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Quanto ao Feminismo, tratarei aqui apenas do século XIX, época em que se passam várias das histórias de Delly, e, ao século XX, apenas até a década de 80, última década em que os romances foram editados no Brasil.

Conforme Maggie Humm (1990), o movimento feminista pode ser dividido em três "ondas‖. A primeira abrangeria todo o perìodo do século XIX e inìcio do século XX, tendo como objetivo principalmente o sufrágio feminino; a segunda, as décadas de 60 e 70, mais focada na igualdade legal e social para as mulheres; e a terceira inicia-se em 1990 e prossegue até a atualidade, com reflexões sobre o racismo, a homofobia, a colonização e a construção na sociedade dos papéis sociais dos gêneros. A partir desses movimentos, surgiu em diversas disciplinas a chamada ―teoria feminista‖, que, no ramo da literatura, especializou-se como crítica literária feminista.

Na primeira onda do Feminismo, ainda que algumas feministas como Margaret Sanger e Voltairine de Cleyre já fizessem campanhas pelos direitos sexuais, reprodutivos e econômicos das mulheres, o que realmente se verificou foi um movimento concentrado no Reino Unido e nos Estados Unidos, tendo como principais metas, no século XIX, a igualdade dos direitos contratuais e de propriedade para ambos os sexos, em oposição aos casamentos arranjados, e ao fato de a mulher casada e seus filhos serem considerados posses do marido. Vale lembrar que, nessa época, havia mulheres ricas, cujos dotes as tornavam excelentes partidos; porém, uma vez casadas, suas propriedades passavam a pertencer ao marido. Quanto aos filhos, uma vez terminado o casamento, ficavam com o pai, e a mãe muitas vezes era banida do convívio com a família.

Já no século XX, o foco passou a ser a conquista do poder político, especialmente o direito ao voto. Na Irlanda e na Grã-Bretanha, as campanhas pelo sufrágio culminaram com o Representation of the People Act em 1918, que concedia o voto apenas às mulheres acima de 30 anos de idade que possuíssem pelo menos uma residência própria. Somente em 1928 o direito ao voto se estendeu a todas as mulheres acima de vinte e um anos. Nos Estados Unidos, as líderes do movimento se preocuparam, primeiramente, com a abolição da escravidão e eram influenciadas

pelo pensamento quaker. A aprovação da 19ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos deu-se em 1919, concedendo à mulher o direito ao voto em todos os estados. No Brasil, as mulheres adquiriram o direito de votar e serem votadas em 1832.

Outras questões foram levantadas e, embora não se constituíssem no foco do movimento da época, abriram caminho para a segunda fase. Um exemplo é a publicação de Marriage and maternity, de Susan B. Anthony, no jornal The

Revolution, em 1869, sustentando que a esposa tinha o direito de recusar-se a fazer

sexo com o esposo. Para Anthony, a mulher deveria ter o direito ao seu próprio corpo até para usar a abstinência como método contraceptivo.

A segunda onda iniciou-se em 1960 e durou até o fim da década de 80, preocupando-se principalmente com questões de igualdade e com o fim da discriminação. Carol Hanisch, ativista e autora feminista, cunhou o slogan "The Personal is Political" (o pessoal é político), que passou a simbolizar essa onda.

Outro slogan importante foi "Women's Liberation" ("Liberação das Mulheres"), usado pela primeira vez nos Estados Unidos no início da década de 60, que passou a se referir a todo o movimento feminista no final da década. Nos EUA, houve protestos ao concurso Miss América e queima de sutiãs. Mas o que parece realmente ter atiçado o movimento foi a publicação, em 1963, do livro de Betty Friedan A mística feminina, que criticava a ideia dominante de que uma mulher encontrava satisfação apenas sendo mãe, esposa e dona de casa. Segundo Margalit Fox (2006, p. 1),3 esse livro "é amplamente conceituado como um dos livros de não-ficção mais influentes do século XX‖. Nele Friedan explica que as mulheres são vítimas de um sistema de falsas crenças que as obriga a encontrar identidade e significado em suas vidas por meio do marido e dos filhos, perdendo, assim, sua identidade para a de sua família.

Ainda na segunda onda, a partir da década de 70, houve homens e mulheres que pesquisaram sobre a religião matriarcal na Pré-História e nas civilizações antigas. Bons exemplos são Merlin Stone, autora de When God was a woman (1976), e Marija Gimbutas, autora de The civilization of the Goddess (1989), nos quais a mulher é apresentada como um símbolo fundamental de fertilidade, vida, força e sabedoria espiritual.

A terceira onda começou no início da década de 90, como uma reação ao que era considerado como as falhas e lacunas das ondas anteriores. A partir de meados da década de 80, feministas negras, com visões pós-estruturalistas, conquistaram espaço no movimento e criticaram a ênfase da militância ser direcionada para mulheres brancas de classe média-alta. Essa onda trouxe consigo várias considerações da chamada ―micropolìtica‖, como reflexões sobre o racismo, a homofobia, a colonização e a construção na sociedade dos papéis sociais dos gêneros. Entretanto, como não diz respeito à época em que Delly ainda fazia sucesso entre as leitoras, não há necessidade em aprofundar nesses aspectos.

É interessante notar que justamente na transição entre a primeira e a segunda ondas do Feminismo foi que Delly deixou de ser tão lida – pelo menos no Brasil –, dando espaço para os romances vendidos em bancas de revista da Nova Cultural.

Os livros de M. Delly e os da Nova Cultural têm uma diferença fundamental. Os primeiros eram recomendados pelos educadores, aprovados pela Igreja Católica e faziam parte das bibliotecas das Escolas Normais e do acervo das famílias da primeira metade do século XX. Já os romances vendidos nas bancas são discriminados, têm a sua leitura desvalorizada. Muitas leitoras relatam atualmente, nos blogs, que nessa época tiveram de lutar contra o próprio constrangimento nas primeiras vezes que foram comprar um desses livros e também ao trazê-los para casa e enfrentar a família, uma vez que as capas com as imagens sensuais denunciavam onde haviam sido comprados.

Entretanto, ambos – o de M. Delly e as séries da Nova Cultural – apresentam semelhanças: são vendidos em bancas como literatura de entretenimento, têm enredos ambientados na segunda metade do século XIX – geralmente na França ou Inglaterra –, contam histórias de amor estilo conto de fadas, voltadas para um público mais feminino, em que, na maioria das tramas, uma plebeia se enamora por um nobre. As leitoras de hoje não leem mais M. Delly, como acusaram as baixas vendagens da reedição da década de 80. Provavelmente, as leitoras de M. Delly dos anos dourados da década de 50 também não leriam os atuais romances da Nova Cultural, que seriam considerados impróprios. Entretanto, ambos contêm histórias de amor passadas no século XIX, e possuem, de acordo com Marlyse Meyer (1993), as bases do que seria o ―modelito Delly, o arquétipo da moderna Cinderela‖, por sua vez esquematizado por Bakhtin:

Um par de jovens em idade de casamento. A origem deles é desconhecida, misteriosa. Eles são dotados de beleza rara. Encontram-se inesperadamente; via de regra numa festa solene. Apaixonam-se repentinamente, um amor insuperável. Encontram entraves que retardam e impedem o enlace. Os apaixonados são separados, procuram-se, reencontram-se. Têm importante papel os encontros com amigos ou inimigos inesperados, adivinhas, vaticínios, sonhos proféticos, pressentimentos, poções para dormir. O romance termina com a feliz união dos apaixonados em matrimônio. (MEYER, 1993, p. 214)

O papel da mulher na sociedade e seu campo de atuação mudaram drasticamente durante o século XX. Era de se esperar, portanto, que a heroína de outrora, apresentada como bela, dócil, casta, sensível, caridosa, religiosa, obediente ao marido, cuja felicidade estava no matrimônio, não pudesse ser mais a heroína dos novos tempos, quando a mulher consagrou seu lugar como profissional no mercado de trabalho e cidadã dotada dos mesmos direitos que os homens. A heroína dos novos romances é igualmente bela, mas ousada, forte, aventureira, questionadora dos valores tradicionais e curiosa sobre os prazeres do sexo. Se a heroína de Delly parecia uma mocinha da década de 20, a da Nova Cultural e da Harlequin assemelha-se a uma mulher do século XXI, embora ambas sejam descritas com trajes do século XIX.