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P OTENSIAL FOR TIDLIGERE IKKE REGISTRERTE , AUTOMATISK FREDETE KULTURMINNER

4. KULTURMINNER OG KULTURMILJØ

4.6 P OTENSIAL FOR TIDLIGERE IKKE REGISTRERTE , AUTOMATISK FREDETE KULTURMINNER

Após sessenta e cinco anos de tradição na educação masculina, o Colégio Catarinense insere, no ano de 1970, a presença das alunas em seus cursos. Durante a Primeira República, há o registro de apenas uma aluna, e Dallabrida (2001, p.229) diz que a exceção à regra foi Maria Sulamita Konder, que fez os exames de preparação no colégio dos padres jesuítas, foi aprovada em todos e integrou a turma de formandos de 1924.

Dois cursos em nível de Segundo Grau foram oferecidos às mulheres a partir de 1970: o Curso Científico e o Curso Técnico de Secretariado. O Relatório do Colégio Catarinense-1968/71 (O. A. M. D. G., s.d.) registra que, em 15/12/1969, iniciaram-se as matrículas para o Curso de Secretariado (misto) a partir de 1970 na parte da noite. Gilza Maria Moreira, foi à primeira aluna a inscrever-se. Na mesma data, também está registrado que a partir do próximo ano o 1º ano Científico funcionará à tarde e será misto [...] a 1ª aluna a se inscrever foi Juliana Wosgraus. Esse registro revela que a inserção das

77 mulheres merecia destaque, pois era algo diferente, inovador e até mesmo exótico para a época.

Em 1970 começaram a ser produzidos os primeiros fios de seda para as mulheres, quando se matricularam 85 alunas, 24 delas para o 1º ano do Curso Científico e 61 alunas para o 1º ano do Curso Técnico de Secretariado. Consta, no Relatório do Colégio Catarinense-1968/71, na data de 2/03/1970, a seguinte colocação: Às 20 horas com Missa do Espírito Santo tiveram início às aulas do Curso Técnico de Secretariado, também misto. Deste Curso ainda não existe igual aqui no estado. Matricularam-se cerca de 80 alunos, na sua maioria do sexo feminino.

O que chama a atenção neste trecho do relatório é a afirmação de que não existia, no Estado, um curso com aquelas características, bem como tal quantidade de mulheres matriculadas. A profissão de secretária, no início da década de 70 do século XX, era, na maioria das vezes, destinada às mulheres, e o exercício desta profissão garantia um bom status , sendo indicada como apropriada às mulheres, assim como também o exercício da profissão de professora e de enfermeira, por serem trabalhos manuais mais reservados e que continuavam a vincular a representação na família76. Segundo Almeida (1998, p.32), era

aceitável que as mulheres desempenhassem um trabalho, desde que este significasse cuidar de alguém.

As questões que foram sendo suscitadas por mim, como pesquisadora, sobre a inserção das alunas no Colégio Catarinense, foram organizadas, conforme já dito na introdução dessa pesquisa, em forma de entrevista semi-estruturada com algumas das ex- alunas, sendo que o roteiro e o questionário constam nos Anexos 2 e 3, portanto, o texto segue com depoimentos destas e com a tentativa de tecer alguns fios para compor o tecido vivido naquele momento de inserção das alunas e as relações de gênero.

O espaço e o tempo, em 1970, no Colégio Catarinense, se organizava da seguinte maneira: durante o período matutino, freqüentavam o Colégio apenas os alunos das turmas dos 2ºs e dos 3ºs anos do Curso Científico. No período vespertino, havia as três turmas mistas, também do Curso Científico, e no período noturno, havia as duas turmas mistas do

76 Sobre a representação na família, Reis (1993, p.52) diz que nas décadas de 10, 20 e 30 do século XX,

Considerou-se como o caminho natural das mulheres a opção pelo magistério e pelas profissões que, de certa forma, reproduzissem sua representação na família, tais como: costureiras, cozinheiras, floristas etc. Esta idéia apresentada pela autora parece continuar a vigorar na década de 60 e 70 do século XX.

78 Curso Técnico de Secretariado. Verifica-se que havia três momentos distintos na organização diária do Colégio: o primeiro freqüentado apenas pelos alunos; o segundo, freqüentado por alunos e alunas, com predominância dos alunos; e o terceiro, freqüentado, na sua maioria, por alunas, sendo que estas turmas, segundo a ex-aluna do Curso Técnico de Secretariado, Sued da Silva, eram formadas [...] por alunas mais velhas, a maioria tinha entre 18 e 20 anos, e assim como eu, já havia algumas casadas [...]. Ainda segundo a entrevistada, [...] as aulas do Curso Técnico de Secretariado eram no térreo, chegávamos às 18:30h e saíamos às 22:00h o ambiente parecia ser sinistro e quase não se via os padres [...] não tínhamos aulas aos sábados [...]77.

A organização dos dias de aulas da semana era diferenciada para o Curso Científico e para o Curso Técnico de Secretariado, pois, para o Curso Científico, no ano de 1970, havia aula durante o período matutino de sábado, o que já não ocorria para o Curso Técnico. A ex-aluna do Curso Científico, Eleonora Cristina Phillippi Luz, conta que

[...] o primeiro ano foi um ano sui-generis , apenas três turmas na imensidão do Colégio, era uma experiência nova em que os professores e os padres queriam êxodo [...] aos sábados era uma farra [...] nós éramos um pingo de mulheres num meio de um monte de homens [...] éramos super paparicadas [...] Sábado era o momento do namoro, pois era o único dia que encontrávamos os meninos que estudavam nos segundos e terceiros anos [...]78.

Quando cinco alunas que freqüentaram o Curso Científico do Colégio, em 1970, foram questionadas sobre o motivo que as levou a escolherem estudar no Colégio Catarinense, sabendo que este até então era destinado ao público masculino, percebe-se, em suas falas, a contribuição do Colégio Catarinense na formação das camadas médias e altas da sociedade florianopolitana e catarinense, pois a maioria nos diz que foi devido ao fato dos seus irmãos, pais, tios ou avós já terem estudado na mesma instituição escolar e pelo fato de quererem fazer o Curso Científico para prestarem vestibular e, conseqüentemente, seguirem uma carreira, ou ainda, como diz a ex-aluna Juliana Wosgraus, porque o Colégio

77 SILVA, Sued da. Entrevista concedida a Mônica Teresinha Marçal. Florianópolis, 7 de agosto de 2003. 78 LUZ, Eleonora Cristina Phillippi. Entrevista concedida a Mônica Teresinha Marçal. Florianópolis, 5 de

79 [...] era conceituado como a melhor escola de Santa Catarina [...]79. No depoimento de algumas das ex-alunas do Curso Científico, encontramos os indícios de que a educação e, no caso, a escola, pode se tornar um mecanismo de distinção na sociedade, logo, produtora de sujeitos com determinado capital cultural e escolar. Almeida (2003, p.137) registra que

a operação do sistema de ensino numa sociedade determinada só pode, nesse sentido, ser completamente apreendida se for levado em conta o trabalho que ele realiza em associação com a família ao produzir os agentes sociais mais adequados para ocupar as posições sociais às quais são destinadas.

Já segundo o relato de algumas das ex-alunas do Curso Técnico de Secretariado, os seus motivos diferem daqueles colocados pelas ex-alunas do Curso Científico. Algumas dizem que foram estudar para conseguir um emprego ou se preparar mais para o mesmo. A ex-aluna Sued da Silva assim se expressa: [...] eu não escolhi estudar no Colégio Catarinense, fui intimada pelo Secretário da Fazenda, o Sr. Ivan Luiz de Matos a ir fazer o curso [...] eu já era funcionária pública e ele era o meu chefe [...]80.

A entrevistada Kátia de Menezes, também ex-aluna do Curso Técnico de Secretariado, esclarece: [...] fui estudar no Colégio Catarinense porque era novidade e já estava cheia do Colégio Coração de Jesus, eu queria trabalhar e por isso fui fazer um curso técnico [...]81.

Já a ex-aluna, Gilza Maria Moreira diz que foi fazer o curso porque [...] desejava ser secretária bilíngüe [...]82. E a entrevistada Maura Soares relata que [...] houve um convite para que funcionários da CODESC (TELESC) participassem e eu ingressei83.

As condições sócio-econômicas das famílias das entrevistadas aparentemente não apresentam diferenciação. Digo isto ao observar a amostragem do Quadro 3 que segue, que demonstra a origem sócio-econômica das dez ex-alunas entrevistadas (cinco delas do Curso Científico e cinco do Curso Técnico de Secretariado), e que revela que a ocupação

79 WOSGRAUS, Juliana. Entrevista concedida a Mônica Teresinha Marçal. Florianópolis, 10 de fevereiro de

2005.

80 SILVA, Sued da. Entrevista concedida a Mônica Teresinha Marçal. Florianópolis, 7 de agosto de 2003. 81 MENEZES, Kátia de. Entrevista concedida a Mônica Teresinha Marçal. Florianópolis, 12 de agosto de

2003.

82 MOREIRA, Gilza Maria. Entrevista concedida a Mônica Teresinha Marçal. Florianópolis, 28 de abril de

2004.

80 profissional de mães e pais não era tão distinta, pois suas rendas eram suficientes para arcar com as despesas escolares em um colégio particular, garantindo um determinado capital escolar aos seus filhos. Procurei, nos arquivos do Colégio, dados que indicassem a situação sócio-econômica e a origem social do restante dos familiares dos alunos e alunas, mas estes dados não foram encontrados nos documento pesquisados.

Quanto à procedência das alunas, no Curso Científico, temos a predominância de alunas provenientes de outros colégios particulares católicos, filhas de profissionais liberais, funcionários públicos, grandes comerciantes e empresários, ou seja, a maioria oriunda da classe alta e média84 da capital e de todo o Estado, sendo que o mesmo ocorre, salvo poucas exceções, com as ex-alunas ingressas no Curso Técnico de Secretariado. Entre as entrevistadas do Curso Técnico de Secretariado, encontramos apenas duas oriundas de escola pública da capital e com família provida de menos recursos. O Quadro 3 apresenta a origem social dos pais das ex-alunas entrevistadas que freqüentavam o 2º Grau no Colégio Catarinense e a escola de 1º Grau de procedência. Os dados foram organizados a partir da aplicação do questionário às ex-alunas, que consta no Anexo 3.

Quadro 3 Origem social dos pais e escolarização de 1º Grau

Nº de ex-alunas entrevistadas e Curso de 2º Grau freqüentado no Colégio Catarinense

Origem sócio-econômica

do pai Origem sócio-econômica da mãe Escola de 1º Grau de procedência