O município de Franca está localizado na região Nordeste do estado de São Paulo, no eixo da Rodovia Cândido Portinari. Conforme os dados divulgados pelo IBGE (2010), a população de Franca é de 318.640 habitantes, sendo a maior dentre os três municípios sede dos APLs estudados.
De acordo com o Sindicato da Indústria de Calçados de Franca (Sindifranca, 2011), o município é segundo maior polo produtor do país, o primeiro no segmento de calçados masculinos, atividade na qual é especializado.
Possui 600 indústrias de calçados entre micros, pequenas, médias e grandes empresas que empregam em torno de 13 mil pessoas. O calçado produzido em Franca é exportado para 58 países, sendo seu principal cliente os Estados Unidos que consomem cerca de 70% da sua produção (GTP-APL, 2008).
4.3.2.1 Histórico do município de Franca
De acordo com os dados territoriais do IBGE (2010), as origens históricas do município de Franca coincidem com as trajetórias entre os sertões do Brasil Central e o litoral, onde os goianos transportavam seus rebanhos, passando pelo Vale do São Francisco. No entanto, desavenças entre paulistas e emboabas, no início do século XVIII, levaram a uma alteração na rota seguida pelos bandeirantes. Decorre disso a abertura da Estrada do Sal, que, desviando para o sul o comércio do gado, deslocou para São Paulo o eixo de influência daquelas regiões.
O município de Franca, anteriormente denominado de Arraial Bonito do Capim Mimoso, deve sua origem a esses fatos. Os mineiros que vinham das zonas de garimpo e criação (séc. XVIII), encontrando condições favoráveis, permaneceram à beira do caminho dedicando-se especialmente à criação da pecuária bovina. Depois, em decorrência da falta d’água, alguns povoadores emigraram para nova aglomeração até que, no princípio do século XIX aumentando o número de habitantes do agrupamento.
A região compreendida entre os rios Pardo e Grande, embora desbravada no desde o século XVI, foi povoada somente a partir das descobertas das minas de Goiás por Ananhaguera no início do século XVIII. Com a abertura das estradas de Goiás em 1722 e do Desemboque algumas décadas após, foram se formando vários pousos que se constituíram nos primeiros núcleos povoadores desta região (PREFEITURA MUNICIPAL DE FRANCA, 2011).
Um pequeno fluxo populacional das últimas décadas do século XVIII permite a formação do povoado disperso, que ficou conhecido como Bairro das Canoas, abrangendo os pousos: das Covas, Alto e Alegre, além de outras paragens.
Covas foi pouso eminente de comerciantes e transportadores de sal, além de servir de arraial temporário da região. Em função do crescente número de moradores dispersos, foi ali criada uma Companhia de Ordenanças e nomeado Capitão, a pessoa de Manoel Almeida em 1791. Pertencia a freguesia de Caconde e Município de Mogi Mirim.
Com o passar do tempo, o Arraial, devido à sua posição geográfica, foi ganhando importância comercial. O sul paulista, essencialmente agrícola, e o sertão central, criador de gado, tinham um ponto de contato em Franca, que não tardou em transformar-se em entreposto, fornecendo sal – o chamado sal de Franca – para toda a região central.
Porém, o desbravamento do sertão paulista e, depois de 1870, a abertura do rio Paraguai ao comércio das províncias brasileiras, mudaram o curso do transporte daquele produto para uma via mais viável economicamente, provocando a decadência dessa fase comercial do Município.
A inauguração da estação da Mogiana em Franca, ainda na segunda metade do século XIX (abril de 1887) possibilitou um novo ciclo de desenvolvimento. Como todo o interior, até a chegada da estrada de ferro, possuía uma indústria rudimentar e caseira, suficiente para suas próprias necessidades. Com a chegada dos trilhos, passou a concentrar novamente o comércio entre São Paulo e Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais. Foi a época do apogeu da cultura cafeeira, causa da expansão ferroviária.
Ainda durante os primeiros vinte anos do século XX, continuaria a expansão das estradas de ferro, servindo às regiões mais antigas do estado São Paulo. A estagnação da rede férrea e o volume da produção cafeeira coincidem, mantendo-se mais ou menos constantes depois de 1920. Intensificando o preparo de cafés finos, o município fez face à crise, suportando mesmo a concorrência das zonas mais novas.
Outras culturas foram introduzidas em paralelo ao café, tal como o algodão, o tungue23 e a batata. Por sua vez, a criação bovina progrediu consideravelmente, tornando-se conhecida a região como reprodutora da raça zebu, o que motivou até mesmo a transformação de alguns cafezais em pastagens.
Dessa forma, Franca evoluiu de entreposto comercial para a monocultura do café, tendendo depois para a associação da policultura com a indústria. Atualmente, é de se
destacar, além da pecuária e de sua produção de café, a indústria de couros (principalmente para uso na produção de calçados).
4.3.2.2 Como se deu a formação do APL de Franca
De acordo com Alves et al. (2004) a fabricação de calçados em Franca ocorreu por volta do início do século XIX e tratava-se de uma atividade artesanal de subsistência, sem expressão econômica, mas que cresceu consideravelmente ao longo da história e favoreceu o surgimento da indústria.
Gorini, Corrêa e Silva (2000) esclarecem que no final do século XIX havia em Franca 18 fábricas produzindo 30 mil pares de calçados/mês. Em 1921 foi fundada por Carlos Pacheco de Macedo a fábrica de calçados Jaguar, precursora da fabricação de calçados na região. A partir da década de 1930 houve uma intensificação da fundação de fábricas de calçados, com a abertura da indústria Peixe e a fábrica de calçados Lopes de Melo. Em 1935 foi fundada a fábrica de Calçados Samello e em seguida a Agabê, Pestalozzi, Sândalo, Terra e Francano.
Segundo Coutinho (2003) apud Alves et al. (2004), a industrialização do calçado em Franca ocorreu de maneira efetiva apenas a partir da década de 1950, pois o Governo Federal passou a incentivar o setor com linhas de crédito do Banco do Brasil, consolidando, dessa forma o parque calçadista.
A fabricação de calçados que anteriormente era artesanal e rústica aos poucos passa a ser substituída por calçados mais elaborados e tendo como empresa principal a Samello. Na década de sessenta a expansão do setor de calçados prosseguiu e Franca passou a ser responsável por 32% da produção de todo o calçado fabricado no Estado de São Paulo, e então, mais fábricas foram sendo instaladas e as antigas passaram por nova fase de crescimento.
Na década de 1970 iniciaram-se as exportações de calçados masculinos a partir do APL de Franca. Dentre as ações implementadas, dá-se destaque para a criação da INFAPEC, Cooperativa para exportação, formada pelas empresas Agabê, Pestalozzi, Sândalo e Terra.
Durante a década de 1980, as exportações já atingiam 35% da produção, permanecendo nesses patamares até 1993. Em decorrência da defasagem cambial, em 1994 houve queda significativa no volume exportado. Para que se tenha uma dimensão da redução, em 1999 o volume exportado foi 73% menor que em 1993, já o faturamento decresceu 69%. (GORINI, CORRÊA e SILVA; 2000)
4.3.2.3 Características do APL de Franca
Analisando as características para a classificação de um APL, o polo calçadista de Franca possui toda a estrutura produtiva. Dentre tais estruturas é possível apontar as fábricas de calçados, produtores de insumos (também chamados de indústria de acessórios ou componentes), como solados, adesivos, curtumes, matrizarias, máquinas e equipamentos, agentes de mercado interno e externo. Ressalta-se o forte papel das instituições que apoiam o desenvolvimento e difusão de informações, inovações tecnológicas e gerenciais e capacitações como o SENAI, SEBRAE, IPT, além de universidades.
Essas empresas dedicam-se à fabricação de calçados, principalmente para o público masculino (75%), e/ou componentes. Aproximadamente 10% são grandes empresas, 70% micros e pequenas empresas e 20% é constituído de médias empresas. Há ainda uma série de empresas prestadoras de serviços à indústria calçadista, como as chamadas “bancas24”.
Existem duas as razões que explicam a quantidade de micro empresas no parque produtivo local: “Em primeiro lugar, o fato de que o processo de produção de calçados apresenta fortes descontinuidades, o que estimula a sua fragmentação. Esse fato, aliado às reduzidas barreiras à entrada verificadas no setor, permite o aparecimento de um número significativo de micro empresas especializado em uma ou algumas das etapas do processo produtivo”. (GORINI, CORRÊA e SILVA; 2000 : 8)
4.3.2.4 Como é a estrutura organizacional do APL de Franca
Para Suzigan, Garcia e Furtado (2002), o APL de Franca concentra um grande número de empresas, sendo a maioria de pequeno e médio porte. Porém, com algumas grandes empresas dominantes, inclusive do ponto de vista político. Os produtores locais beneficiam-se extensivamente das economias externas que resultam tanto da presença de um vasto contingente de trabalhadores especializados e com habilidades específicas ao sistema local, como dos elevados e frequentes transbordamentos (spillovers) de tecnologia e conhecimento.
Entretanto, boa parte do processo produtivo, especialmente nas etapas mais intensivas em trabalho, é realizada fora das fábricas, por meio da subcontratação das
24 A presença das bancas é uma característica comum ao seguimento calçadista, tendo sido também identificado
chamadas “bancas” de pesponto e costura manual, o que gera um número significativo de empregos informais.
Suzigan, Garcia e Furtado (2002), explicam que produto é fortemente favorável à divisão de trabalho, com internalização completa da cadeia produtiva e tecnologia madura. No entanto, ocorre uma nítida segmentação quanto aos fatores de competição, sendo exportação versus mercado interno. Os autores alegam que não há uma clara divisão de trabalho e que muitas das empresas especialmente as exportadoras, são integradas, ou realizam a “quase- hierarquia”25.
Além disso, a redução dos custos com a confecção de partes do calçado externo à empresa, com utilização do trabalho a domicílio, foi uma estratégia extensivamente utilizada pela indústria local para promover ganhos de competitividade para as empresas. Produzindo condições que sustentam a competitividade dos produtores locais.
25 Humphrey e Schmitz (2000) esclarecem que se os líderes, que são capazes de coordenar diversos outros
agentes que compõem o sistema, estabelecem estratégias conservadoras, é o que se chama de quase-hierarquia. Em geral, nas aglomerações de empresas em que predomina a quase-hierarquia na governança do sistema local, o poder das empresas líderes decorre de relações de subcontratação.