precisamos ter muita afinidade, muito respeito, e isso temos de sobra. Há momentos muito tensos de trabalho, a carga de trabalho é muito grande, são muitas decisões. Muitas vezes há discordância sobre conteúdos editoriais. Ele [Melhem Adas] tem uma capacidade de trabalho imensa, é admirável a capacidade de trabalho dele, aprendo a cada dia. Ele é um guerreiro que não se intimida com as dificuldades. Fico muito feliz em poder participar dessa história com meu pai (SÉRGIO ADAS, 2018).

Defronte as duas gerações de autores diferentes, observamos Melhem, habituado a um caminho longo de mudanças epistemológicas da ciência geográfica, outrora fazendo parte de construções de livros didáticos de uma linha mais tradicional e, Sérgio, pertencente a uma geração mais atual de autores, afeito a referenciais e estilos mais contemporâneos de produção. Mesmo diante dessas diferenças, um e outro demonstram ter preocupação com a renovação do ensino, com as práticas pedagógicas e com o aprimoramento dos livros da Geografia Escolar.

Percursos de autoria da coleção “Expedições Geográficas”: espaços de “(re)territorialidades”

Como é se constituir como autor de livros didáticos no Brasil? Esse foi o nosso primeiro questionamento aos autores da coleção “Expedições Geográficas”, no início de nossa entrevista. E começaremos este tópico com as respostas deles:

Quanto à elaboração é um processo muito sofrido. Quando me perguntam como é fazer um livro didático, as palavras são insuficientes para reproduzir, mostrar o que é fazer um livro. Nós lidamos com muitas variáveis: a síntese, o número de páginas reduzidas, o problema de aprofundamento, além da adaptação da linguagem que deve ser primorosa e adequada para as faixas etárias que o livro se destina. Esse é um processo que eu faço a mais de 40 anos (MELHEM ADAS, 2018)

Para a produção de uma coleção de livros didáticos são necessárias diversas etapas e diferentes profissionais, como podemos ver na imagem abaixo (Figura 20). Essa longa lista já

nos permite presumir a complexidade para se produzir estes materiais: são inúmeras tarefas e responsabilidades.

Figura 20: Equipe editorial da coleção “Expedições Geográficas”

Fonte: Manual do Professor “Expedições Geográficas”, oitavo ano, 2015.

A entrevista com os autores da coleção EG nos revelou um trabalho de muita proximidade com esse processo produtivo do livro. Neste caso, percebemos que apesar de algumas limitações, o trabalho autoral dessas obras didáticas é dotado de autonomia.

A primeira versão da Coleção começou a ser escrita no ano de 2007; foram cinco anos de criação. Inicialmente, foi disponibilizada uma versão para as escolas particulares em 2011, que hoje já está na sua segunda edição.

Ao longo dos anos, o conjunto de obras foi evoluindo. A cada edição são vários aspectos a serem renovados e alterados. Cada PNLD tem suas especificidades, novas exigências, é preciso considerar ainda as mudanças na própria legislação. Nas palavras de Sérgio Adas, “quando você sai de uma empreitada, há uma nova reformulação em vista”. Segundo o autor: “Depois da primeira versão nós retrabalhamos tudo, modificamos várias coisas, muitos infográficos, textos, dados estatísticos. As fotos são trocadas a cada edição” (SÉRGIO ADAS, 2018).

A coleção foi inscrita no PNLD pela primeira vez, em 2014 e, uma segunda reestruturação, é elaborada para o PNLD de 2017. Apesar de ser o mesmo projeto, tem-se, portanto, duas versões das obras: aquela destinada às escolas particulares (“versão mercado”) e as destinadas ao PNLD. Algumas das diferenças que encontramos na “versão mercado”,

estão na qualidade do papel (papel revista), a representação das capas (Figura 21), alguns aspectos gráficos (cores, imagens, layouts) e o nome da unidade de abertura dos temas53,

como podemos verificar nas figuras 22 e 23. Ocorrem igualmente diferenças nas atividades: os livros das escolas particulares são consumíveis; então, as questões são adaptadas para que o aluno possa respondê-las no próprio livro. Já as obras do PNLD são reutilizáveis e os exercícios podem ser resolvidos somente no caderno.

Figura 21: Diferença entre as capas da versão mercado e versão PNLD da coleção “Expedições Geográficas”, livros do sexto ano.

1) Capa “Versão PNLD”.

2) Capa “Versão Mercado”.

Fonte: ALMEIDA, D. G. (Org.), 2018. In: Editora Moderna, 2015.

53 O autor Sérgio Adas nos relatou que a ideia do projeto “Expedições Geográficas” é nomear as unidades em “Expedições”, porém, no PNLD não foi possível manter esse nome devido aos processos avaliativos do programa, que impede qualquer referência ao nome da obra em seu interior.

Figura 22: Primeira unidade denominada “Expedição 1” do livro para o 6º ano, versão mercado da coleção Expedições Geográficas.

Fonte: Manual do Professor de Geografia da coleção “Expedições Geográficas” para o sext ano do Ensino Fundamental, “Versão Mercado”, 2015.

Figura 23: Primeira unidade denominada “Unidade 1” do livro para o sexto ano, versão PNLD da coleção Expedições Geográficas.

Fonte: Manual do Professor de Geografia da coleção “Expedições Geográficas” para o sexto ano do Ensino Fundamental, “Versão PNLD”, 2015.

Os autores Sérgio Adas e Melhem Adas nos relataram que a idealização, os textos, o layout das obras, as imagens, as leituras e os filmes complementares, são ideias, elaborações e indicações deles.

O projeto inicial das obras é definido entre nós e a equipe editorial (...) o segundo passo é o projeto Gráfico Visual. Nesse momento eu e Melhem sentamos e levantamos tudo que queremos introduzir de ícones, nomes de seções, frisos, e então a gente cria uma proposta para a Editora trabalhar. A equipe editorial trabalha os elementos visuais durante uns dois meses. Depois disso nós avaliamos. Se a gente não gosta, mandamos de volta, contra argumentamos (SÉRGIO ADAS, 2018). Em um documento no computador, os autores elaboram os assuntos, as sequências dos temas, o texto principal; organizam visualmente todos os elementos gráficos e indicações de obras, conteúdos da internet, filmes e outras complementações que serão fixados ou indicados nas páginas. Indicam, portanto, para a equipe editorial, todos os conteúdos que deverão compor a página, a disposição e a forma de apresentação.

Como abordamos, para a produção de um conjunto de obras didáticas fazem-se necessários alguns anos de trabalho. Na escrita de um texto didático são inúmeras as preocupações. Sérgio Adas mostra que:

Nós escrevemos um livro preocupado com os critérios didáticos e pedagógicos, que estão em constante transformação, em função da legislação brasileira que está sempre se renovando. Para isso temos sempre que estar acompanhando as discussões, tanto as leis particulares, como as mudanças curriculares. Além desses critérios, há questões editoriais, as questões dos prazos editoriais, a questão do espaço do livro que envolve número de páginas e outros (SÉRGIO ADAS, 2018).

Podemos observar que o trabalho de autoria é complexo e envolve muitas questões, além do estudo constante. Essas variáveis trazem enredamentos para o trabalho de autoria, já que é preciso fazer escolhas com base em condicionamentos e normativas restritivas.

Muitas vezes a tensão se dá em uma única página, ou em uma dupla de páginas, e você é levado a fazer escolhas de conteúdos para que possa caber no livro didático. Muitas vezes temos que deixar conteúdos de fora, que gostaríamos muito de abordar. Essa é a natureza do trabalho. Pela materialidade do livro didático, muitas coisas se tornam inviáveis e isso às vezes gera uma frustração. Isso acontece por que a gente trabalha vendo o aluno e o professor na ponta desse processo, e querendo oferecer o melhor. (SÉRGIO ADAS, 2018)

Além da limitação do número de páginas, existe uma restrição também, de quantidade de elementos gráficos e textuais na página (limite de caracteres):

Precisamos sempre estar buscando um equilíbrio. Quando mandamos o material para a editora, muitas vezes acontece “estouro de página”, pois há mais material do que cabe na página. Nós trabalhamos com limites de caracteres. Às vezes nos deparamos com a seguinte complexidade: temos o texto, há palavras que precisamos esclarecer para aluno em glossário – o que necessita de espaço-, temos exercícios, e ali seria ideal uma foto, um mapa. Só que não cabe tudo isso, tenho que fazer uma

opção. Ou vou cortar o texto, ou inserir a foto e não inserir o mapa, ou vice-e-versa. Essa é uma das complexidades do livro didático. Além escrever as complementações pedagógicas, temos que nos atentar para os detalhes gráficos (SÉRGIO ADAS, 2018).

Outro aspecto a ser observado durante a produção de um livro didático, que Sérgio pontua, é sobre o “Caderno tipográfico”:

Não podemos aumentar uma ou duas páginas no livro por conta própria, pois existe uma coisa na gráfica - quando os livros vão ser impressos - que se chama “caderno tipográfico”. Se eu tiver que crescer a obra, eu tenho que crescer em múltiplos de 8 ou 16 páginas. Para nós fecharmos o livro do sexto ano [edição de 2020], foi uma “luta” com a editora. Nós tivemos que calcular, trocamos vários e-mails com a equipe editorial para decidirmos com quantas páginas fecharíamos. As vezes temos que excluir conteúdos, porque se o edital [PNLD] estipular o total de 250 páginas, e o livro tiver 251, a obra nem será analisada (SÉRGIO ADAS, 2018).

Percebemos nessas falas, diversos condicionantes técnicos e muitos espaços de atuação distribuídos entre espaços pedagógicos, espaços de mercado e espaços político-ideológicos. Assim, ao mesmo tempo em que são submetidos a uma “produção industrial”, os livros didáticos do mesmo modo pertencem a um universo criativo e científico, emaranhados por uma série de políticas e legislações.

A partir desse diálogo, compreendemos a autoria como um trabalho flexível, como bem coloca Foucaut (1995). Os autores possuem parte do poder que está em constante negociação com outras demandas e outros conhecimentos. Entretanto, muitas decisões e escolhas estão nas “mãos” dos autores, assim como são eles que agrupam, que juntam todas as diferentes diligências desse caminho. Esta unidade formada é de suma importância para a caracterização e individualização da obra.

No campo da educação, há questionamentos sobre a qualidade dos livros didáticos que, muitas vezes, são direcionados aos autores. Entretanto, não se atentam ou buscam entender, com maior profundidade, os condicionantes técnicos, esses jogos de interesses, de tensões e de escolhas que são constituídos nesse processo. Segundo Sérgio Adas:

Muitas questões não são possíveis de realizar na obra, ou por causa do edital, ou pelas questões técnicas editoriais do caderno tipográfico. Não sabemos se vamos ter que aumentar um livro ou diminuir. Depois que sai o edital do PNLD, por exemplo, as vezes estamos com os originais prontos e temos que eliminar 8 páginas. Isso muda muita coisa, pois demoramos a encontrar um equilíbrio e depois do edital divulgado temos que fazer mudanças. São dilemas! (SÉRGIO ADAS, 2018).

Outro aspecto observado no processo de autoria é que além dos condicionantes discutidos, existem também outros desafios, relacionados à pesquisa, à coerência de dados e às informações, à interdisciplinaridade, ao processo criativo para pensar nos elementos

gráfico-visuais, às inovações que os autores querem fazer e não são possíveis no âmbito editorial.

Uma característica em evidência nas obras analisadas encontra-se em seus aspectos visuais. Há uma grande quantidade de imagens, mapas e ícones presentes nas páginas. Esse atributo confere aos livros certa particularidade e uma grande carga de trabalho autoral e de toda a equipe editorial.

A “identidade visual” do livro é formada por um conjunto de símbolos e metáforas que buscam trazer uma ideia de viagem e expedição, como por exemplo, o formato de placas de trânsito em alguns títulos e os “frisos” indicando os assuntos do percurso remetendo a um GPS (Figura 24).

Figura 24: “Frisos” remetendo ao GPS na seção “Percursos” no livro de Geografia “Expedições Geográficas” para o nono ano.

Fonte: Manual do Professor da Coleção “Expedições Geográficas”, nono ano, 2015.

Para a concretização dessa visualidade, ficam estabelecidos diversos acordos e diálogos entre os autores e a equipe editorial. A maioria das páginas dos livros apresenta mais imagens do que textos escritos. Sobre esse estilo de configuração da página, Sérgio nos esclarece que:

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