2.3 TRIANGULATION OF SOURCES
2.3.3 OTHER LITERATURE
Quando se esclarecem as condições de surgimento do homem e com ele a modernidade, ficam evidentes também as formas pelas quais ele está em vias de desaparecer. Dadas as condições dos duplos antropológicos, reduplicação crítica entre o positivo e o fundamental, entre a empiricidade e a finitude, vê-se de que forma, o elemento representável, desde a analítica da finitude até as positividades, pode ser questionado agora fora de uma teoria do discurso.
O problema da representação no classicismo é a imagem em espelho da linguagem, que se dobra sobre si mesma no quadro. O quadro representativo clássico é intransitivo, pois refere a todo confim dos saberes sua teoria discursiva. É representativo na medida em que reflete a teoria do discurso em todo domínio do saber, como o a priori metafísico da epistémê clássica. A crítica aboliu o regime da representação, pois colocou em questão o fundamento metafísico e o discurso que o sustentava. Mas o postulado dos limites do conhecimento instaurou outro princípio
que fez as vezes deste discurso: a subjetividade transcendental e a reduplicação antropológico-crítica.
Na modernidade, o problema da representação reaparece no momento em que a linguagem elidida volta ao centro da questão do ser do homem. O ser da linguagem, algo de um passado clássico fundamental que na modernidade foi preservado no domínio da literatura, inaugurando-a, volta a ser questionado na contemporaneidade. Mas este ser que é imediatamente dado na literatura moderna, só pode voltar ao regime dos saberes por uma mediação inusitada: as representações. Assim, quando o ser da linguagem se tornou evidente e autônomo (ante a psicanálise e a etnologia), mais a representação retornou no elemento da (contra) cientificidade, mas agora desprovido de qualquer teoria do discurso como seu a priori. Nas ciências humanas, as representações voltaram a ser pensadas na dimensão das positividades e da finitude, na indagação do inconsciente, do fundamental e da origem. O elemento das representações nas análises do ser do homem é exatamente a região na qual se encontram as ciências humanas: pensar como a finitude se dá à representação, como o nível do fundamental se manifesta num código, numa linguagem.
A crítica das representações é a forma pela qual o pensamento pode recolocar a linguagem ao nível do fundamental, e com isso desestabilizar completamente a epistémê. Com a etnologia e a psicanálise, pode-se reencontrar uma dimensão do saber que não é exatamente uma ciência, mas também não é pré- científica. Não se trata de uma nova metafísica da linguagem, mas de uma região a qual a literatura já havia apontado com maestria uma região que a literatura já havia indicado: a exterioridade do além-do-homem.
A crítica ao sono antropológico passa ao menos por três momentos: a instauração das positividades fundadas na analítica da finitude, a retomada das representações agora na analítica do homem e o reencontro do ser da linguagem não apenas no a priori histórico dos saberes, mas no nível do fundamental, da condição de possibilidade da própria finitude, sua margem e sua transgressão. Neste último movimento, o retorno do elemento da representação nas ciências humanas, foi a condição para que todo saber se encontrasse elidido. A volta das representações preparou o retorno da linguagem, entretanto, em última instância, as representações perderam completamente o “domínio do fato”, perderam o caráter
ordenador da epistémê. Talvez isso se deva ao fato de que, numa modalidade peculiar de ceticismo, a representação fez aparecer uma tautologia no cerne da teoria sobre o homem, e com isso dissolveu-a. A representação funciona como uma “crítica da razão” na medida em que toma por objeto da investigação aquilo que é sua própria condição de possibilidade, o seu a priori72. A representação se dá a
análise da finitude no elemento da consciência. Mas a subjetividade transcendental, a entidade negativa do limite, a priori da analítica da finitude, sendo um desdobramento crítico, só poderá ser revogada no elemento da representação. Daí a relação fundamental entre ciências humanas e a representação clássica. O que interessa a Foucault é o movimento no qual a representação entrou em cena para elidir o sujeito que condicionava os saberes, e nesta elisão se reencontrou com a experiência fortuitamente literária do ser da linguagem. O ser da linguagem, por sua vez, nada deve à representação, muito pelo contrário, abole-a da sua experiência que é totalmente direcionada ao elemento exterior, ao vazio da linguagem, a transgressão da finitude. É este curto circuito73 no qual a representação que está sendo investigada é o próprio fundamento da investigação, e a representação que investiga toma como objeto a própria representação. Mas este cão que caça o próprio rabo é tão sutil quanto o enunciado da Crítica da Razão Pura. Estamos dizendo que ao mesmo tempo em que a razão critica, é ela criticada. A crítica da razão pura é também a crítica à razão pura (algo entre a condicionalidade recíproca e a comutabilidade dos elementos: o sujeito da operação, oculto, critica a razão e ao mesmo tempo é criticado por ela; dá a origem na subordinação recíproca, mas ao mesmo tempo dá a circunstância na qual este pertencimento se encontra: só critica na medida em que é criticado). De modo semelhante, a crítica contemporânea das ciências humanas, agenciada pelas representações, não demora a se reverter numa crítica às representações. Acontece que as ciências humanas, que criticam os saberes por meio das representações, acabam por ultrapassar seus limites e entram
72 Cf. SOUZA, 2008, p. 62 e Op. Cit. p.121, grifo.
73 A metáfora do curto circuito é interessante. No momento em que a resistência entre duas cargas de
grandezas diferentes se torna zero, a diferença de potencial entre estas cargas tende ao infinito. Este é o modelo do cálculo integral, em que a razão entre uma grandeza e o nada se manifesta a rigor como tendência ao infinito. É tendência porque jamais atinge integralmente o infinito, porque a resistência nunca permanece anulada por muito tempo. Eis que o cálculo diferencial é requisitado, pois, como problema sem solução, como paradoxo, libera a Diferença neste processo de embate entre as potências. Outra metáfora interessante é a do quadro de Chirico qual quadro?, que faz o quadro redesenhar o próprio quadro sem qualquer jogo de espelhos, mas sim na remissão ao infinito, projeção do quadro material dentro do quadro desenhado. É uma nova disposição da relação que Velásquez tinha apresentado como imagem da representação clássica. A reflexão sobre Isto não é
numa região de tautologia na qual se criticará o estatuto das representações nas ciências humanas, mas somente pelo espaço aberto pelas próprias representações. Nesta grande confusão, realizar-se-á uma crítica das representações às representações.
Diante das três facetas da modernidade, filologia, ciências humanas e literatura, a contemporaneidade pôde realizar um reencontro entre teoria do discurso, representação e o ser da linguagem. No entanto, o elemento da representação parece ser o intermediário efêmero, inesperado e fundamental à crítica da subjetividade, pois deu a dimensão na qual puderam se estabelecer as contraciências da contemporaneidade. Agora, no âmbito destas contraciências, podemos estabelecer uma nova relação entre a teoria do discurso e o ser da linguagem, haja vista que o domínio da subjetividade fora totalmente revogado. Ao passo que a experiência contemporânea desvencilha-se da representação em seu fundamento no ser humano, a teoria do discurso e o ser da linguagem podem reencontrar de certo modo uma experiência pré-clássica, onde a teoria do discurso não se aloja na reduplicação da linguagem sobre si própria, representando-a. Este é o âmbito da sintaxe de Foucault e o reencontro teórico de seu objeto com o seu método. O que havia na análise de Foucault acerca da sintaxe74 que autorizava a
ordem dos seres? No campo dos saberes modernos, nada mais remonta à experiência do ser da linguagem, que fez parte das representações, embora fosse completamente subordinada a elas, e se manifestou em estado bruto nas similitudes renascentistas. Foucault ressalta que a experiência do ser da linguagem no âmbito da modernidade, só encontra espaço na literatura. O contemporâneo, ao contrário, irrompe deste ser e, assim como as ciências humanas guardavam sua relação com a idade clássica, o teor das análises contemporâneas acerca da linguagem também deve algo à época renascentista em que as similitudes eram índices da própria existência75. Ora, uma nova teoria do discurso deve levar em conta esta relação fundamental entre uma ontologia da linguagem e a própria linguagem no nível do fundamento das positividades e da finitude. Para que esta nova teoria da linguagem venha avalizar a psicanálise e a etnologia e recolocá-las ao nível de um saber
74 Op. Cit. p. 45.
75 No momento não temos condição de analisar em profundidade esta questão, mas temos delineado
um trabalho futuro no qual se tomará como objeto o ser da linguagem e o espaço literário em que ele se encontra. Neste trabalho futuro, acreditamos seguir um pouco mais o fio de Ariadne para dentro do labirinto.
anterior ao nível do paradigma moderno de cientificidade é preciso que se esconjure por completo as representações onde, no limite, não haverá nem mesmo sujeito.
Na Arqueologia dos saberes, o ser da linguagem tem duas facetas: as práticas discursivas e a experiência da exterioridade. Assim se delineia uma teoria do outro em que o mesmo foi levado a pensar a alteridade. Loucura, morte, vazio, exterioridade, enfim, são todas elas experiências íntimas à linguagem e os lugares nos quais é possível pensar a Diferença.