O quadro Retrato Falado se inicia por uma vinheta de abertura que – no DVD em análise – encontramos quatro, sendo que a última estava no ar nos últimos episódios exibidos no ano de 2007. A “vinheta de abertura” ou simplesmente “aber- tura” é uma seqüência inicial de imagens e sons que informa ao telespectador que entrará no ar um determinado programa. Dessa forma, torna-se uma marca que o caracteriza como, por exemplo, a abertura das novelas ou dos telejornais como o Jor-
nal Nacional. É comum um programa mudar, ao longo do tempo de sua exibição, sua
vinheta de abertura, mantendo normalmente a música que já criou sua identidade. O próprio Fantástico mudou diversas vezes sua abertura, porém, se ouvirmos a sua músi- ca sem ver o que se passa na tevê, já sabemos que se trata do referido programa.
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Com essa mesma idéia, a vinheta ganha também função de passagem de um bloco do programa ao intervalo comercial e a sua volta deste, chamada assim de “vinheta de passagem”. Ou é usada para a passagem de um bloco a outro do próprio programa. No nosso caso, optamos em usar o nome “vinheta de abertura” para identificar a introdução do quadro em questão, pois esse, como já observamos, está inserido no Fantástico, assim, a vinheta de Retrato Falado marca o início de sua exibição no programa.
Resolvemos dedicar este capítulo para a análise das quatro vinhetas de abertura presentes no DVD, porque entendemos que essas são fundamentais na construção dos sentidos do quadro. Mas antes faremos algumas considerações a respeito da expressão “retrato falado”, imprescindível na construção desses senti- dos. Nas quatro vinhetas, a expressão “retrato falado” é apresentada nomeando o quadro. Na primeira, a expressão está no início e nas outras, no final. As três primei- ras vinhetas manifestam de formas diferentes a referida expressão e nos deteremos neste particular, quando analisarmos cada uma delas mais a frente.
Se nos detivermos primeiro no termo “retrato”, o dicionário eletrônico Houassis nos indica que é a “imagem de uma pessoa (real ou imaginária) repro- duzida pela pintura, pelo desenho ou escultura”16. “Retrato” também é usado como
sinônimo de fotografia, particularmente, em casos nos quais a imagem obtida é de uma pessoa. Para Landowski, nas explicações iniciais do que deva ser um retrato em seu texto Flagrantes delitos e retratos17, ele afirma que de acordo com a tradição e
o senso comum, “o princípio de base é o da semelhança: o valor desse tipo de ima- gens resulta em primeiro lugar de suas qualidades miméticas”18. Nesta perspectiva,
reportemo-nos a Arlindo Machado quando ele estuda a fotografia. Para ele, “isso a que nós chamamos o ‘reconhecimento’ de um objeto ou pessoa numa foto depende muito mais da topologia geral da imagem do que de qualquer fetiche homológico”19
e traz como exemplo “o retrato falado, utilizado para identificação policial”20.
16 Dicionário Houaiss eletrônico (verbete: retrato).
17 Cf. E. Landowski, Flagrantes delitos e retratos, Galáxia, n. 8, p. 31-70. 18 Ibid., p. 39.
19 A. Machado, A ilusão especular – introdução a fotografia, p.91. 20 Ibid.
A expressão “retrato falado”, pertencente ao universo policial, é usa- da para designar o desenho realizado por um profissional que registra os traços e formas de um determinado indivíduo que está sendo procurado, a partir do relato descritivo de testemunha(s)21. Ou seja, o “retrato falado” de alguém leva as pessoas,
os policiais, a identificarem quem está sendo procurado. É realizado um “retrato”, normalmente do busto da pessoa, que registra as particularidades e os detalhes do rosto do indivíduo, sua dimensão “antropométrica”22.
Hoje em dia, a confecção desse “desenho”, em muitos casos, foi subs- tituída por programas de computador como o Photocomposer23 ou Retrato Falado24
que, a partir de um banco de dados próprio, o operador é capaz de montar o rosto do suspeito25. Neste contexto, Machado afirma:
“Escolhendo um a um o tipo característico do suspeito num para- digma de possibilidades (portanto, num código fisionômico) e depois combinando os traços escolhidos num sintagma artificialmente produzido, pode-se sintetizar a fisionomia que se procura”26.
Segundo peritos, um aspecto importante sobre essa confecção do “retrato falado” é saber entrevistar a(s) testemunha(s) para poder obter dela(s) as informações necessárias para compor de forma adequada o retrato. Confeccionado o “retrato falado” de algum suspeito, esse é normalmente divulgado através das várias mídias para atingir um maior número de pessoas no intuito de que o sujeito procurado seja encontrado.
A partir dessas considerações, a expressão “retrato falado” nos leva a observar dois aspectos fundamentais manifestados no quadro do Fantástico: o relato de pessoas e o retrato realizado. Entendemos que esses aspectos fazem parte
21 Cf. Dicionário Houaiss eletrônico (verbete: retrato, locução: falado). 22 Ibid. (verbete: antropometria).
23 Informações do site http://www.citynet.com.br/retratofalado/Software3.htm visitado em 24/04/2008. 24 Informações do site http://www.inova.unicamp.br/inventabrasil/isnard.htm visitado em 24/04/2008. 25 Atualmente, a polícia também possui um banco de dados nacional com fotos de vários infratores da lei, o
Sistema Fotocrim, em que é possível comparar o “retrato falado” realizado com os diversos rostos presentes neste sistema. O Sistema Fotocrim está sendo desenvolvido pela Polícia Militar desde 1996 e também já está disponível para uso da Polícia Civil. Informações no site http://www.inova.unicamp.br/inventabrasil/isnard. htm. Acesso: 24/04/2008.
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de Retrato Falado através de uma construção de sentidos jocosa e alegre que se opõe à ênfase negativa que a expressão possui no âmbito policial. Assim, o quadro se propõe a “retratar” alguém, de forma risível, a partir daquilo que é “falado” – as histórias jocosas contadas pelos personagens envolvidos.
Segundo o dicionário eletrônico Houaiss, “retratar”, como é obser- vado nessa questão, é “fazer retrato de (pessoa real ou imaginária), por meio de pintura, desenho etc.; reproduzir (algo, alguém ou a si mesmo), mediante processo fotográfico; fotografar (-se)”27. Assim, entendemos que, a partir do que é contado,
“falado”, o quadro do Fantástico “retrata” alguém por meio de um fato vivido por esta pessoa com os recursos da televisão – entrevistas, dramatização, animação grá- fica etc. Assim, Retrato Falado produz um “retrato televisual”.