Um aspecto que chamou muita atenção durante a pesquisa diz respeito às transformações nos usos, ocupações e volume de pessoas no espaço ao longo dos diferentes horários. Tendo em vista que a maior parte da população residente no bairro não trabalha na RA, é de se esperar que essa mesma porção não esteja presente em Águas Claras ao longo de grande parcela do dia.
A ocorrência do movimento pendular, porém, se dá em vários sentidos. Muitos dos habitantes de Águas Claras se deslocam para fora do bairro pela manhã rumo ao Plano Piloto – principalmente –, Taguatinga e ou- tras Regiões Administrativas, mas também há um movimento que leva trabalhadores a Águas Claras. Esse processo se dá numa lógica operada majoritariamente sob a batuta do sentido de classe socioeconômica, que tende a deslocar as populações mais periféricas rumo aos empregos, mais centralizados. Brasília é fortemente caracterizada por essa lógica.
Ilustração representando a intensidade dos fluxos nas pra- ças adjacentes à estação Águas Claras em diferentes horários do dia.
Fonte: Ilustração produzida por Karoline Cunha. Figura 47:
Isso se vê em Águas Claras e é especialmente perceptível quando ob- servada a concentração e o fluxo de indivíduos nos pontos de ônibus e estações de metrô nos horários considerados de pico – particularmente por volta de 8h e 18h.
Ao longo da maior parte da manhã e da tarde, as estações recebem um contingente reduzido de indivíduos, mas o cenário é diferente pelo co- meço da manhã e no início da noite. Essa mesma lógica se reproduz nos pontos de ônibus, exatamente no mesmo sentido: chegada a Águas Claras Vertical pela manhã, saída no começo da noite.
Ao analisar os dados disponíveis na PDAD, constata-se que em núme- ros brutos, apenas cerca de 4 mil habitantes do setor ocupam postos de trabalho ali. Em contrapartida, recebe grande quantidade de morado- res dos setores adjacentes: do Areal, mais de 3 mil habitantes (de uma população total de cerca de 10 mil), e de Arniqueiras, mais de 3.400 habitantes (de uma população total de pouco mais de 11 mil). Esses dois setores abrigam populações menos abastadas do que aquela situada em Águas Claras Vertical.
Somam-se a esses, no movimento rumo aos empregos em Águas Claras, populações de outras Regiões Administrativas. A saber, principalmen- te de: Taguatinga (pouco mais de 1.300 indivíduos), Ceilândia (mais de 4.300 indivíduos), Recanto das Emas (cerca de 1.900 indivíduos), Samambaia (aproximadamente 3.100 indivíduos), entre outros, ain- da que em quantidades substancialmente menores. De acordo com a PDAD, isso significa que do total aproximado de postos de traba- lho disponíveis em Águas Claras Vertical (em torno de 27 mil postos
Grande fluxo de pessoas desembarcando na estação Águas Claras pela manhã (entre 8h-8:30h)
Fonte: Arquivo do autor. Fotografia por Paulo Victor Bor- ges Ribeiro.
ocupados19), aproximadamente 8,5% são exercidos por moradores da área. Isso é muito distinto do que acontece em outros bairros da capi- tal, tais como Brazlândia, Ceilândia, Gama, Planaltina, Taguatinga, São Sebastião e outros que abrigam considerável parcela de empregos ocu- pados pelos próprios habitantes, conferindo-lhes uma dinâmica urba- na distinta e com maior presença ao longo do dia de locais nas próprias Regiões Administrativas que habitam.
O que se percebe quanto à ocupação das praças é que têm servido funda- mentalmente como trecho durante deslocamentos de passantes e pon- to de comércio ambulante e/ou informal, que tendem a se proliferar exatamente nos momentos de maior intensidade de fluxo. Contribui também a absoluta ausência de equipamentos, inclusive bancos, nessas praças. Nesse caso, a circulação prevalece, rápida, sobre a permanência, exemplificando a operação da lógica descrita por Olivier Mongin20 que rapidamente passou a caracterizar as cidades modernas, principalmente a partir do século XIX. Para esse autor, essa relação está diretamente atrelada à própria maneira pela qual a economia passou a funcionar no âmbito das cidades e às transformações que promoveu a partir disso, com a necessidade de rápido deslocamento de trabalhadores.
19 Não existem dados disponíveis que especifiquem os setores nos quais estão concentrados os postos de trabalho de Águas Claras, mas o que se nota é que há considerável concentração no setor da construção civil que, com dezenas de obras em andamento na região, demanda um enorme contingente de mão- -de-obra.
20 (Mongin, 2009)
Comércio informal e/ou ambulante funcionando nas pra- ças adjacentes à estação e em suas proxi-midades.
Fonte: Arquivo do autor. Fotografia por Paulo Victor Bor- ges Ribeiro.
Em geral, o que se pôde perceber foi uma área pública, caracterizada como praça, que tem, na realidade, sua ocupação resumida a fluxos em horários bastante específicos. Enquanto trabalhadores de outras re- giões chegam, aqui e ali alguns moradores deixam o bairro. Devido ao caráter nodal21 da estação de metrô e à variedade do público que nela desembarca, é uma das situações nas quais, em Águas Claras, existe a possibilidade de estranhos se encontrarem, ainda que de maneira com- pletamente efêmera, rápida. No caminho, pessoas se cruzam, se vêem, interagem mesmo que apenas no ato das mensagens expressivas22 e pela comunicação da copresença.
Não há tentativa de pacificação ou eliminação dos conflitos que taci- tamente se desenvolvem quando um trabalhador da construção civil cruza com um funcionário público de terno e gravata. A indiferença entre eles parece permanecer num ato silencioso enquanto prosseguem em seus caminhos, seja chegando, seja saindo do bairro. O comércio
21 Acompanhando a ideia de Kevin Lynch, aqui se entende que o “ponto no- dal” compreende um lugar no qual ocorre grande concentração de indivíduos. É um ponto que atrai e concentra pessoas. A estação de metrô Águas Claras possui essa qualidade no âmbito do setor Águas Claras Vertical.
22 Para o sociólogo Erving Goffman, não é preciso estabelecer diálogo com alguém para comunicar algo. Esse autor aponta, ao discutir o comportamento em lugares públicos, que os indivíduos comunicam a todo momento. Seus corpos transmitem mensagens, seja por seus trajes, trejeitos, cortes de cabelo, o que carregam, cor da pele, etc. Assim, é impossível permanecer no espaço e não comunicar – o que chamou de “mensagens expressivas”. (Goffman, 2010)
Vista da praça e da estação Águas Claras e partir de um ân- gulo lateral.
Fonte: Arquivo do autor. Figura 50:
informal, ainda que ocorra e proporcione alternativas de consumo, não afeta a essência do espaço: as pessoas não estão ali por causa dele, não ocupam o espaço para consumir, para comprar. Além disso, é uma ocupação cotidiana, com ocorrência diária, mesmo que só se efetive em alguns momentos do dia. Curiosamente, ainda que a praça não possua equipamentos públicos e se lance como amplo vazio sem uso específico, o balé dos horários de pico que é produzido pelo ir e vir da estação de metrô, com rápidas paradas e conversas aqui e ali, se lança como um exemplo da configuração dos espaços públicos de Águas Claras.