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Dados tais embates colocados em pauta pelo problema que olhamos, notamos que eventos e encontros de jornalistas são momentos importantes na circulação da questão na FSP para suscitar comentários, evidenciando a necessidade de os jornalistas falarem sobre esta questão durante a candidatura, uma vez que ela está posta em pauta e diz respeito a um embate histórico entre jornalistas da grande mídia e enunciadores de grupos políticos, sobretudo do PT. Nesse sentido, um dos textos que circularam é formulado a partir de dizeres proferidos no 8º Congresso Brasileiro de Jornais, em que ambos os candidatos Dilma e Serra realizaram falas.

Dado o momento oportuno do embate político-partidário visando o cargo de presidente, o candidato do PSDB à presidência, José Serra, também é um dos políticos que comentam, na FSP, a circulação destas propostas de controle que, até o momento, foram realizadas por partidos que lhe são adversários. Em um dos textos, intitulado Serra acusa PT de financiar “blogs sujos”;

Dilma chama tucano de “patético” (20/08/2010), a circulação midiática de alguns excertos de

uma intervenção deste sujeito político são de cunho bastante assertivo em relação a tais propostas de controle e à liberdade de imprensa:

(7) O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, acusou o governo Lula de "financiar blogs sujos para patrulhamento de jornalistas" e usar dinheiro público para custear conferências que propõem a restrição da liberdade de imprensa.

[…]

Serra disse que o governo federal apoia o cerceamento da liberdade de imprensa e de informação.

[…]

Para o candidato tucano, o governo Lula tenta intimidar a imprensa de três formas: por via legal, com a realização de conferências que sugerem o controle social sobre a mídia; pela publicidade oficial; e pela intimidação indireta de jornalistas.

Depois de defender a liberdade da imprensa, porém, Serra se recusou a responder perguntas de jornalistas […]. […] (do texto da FSP, 20/08/2010 – Serra acusa PT de financiar "blogs sujos";

Dilma chama tucano de "patético", grifos nossos)

Vemos o aparecimento de outra maneira de designar tal regulação trazida sob a forma do discurso direto, um retrato da sujeição destes dizeres às malhas do poder no embate político- partidário: o que o candidato à presidência José Serra chama de “[…] patrulhamento de

jornalistas” implica uma clara ideia de observância, de vigilância, em um sentido bem mais

agudo (e mesmo militar) do que o controle social da mídia. Ou seja: está novamente presente a ideia basal do controle e de uma ordem discursiva, em graus distintos. Ao mesmo passo, mostra- se que há um ímpeto político-partidário – de seus adversários na eleição presidencial, em especial do PT – sendo realizado, valendo-se de dinheiro público para tal prática, o que é uma ocorrência bastante grave caso, de fato, se está aproveitando tal espaço para falar sobre censurar a mídia. Este contorno dado a tal regulação é um recurso que a FSP já se valeu para comentar tais propostas (excerto nº. 5), aqui formulado em discurso indireto, o que mostra que a restrição da

liberdade de imprensa apontada nesta acusação (assim como, no título, a escolha verbo dicendi

em Serra acusa […], também paráfrase de autoria deste enunciador midiático) se realiza não apenas nas falas do enunciador político, mas no modo como se entrelaçam as falas do enunciador midiático e os ditos de Serra que a FSP recorta.

proposta, sendo que dialogam, evidentemente, com a questão da legitimação para a realização de tal gesto – e que neste caso se mostram institucionalmente situados, conforme mostra a escolha

publicidade oficial, corroborando o descrédito conferido ao governo e ao PT. Como aconteceu na

fala de Marina Silva pelo emprego da lexia aparelhamento (excerto nº. 4), aqui isso se realiza

pela publicidade oficial e por duas formas de alto grau de vigilância: o gesto de intimidar a imprensa e a intimidação indireta de jornalistas, sendo a segunda, inclusive, sorrateira e

potencialmente perversa, devido à adjetivação indireta ao substantivo intimidação. Neste sentido, o próprio dizer controle social da mídia aparece caracterizado de outra maneira, estabelecendo uma relação de dominância: controle social sobre a mídia (grifo nosso).

Já no fim do texto, então, concede-se voz a Dilma Rousseff, que reitera a posição já expressada anteriormente – parece-lhe bastante claro que não se pode e/ou não se deve falar sobre controle, ou ao menos não nos termos que foram anteriormente propostos pela candidata juntamente a seu partido. Na construção desta massa de textos, notamos que amiúde a FSP aponta que a questão será recorrentemente posta pelo partido de origem da candidata, e a posição de Dilma aparecerá como constante – e majoritariamente avessa a seus pares – neste sentido. A reportagem da FSP ao parafrasear Dilma, ainda, relata uma tentativa da candidata de desvencilhar-se não apenas na referência ao controle remoto (excerto nº. 6), mas também quando interpelada a respeito do apoio e financiamento do governo a conferências com propostas

supostamente contrárias à liberdade de imprensa. Uma de suas falas trazidas em discurso direto,

também, vale-se inclusive de dizeres explicitamente carregados de uma memória do sujeito que interpreta tais dizeres a respeito de uma ditadura militar. Isso se dá, por exemplo, na oposição entre o barulho da crítica e o silêncio da censura, que contrastam democracia e autoritarismo:

(8) PAZ SOCIAL […]

Em seu discurso, [Dilma] defendeu a liberdade de expressão e de acesso à informação. "Não há liberdade onde falta informação. Prefiro o barulho da crítica ao silêncio da censura. A paz social não é obtida usando mordaça", disse. (do texto da FSP, 20/08/2010 – Serra acusa PT de financiar

"blogs sujos"; Dilma chama tucano de "patético"; grifos nossos, salvo o título “PAZ SOCIAL”)

O enunciador político José Serra, por sua vez, além de haver sido já apresentado pela FSP no título da reportagem a partir do verbo acusa, bastante mais assertivo que outro verbo dicendi

utilizado na reportagem (Serra disse que o governo federal apoia o cerceamento da liberdade de

imprensa e de informação.), é, assim, um dos que enunciadores políticos que corrobora a visão

construída pela FSP: há certa 'acusação' a ser feita (realizada por Serra), que foi colocada em domínios associados comuns à urgência de um 'alerta' e à emergência de um receio, por parte de enunciadores midiáticos frente a tais gestos. Há aqui, assim, certa consonância de posições entre Serra e o enunciador midiático reforçadas na reportagem, ao passo em que o PT está em uma formação discursiva outra: novamente, coloca-se em questão a coerência dos posicionamentos dos enunciadores do PT e do governo, sobretudo pela filiação anterior de Dilma Rousseff a um

controle social da mídia na primeira versão do programa de governo (excerto nº. 6).

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