• No results found

Ot.prp.nr. 48 (1965-1966)

In document Det offentliges oppdragsgiveransvar (sider 13-16)

2.2 Lovforarbeider

2.2.4 Ot.prp.nr. 48 (1965-1966)

Apesar do cunho autobiográfico, ler as obras ficcionais de Bruno Schulz com vistas à sua realidade é o maior imbróglio no qual o seu leitor pode tropeçar – e aqui isso é afirmado não apenas por ser toda autobiografia uma ficção. Ler a obra de Schulz simplesmente pelo viés biográfico é negar a própria essência de sua produção ficcional. Sua literatura, multifacetada, permeada de metamorfoses, presta-nos muitos favores. Antes de tudo, as obras de Schulz têm um compromisso com a palavra e com a expressão da poesia, e, por assim dizer, da arte, como uma forma de recuperar o mito primitivo.

Na carta a Witkiewicz, em que trata da “composição filosófica” de Lojas de canela, ao determinar o gênero dessa obra, Schulz (2008) confirma que se trata de um romance autobiográfico, mas não a respeito de si, mesmo que eventos e experiências de sua vida sejam reconhecidos nele. Essa autobiografia, segundo o autor, refere-se ao mito original, à essência da palavra e à sua potência criadora. E considerando que se trata de um gênero que requer uma memória individual, pode-se perguntar como é possível que um escritor escreva uma autobiografia de algo exterior a ele. Sempre cauteloso, Schulz (2008) nos revela: “de certa forma, essas histórias são autênticas, pois elas representam a minha

maneira de viver, o meu destino particular”33 (tradução nossa). Essa afirmação remete à

sua relação “religiosa” com a arte, à maneira com a qual o escritor se anula diante da realidade; sua essência é um empréstimo que ele toma da arte.

Para uma melhor compreensão da função da palavra em relação à literatura, segundo a tese do autor, é necessário o entendimento da dimensão da linguagem poética (literária) que não se quer utilitária. De acordo com Schulz (2004), a vida da palavra foi arrastada por um caminho que a levou a um fim utilitário e a submeteu a regras estranhas. Segundo ele, a palavra, conforme a utilizamos hoje, não passa de um rudimento da antiga e da universal mitologia, e o papel da literatura seria, como já foi dito, recuperar, em um curto-circuito de sentido entre esses rudimentos (palavras), o mito primitivo. Dessa forma, constata-se que a sua obra, a qual ele atribui o rótulo de autobiografia do mito, representa a literatura cumprindo o seu papel.

Além disso, se fosse retomada, agora, a discussão do capítulo anterior sobre a filosofia do autor acerca da degradação da realidade, não restaria outra opção a não ser afirmar como impossível uma análise da memória nas narrativas de Bruno Schulz segundo preceitos filosóficos e históricos calcados do senso comum, visto que uma autobiografia “tradicional” requer uma narrativa alicerçada nos fragmentos da realidade. E, conforme o que já foi dito até agora sobre os elementos que compõem suas obras ficcionais, pode-se, ainda, concordar com Italo Calvino (2009) que, em 1970, em uma enquete sobre a literatura fantástica, ao citar autores pouco conhecidos, mas que representam diversas possibilidades do fantástico, surpreendeu seus leitores ao incluir Bruno Schulz em sua pequena lista. Calvino afirma que o escritor polonês representa diversas possibilidades do fantástico por apresentar uma narrativa que “parte da memória familiar para uma transfiguração visionária de uma riqueza inesgotável” (CALVINO, 2009, p. 258). E é essa transfiguração visionária que retira Bruno Schulz do lugar comum. Ela não faz o artista transgredir apenas a noção de memória, mas também outras temáticas presentes em sua obra, como as que serão analisadas no capítulo seguinte. Com isso, o leitor que resume as suas narrativas literárias a uma representação da realidade, que simplesmente as interpreta por meio do viés autobiográfico, perde a oportunidade de se enveredar por caminhos tão audaciosos quanto o projeto do escritor polonês. A propósito, é por esse motivo que o

33 “En cierto modo, esas “historias” son auténticas, toda vez que las mismas representan mi manera de vivir, mi destino particular.”

próprio narrador de Schulz, constantemente, ao relatar suas memórias, atribui a seu leitor atento o papel de ler nas entrelinhas:

Uma coisa deve ser evitada aqui: a mesquinhez estreita, o pedantismo, a literalidade obtusa. Todas as coisas estão interligadas, todos os fios se juntam num só novelo. Vocês notaram que nas entrelinhas de certos livros passam revoadas de andorinhas, versetos inteiros de andorinhas trepidantes e aguçadas? É preciso ler o voo desses pássaros (SCHULZ, 2012, p. 174).

E incluindo a obra de Schulz em uma reflexão de Soares (2012) – subtraída do “Post-scriptum” de seu livro dedicado à discussão das diferentes configurações da guerra em narrativas fílmicas e literárias da Europa-Centro-Oriental – sobre o risco de se querer ler o ficcional como real, pode-se reafirmar que: “o que essas narrativas promovem, a partir de um jogo agonístico, é a articulação do ficcional, do imaginário e do real, desarticulando a clássica dicotomia entre ilusão e realidade” (SOARES, 2012, p. 218). O autor ainda acrescenta que o resultado disso é “o movimento concreto e fundamental de se ler o real transformado, perturbado e contaminado pela ficção”, o que remete ao pensamento filosófico de Schulz sobre a potência da palavra (criação, ficção) em relação à realidade. Talvez por se tratar de um empreendimento que contamine, que perturbe a ordem, é que Schulz evoca, cada vez mais, em suas narrativas, um “leitor verdadeiro”, atento, cuidadoso e fiel, disposto a descolar os pés da realidade para alcançar os significados ali propostos. Sua obra é como o texto daquela primavera lida por Józef, “todo marcado por suposições, reticências, elipses, pontilhados sem letras no azul vazio”, por isso ao seu “leitor verdadeiro” cabe atuar como um daqueles pássaros que, nas lacunas do texto primaveril, “colocam caprichosamente suas conjecturas e suas decifrações” (SCHULZ, 2012, p. 148). E é o que sugere Joana Luíza Muylaert de Araújo (2012, p. 298): “se o texto se apresenta como um intrincado caleidoscópio, cabe ao leitor o esforço de juntar os fragmentos, para que a história faça sentido”.

In document Det offentliges oppdragsgiveransvar (sider 13-16)