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Outdoor pollution assessment

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4. Activities taken up and completed

4.2   T ASK  2   A SSESSMENT OF POPULATION BURDEN OF DISEASE DUE TO AIR POLLUTION

4.2.3 Outdoor pollution assessment

Anabela Galhardo Couto

Incide este artigo no mais recente livro de poesia de Ana Hatherly intitulado A Neo-Penélope, publicado pela Editora &etc, em 2008. Trata-se de um belíssimo exemplar que inclui na capa um delicado desenho da Autora. Num fundo sépia, um feixe de fios e linhas adivi- nham uma silhueta feminina; dobrada num “secular sequestro”, com um braço ampara a cabeça no mítico gesto da espera que consagrou Penélope; no lugar do rosto um espaço em branco, pronto a ser preen- chido por cada uma das Penélopes que cada mulher representa. Como numa figura fractal, o desenho condensa e potencia admiravelmente o sentido da obra.

Considero-me uma discípula de Ana Hatherly. Sei, portanto, que Ana Hatherly, para além de artista inspirada, corresponde também a essa categoria hoje rara e em extinção dos grandes Mestres, no sentido antigo da palavra. O Mestre de que fala George Steiner em As Lições

do Mestres.1 O que tem a capacidade e a generosidade de viver o saber como lição de vida e exemplo e por isso é capaz de despertar nos ou- tros poderes e sonhos que eles próprios desconhecem.

É sob esse influxo longínquo que esta leitura de a Neo-Penélope se situa.

Seguindo a sugestão metodológica de Gadamer,2 o que me pro- ponho fazer é deixar-me conduzir pelo texto; deixar-me embalar pelo “tecido sedoso de palavras” que o livro oferece, como quem passeia,

1 George Steiner, As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2003.

2 Hans-Georg Gadamer, Verdade e Método: Traços Fundamentais de uma Herme-

ou viaja, limitando-me (para usar uma metáfora barroca) a colher al- gumas flores neste jardim de femininos versos.

Como se sabe, a produção literária, artística e ensaística de Ana Hatherly ocupa um lugar ímpar no domínio da cultura portuguesa. Es- sa singularidade é ditada pela fecundidade produtiva da sua obra; pela dimensão de inovação e de transgressão que lhe são peculiares; pela capacidade de penetração e de intuição aliada a uma depuração formal capaz de dar vida a “esses seres de discurso de alta categoria” de que fala Ricouer; mas também, e sobretudo, pela coerência do projecto que a anima.

A obra de Ana Hatherly representa um caso singular de criação que se desdobra em facetas que vão da produção poética, às artes vi- suais e à investigação.

O que é admirável é a forma como estas diferentes facetas se complementam, se elucidam e se reflectem num jogo especular que remete sempre para novas sínteses clarificadoras, que por sua vez cri- am novos horizontes, introduzindo novas interrogações.

No coração deste projecto multifacetado, como um dos seus nú- cleos duros, situa-se a reflexão sobre a linguagem, a interrogação so- bre o labor poético e o enigma da escrita.

Um dos leitmotiv que percorre a poesia de Ana Hatherly é, sem dúvida, o da linguagem como forma de acesso ao mistério, ao indizí- vel, ao coração das coisas: a escrita na sua misteriosa capacidade de criar, recriar sentidos.

A palavra encarada na sua materialidade opaca, como um dos ob- jectos do mundo, encontra-se ainda no centro de uma constelação que se desdobra, ora na exploração da visualidade do texto e da palavra carnal na poesia concreta que a Autora cultivou nos anos 70, ora nos seus trabalhos de artes visuais, ora na investigação fundamental sobre a poética barroca que a Autora desbravou e desenvolveu a partir da década de 80.

Ora, é também a partir do labirinto da linguagem e da reflexão sobre a escrita literária que se inicia a incursão no mundo feminino que Neo-Penélope oferece.

Nas palavras da Autora A Neo-Penélope traça um panorama amargo, eu diria, lúcido, do mito da mulher aos olhos do mundo. Tra- ta-se, de facto, de revisitar, repensar, desconstruir os mitos da mulher que o mundo fabricou e fabrica. Ali se procede a um admirável labor de reescrita, de reelaboração, de desconstrução de toda uma tradição

A Reinvenção do Dizível Feminino em A Neo-Penélope 33

literária e de um quadro mental. Ali se recapitula a tradição do dizível amoroso feminino. E nessa reelaboração convoca-se, destrói-se, rein- venta-se, reequaciona-se de dentro a questão do ser-se, pensar-se e dizer-se mulher. Como quem tece, a obra vai urdindo, recriando, criti- cando ou expressando a forma como histórica e literariamente se sen- tiu, pensou, cantou, ficcionou a mulher.

É assim que entre Penélope, a mulher devotada à espera do seu Ulisses ausente, e Neo-Penélope, a mulher pós-moderna em risco de se abismar no vazio, se convocam séculos de histórias, temas, tópicos literários, mitos que à volta da mulher se entrelaçam.

E através destes, como portas que abrem sobre portas, fala-se da mulher, do homem, fala-se da solidão, da necessidade de amor, da im- possibilidade do amor, do silêncio, do indizível, do corpo, da escrita, da passagem do tempo, da violência, do vazio.

Esta revisitação inspirada do dizível amoroso feminino plasma-se numa formulação lapidar, admiravelmente concisa, despojada, hierática, mesmo quando a tessitura do texto exibe claras ressonâncias barrocas.

1º Andamento

Seguindo a sugestão da Autora, poder-se-á considerar que A Neo-

-Penélope corresponde a uma espécie de partitura musical com três andamentos.

O 1º andamento intitulado “Poemas Femininos” traça um espec- tro largo das sensibilidades e das personalidades femininas ao longo dos tempos, em diversos matizes e diferentes tonalidades que podem ir da evocação lírica à ironia corrosiva.

Ali encontramos, por exemplo, a invocação da proverbial graça feminil comparada à silenciosa força das flores, já que ambas, mulheres e flores, foram ancestralmente devotadas ou confinadas a esse secular poder da atracção. Diz-se em “A silenciosa força das flores” (p. 9).

Sua beleza

Sua inestimável fineza Está

Em seu corpo a corpo com o desejo. Sua façanha é

Inspirar o beijo

Silentes Apelam

Dando gritos de perfume.

A dada altura, no poema “As antigas damas japonesas” (p. 11) o leitor depara com a distracção velada dessas personagens, mulheres contidas, “num secular sequestro”, mas também com o potencial de revolta que essa contenção oculta:

As antigas damas japonesas Distraidamente

Agitavam seus leques

No solitário mundo dos biombos A distracção

Porém

É uma forma superior de ocultação E

Na aridez

Do seu íntimo domado O rugido da raiva Estava contido

Artisticamente comprimido No extravagante cinto Que traziam

Atado nas costas. Tocavam

Dançavam

Serviam o chá de joelhos Num secular sequestro. Mas às vezes

Num intervalo do desvelo Da honra e do pudor Descobriam

O esquisito sabor Que tem o crime.

Tópicos seculares do canto feminino como o tópico da espera ou o da ausência, irrompem, aqui ou ali, ora nostálgicos – “a espera do

A Reinvenção do Dizível Feminino em A Neo-Penélope 35

outro que me enche de sonho e de controvérsia” – ora parodiados, ac- tualizados ao vazio dos tempos que correm como em “Ela-Agora”. (p. 33) Ela, agora, espera ainda à janela só que... espera às janelas do computador, que abrem para um abismo solitário e vazio:

Não menos que Helena bela Ela senta-se à janela

Porém não à janela mas às janelas Do computador

Que abrem portas que são redes Páginas que são sítios

Avenidas que são ermos Que agora percorremos Já sem voz

Cada vez mais sós Tanta profusão Atira-nos

Para um lixo que nos deita fora.

Afloram tópicos como o da necessidade de amor: o não-amor é a errância, o não-acontecer, o não nos termos nem a nós próprios (Sem Amor p. 26):

Viver sem amor

É como não ter para onde ir Em nenhum lugar

Encontrar casa ou mundo.

Mas aflora também o Amor cínico, consome-e-deita-fora como em “Carta de Amor Informático” (p. 32), onde o tópico tradicional da queixa de amor é violentamente transposto e convertido ao léxico ci- bernético que domina a actualidade hiperconsumista e a ancestral dor de amor se exprime na gramática amorosa “fast-food” e descartável da actualidade. É com displicência que o sujeito poético feminino se des- pede do seu ex-amado:

Arquivei-te no lixo da memória Do meu Pentium IV

Que aliás já vendi. Troquei-o por um lap top Mais leve

Mais portátil

Mais facilmente descartável.

Pairando, como figura tutelar, impõe-se a nova Penélope.

Recolhendo as cinzas, os pedaços de Ulisses, agora para sempre adormecido, A Neo-Penélope, já não espera, já não tece a tela, mas pensa, sente, não desiste de amar e sabe que:

Tudo é tão importante Como um olhar furtivo.

(“É preciso fazer um esforço” p. 27)

2º Andamento

O 2º ciclo de poemas intitulado “Alice no País dos Anões” encena a Mulher pensada num quadro mental misógino. Estamos agora peran- te um dos grandes mitos da mulher próprios da cultura falogocêntrica Ocidental: a mulher-Eva, tal como Simone de Beauvoir apontou, en- carnação da facticidade ao olhar masculino3. A mulher rebaixada à escala infra-humana e pintada como o instrumento diabólico da perdi- ção masculina. A mulher como coutada do homem, concebida por e para ele.

Através da revisitação de Alice de Lewis Carroll procede-se à desconstrução feroz do mito da sedutora ingénua, mulher criança ino- cente e perversa para gáudio do voyeur:

Alice Majorette À frente da viril parada É exibida

Na sua gritante oferta. (“Alice Majorette” p. 41)

3 Refiro-me à tese clássica de Simone de Beauvoir desenvolvida no O Segundo Sexo

A Reinvenção do Dizível Feminino em A Neo-Penélope 37

Em “Cantiga de Escárneo e Dizer Certo” (p. 45) é implacável a denúncia dos mecanismos que alimentam o mito:

“Alice foi o objecto pensado De um pedófilo disfarçado

Voyeur de meninas mal despidas”.

É a Alice, poderia ser a Barbie, a Lolita, ou a Branca de Neve no “país dos malévolos anões”, “pobres pequenotes mal crescidos” que não enxergam mais do que os seus “petites apetites” (Alice Paradigma p. 43).

3º Andamento

Por último, o 3º ciclo de poemas intitulado “Epigramas e Sátiras” constitui uma incursão num território pouco habitual na poesia femi- nina portuguesa: a sátira.

É aqui que mais explicitamente se convoca o domínio da prática e da poética barrocas. Aqui irrompe o mecanismo da paródia, do jogo, do texto sob o texto, e o riso feroz brota numa crítica jocosa a aspectos violentos da sociedade actual: a mercantilização da família em “Sátira Barroca I – O Prazer dos Casais” (p. 54); a competição facínora do sistema social em “Pseudo-Soneto-do-Atleta-Lesionado” (p. 58); a banalização da arte em “O artista Ex-Ovo” (p. 59); a vedetização em- pobrecida da sociedade espectáculo em “O cronista Social” (p. 60) que começa num andamento tipicamente barroco:

O tribuneiro Cronista social Atinge a plenitude laboral Ao expor dos estros dominantes Os seus sucessos

Desporto de gigantes.

Para finalizar, e retornando a essa figura tutelar da Neo-Penélope, dir-se-ia que a Neo-Penélope é, afinal, a metáfora da criação, a másca- ra, o alter ego da Autora e do seu trabalho sobre a palavra.

Nesse exercício delicado e atento, sempre retomado, sempre ina- cabado, a Neo-Penélope tece palavras, textos, cria e recria sentidos,

memórias, vê longe, para além do horizonte. Entre o silêncio e a pala- vra faz e desfaz a sua teia, nessa tentativa sempre retomada e sempre falhada de aceder ao mistério das coisas, nesse jogo, a limite impossí- vel, de fixação do acto de viver: porque a “escrita é o que me revela um mundo, o mundo.”4

Bibliografia:

BEAUVOIR, Simone, o Segundo Sexo Lisboa, Livraria Bertrand, 1975. HATHERLY, Ana, A Neo-Penélope, Lisboa, &etc, 2007.

_____ Interfaces do olhar, Lisboa, Roma Editora, 2004. _____ Fibrilações, Lisboa, Quimera, 2004.

_____ A Mão Inteligente, Lisboa, Quimera, 2003. _____ Poesia Incurável, Lisboa, Editorial Estampa, 2003.

_____ Um calculador de improbabilidades, Lisboa, Quimera, 2001. _____ A Idade da Escrita, Lisboa, Edições Tema, 1998.

_____ O Ladrão Cristalino: aspectos do imaginário barroco, Lisboa, Cos- mos, 1997.

_____ A casa das Musas, Lisboa, Editorial Estampa, 1995. _____ Escrita Natural, Lisboa, Galeria Diferença, 1998.

_____ Mapas da Imaginação e da Memória, Lisboa, Moraes Editores, 1973. GADAMER, Hans-Georg, Verdade e Método Traços Fundamentais de uma

Hermenêutica Filosófica, S. Paulo, Editora Vozes, 2005.

RICOEUR, Paul “Elogio da leitura e da escrita” in Texto, Leitura e Escrita:

Antologia, Porto, Porto Editora, 2000.

STEINER, George, As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2003.

LEITURA DE UM ROMANCE ERÓTICO

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