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e concedeu-lhes esta parte, onde fizeram o seu lugar e onde vivem118.

Situa-se a quatro léguas de Portobello. Por Janeiro é Verão nesta terra, e sempre por ela se pode caminhar melhor nestes meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro. Todos estes caminhos estão pejados de macacos, e não faltam por aqui serpentes, ainda que não façam dano.

Outro caminho sai do Panamá para Portobello. Toma-se a ala esquerda, sai-se junto do hospital dos espanhóis e do mosteiro dos fran- ciscanos, e vai-se à Casa de Cruces, a seis léguas. É jornada de nove horas. Passa-se por uma quebrada, por onde corre um pequeno rio, e vai-se por ele abaixo por duas léguas. E sucede a crescer o rio, afogando algumas mulas. Posto que seja um caminho áspero, não o é tanto como o outro referido. A Casa de Cruces está na margem do rio Chagre, é toda de tábuas, com muitos armazéns onde se recolhem as mercadorias que vêm de Portobello pelo rio de Chagre acima, em embarcações muito grandes. Saem de Portobello e vão cabotando até chegarem à boca do rio de Chagre, logo sobem navegando pelo rio até Legatún, que se encontra entre os dois rios Chagre e Pequení, e por Chagre, que é o rio da banda direita, vão a Cruces. Cada uma destas embarcações leva pelo menos doze valen- tes negros, que, com alavanca e a remos, fazem subir os barcos. O menos que tardam em chegar a Cruces são nove dias, porque o rio tem muitos caudais por onde corre muito e muitas crescentes e algumas árvores que as águas trazem e estão nas partes fundas, não se vendo, com o que se perdem alguns barcos. Junto deste rio cria-se e colhe-se muita e muito boa salsaparrilha, e por isto dizem que a água deste rio Chagre é lindís- sima e sã para beber. Neste rio andam muitos caimões e iguanas, que são os que se chamam lagartos de água, são da cor da mesma água, saem à terra, põem muitos ovos e trepam pelas árvores. E os negros comem estas iguanas e seus ovos, que são tão grandes como os de galinha. Todo o rio está coberto de bosques muito altos, verdes e cerrados, sobre os quais andam muitos macacos e micos, de muitas e diferentes espécies. Quando querem passar de uma parte do rio à outra, procuram as árvores que mais juntas se encontram, seguram-se às caudas ou rabos uns dos outros e, deixando-se pendurar das árvores e dão-se um vaivém, o que está à frente agarra-se à árvore, e assim vão passando todos os que querem, sem se largarem até que se achem a salvo. E fazem mil burlas e momos às gentes que por ali navegam, atiram-lhes paus, e é tanto o estrondo e os gritos

118 Portobello, no istmo do Panamá, foi o centro distribuidor de escravos, oriundos

na sua maioria da costa da Guiné, na vertente pacífica da América espanhola. Muitos conse- guiam fugir ao tráfico, estabelecendo-se na região e misturando-se com a população nativa. Depois de protagonizar diferentes levantamentos desde a segunda metade do século XVI, na década de 70 do mesmo século aliaram-se a Francis Drake, fornecendo-lhe informações estra- tégicas sobre o transporte de ouro. Em 1579, como refere o autor, os cimarrões chegaram a um acordo com a Coroa, aceitando acabar com a ajuda aos ingleses a troco da obtenção de um certo nível de autonomia e do estabelecimento no mencionado Lugar Nuevo.

DESCRIÇÃO GERAL DO REINO DO PERU, EM PARTICULAR DE LIMA 179

Cartagena

que dão, que parece que afundam aqueles bosques, muitos ladram como cães, e há alguns tão grandes como burricos. Também por aqui andam alguns porcos javalis, e, andam por cima das árvores, muitos papagaios. Grande cuidado se põe em aprestar esta jornada do Panamá a Portobello. Paga-se, por todas as mercadorias, meio por cento para arranjo do cami- nho, também se paga este meio por cento as barras de prata e ouro que por ali passam.

Portobello é uma povoação com trezentos vizinhos espanhóis e alguns negros. Todas as casas são de tábua, está edificada junto do mar. Tem um mosteiro de frades mercedários e outras igrejas, e tem casas reais, onde se recolhe o tesouro que vem do Peru para Espanha. Soía esta terra ser muito doente e aqui morria muita gente da que vinha de Espanha. De vinte anos a esta parte, está muito sã e morre nela pouca gente, pois que foram desbastados muitos bosques e, com o tempo, todas as coisas mudam. Diz-se que aqui um corpo humano é comido em vinte e quatro horas, tal é a força da terra que o consome. Em chovendo nesta terra, converte-se a água em sapos, e são tantos e tão grandes que não têm conta, mas logo morrem e desaparecem.

Tem Portobello uma baía de duas léguas, muito funda e segura para as naus. Aqui entram as frotas carregadas com suas mercadorias, e fazem- -se pela margem do mar muitas barracas, onde se vão descarregando e entregando a seus donos. Aqui vêm muitos comerciantes do Peru e do Panamá empregar, e trazem muitas barras de prata e caixotes de reais e tejos de ouro, que empregam em mercadorias. Esta é a melhor feira que o mundo tem, porque aqui, em quinze dias, se despacham mais de dez milhões de mercadorias, conforme são as frotas. E, em não havendo aqui frotas ou galeões, a maior parte da gente vai para o Panamá, ficando a terra muito despovoada. Do Panamá vem todo o seu sustento, todavia os vinhos que chegam aqui e ao Panamá vêm de Espanha, por não consentir El-Rei que entrem nesta terra vinhos do Peru, para que se não perca o comércio de Espanha. Nesta terra bebe-se muito chocolate, e por toda ela há muita laranja, limões e cidras. Também aqui vêm algumas fragatas da lagoa de Maracayo, umas carregadas de farinha e outras de anil e cochinilha. As frotas e galeões deixam-na sempre bem provida de coisas de comer de Espanha. Na entrada da baía há, de cada lado, um forte, arrimado à cidade, que se chama San Felipe de Portobello, numa encosta, está outro forte, à entrada do rio Chagre, um em cada banda, estão outros dois fortes, em Lagatún, que se situa entre os rios Chagre e Pequeni, há outro forte. Todos os seis fortes têm artilharia e soldados de guarnição. Isto é o mais essencial que esta terra tem.

Daqui a Cartagena são oitenta léguas. Vai-se sempre cabotando à vista de altos montes e de verdes e frondosos bosques, e entra-se pela baía de Cartagena, que tem, à entrada, boas fortalezas. As naus fundeiam a mais de meia légua da cidade, em parte muito funda e segura. A cidade é

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