Em contraste com o que ocorre com uma ideia simples, quando tomamos a abstração em Locke, a partir de uma ideia complexa, notamos que a atividade abstrativa não tem apenas a função de separar uma ideia complexa de sua existência real. Como uma atividade voluntária, a exemplo da comparação e da composição, abstrair é uma operação que ajuda a mente a organizar aquelas ideias que representam classes e mantém uma relação, a princípio, externa entre si. Nesse caso, o primeiro passo, para abstrair, seria separar a ideia complexa em questão dos indicadores espaço- temporais (cf.:E.2.11.9 e E.3.3.6). “E, em seguida, e diferentemente do caso das idéias simples, progressiva eliminação de características presente na idéia complexa.”56 Essas ideias podem ser eliminadas da percepção original, na medida em que não revelam uma relação necessária com as demais.
No caso de uma substância, por exemplo, uma ideia geral pode ser formada, para Locke, ao destacar aqueles aspectos que caracterizam essa ideia e eliminar todas as outras ideias que a especificam. Assim, basta ignorar o peculiar a cada ideia e reter
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apenas o que há de comum a todas, como vimos anteriormente no exemplo da ideia de homem.
Além disso, o “vocabulário da eliminação vem a caracterizar o processo em que se passa de uma idéia a outra mais geral.”57 É um processo comparativo e parcial, pois depende sempre de dois atos do entendimento: de juntar algumas ideias simples para formar, por exemplo, uma ideia de substância e eliminar características para alçar uma ideia cada vez mais geral. Essa nova ideia é criada, mais uma vez, a partir da exclusão de algumas propriedades, só que, neste caso, de uma ideia geral. Por exemplo, depois de formar a ideia geral de homem, percebemos que, ao excluir alguns aspectos ou propriedades desta ideia e reter as “ideias de corpo com vida, sentidos e movimento espontâneo (E.3.3.8),” formamos a ideia de animal. Uma classe que compreende a ideia de homem, mas também inclui outras ideias gerais. Sendo assim, quanto menos características ou qualidades essa ideia tiver, maior será a sua extensão, ou seja, a sua capacidade de denotar ideias particulares.
No entanto, como vimos acima, uma ideia geral não é algo exclusivo das ideias complexas, senão uma forma de abstrair aquilo que é imediatamente dado na percepção. Se diferentes ideias de uma substância podem ser reunidas sob o mesmo epíteto é porque, primeiro, uma ideia particular de uma qualidade sensível permitiu que nela enxergássemos algo em comum entre vários objetos da experiência. Uma substância não se torna geral pela soma de suas características particulares ou como queriam os escolásticos por revelar uma forma, mas antes porque cada ideia que a compõe já contém em si a generalidade. Abstrair, para Locke, é a habilidade para destacar aspectos e tomá-los como referência para várias percepções particulares.
Logo, o primeiro passo para abstrair, a partir de uma ideia simples, é “omitir” os aspectos temporal, espacial ou qualquer ideia
concomitante.58 Assim, basta considerar uma qualidade como, por exemplo, a cor verde separada do objeto no qual ela foi apreendida, de sorte que esta ideia seja tomada em si mesma. Esse é o primeiro e último passo no processo de abstração de uma ideia simples. Pois, segundo Locke, uma ideia simples é a espécie mais ínfima de nosso entendimento59.
Desta forma, o que torna uma percepção uma ideia geral, é apenas a consideração de uma ideia simples nela mesma. Isso torna possível atualizar a sua capacidade “de representar mais de uma coisa, capacidade esta bloqueada pelo contexto (sobretudo espaço- temporal) em que a idéia foi recebida e que a endereça a uma existência individual.”60
Logo, depois de despida a ideia de seus elementos contextuais, temos apenas o aspecto que tipifica uma ideia. E ao criar um tipo (sort) de ideia, podemos utilizá-lo como padrão para classificar todas as existências reais a partir da sua semelhança com as ideias particulares.
Para Locke, um tipo (sort) ou um gênero (genus61) de ideia são constituídos artificialmente e, ao serem associadas a uma palavra, formam uma essência nominal62. A partir daí, podemos dizer que, o
58 Embora seja um debate deveras importante para a doutrina das ideias abstratas estabelecer com precisão o que Locke entendia pelo termo ideia, ou seja, se é uma imagem ou um conceito, nós não vamos entrar neste debate. Primeiro, porque acreditamos que os problemas que aqui serão levantados são anteriores a essa questão e segundo porque foge do nosso escopo.
59 É impossível deixar algo de fora dela [dessa ideia simples] para que, sendo eliminada a diferença, ela concorde com outra coisa numa única ideia comum; que tendo o mesmo nome, seria o gênero de ambas. (E.3.4.16)
60 Cf.: Id. Ibid (cf. E.2.27.3). Outras passagens que podem confirmar isso: E.2.12.1; E.3.3.6; E.2.11.9
61 Cf.: E.3.3.15. Considero essa passagem importante, pois, nela Locke revela que derivou a palavra “geral” (general) de “gênero” (genus).
62 Cumpre notar que, se a ideia de tipo é constituída artificialmente ao formar a essência nominal, é porque a noção de essência nominal compreende não só as ideias simples, mas também as ideias de modo e de substância. Para Locke, essência é aquilo que faz de uma coisa o que ela é e está dividida em dois tipos no Ensaio: essência nominal e essência real. Essência nominal é a constituição artificial de gêneros e espécies ou a ideia geral associada ao nome de um tipo. Uma ideia geral que representa exatamente aquelas coisas que se conformam a estes conteúdos, uma ideia geral fixada com base necessária e condições suficientes para se incluir em um tipo. Essência real, por sua vez, é aquilo (o qual desconhecemos e cujas partes são insensíveis) a partir do qual fluíram as qualidades sensíveis que
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significado de um termo geral é estabelecido por sua essência nominal63, ou seja, uma palavra torna-se geral não por corresponder a várias ideias particulares, mas porque ela está no lugar de uma ideia geral enquanto um signo. Tendo em vista essa relação, podemos notar que um termo geral denota ideias particulares mediante a relação de semelhança entre a ideia abstrata e a ideia particular.
Portanto, para Locke, o significado de um termo geral é definido pela referência direta a um tipo de ideia, ou seja, a sua essência nominal e a extensão deste conceito é determinanda mediante à comparação entre ideias particulares e a ideia geral e não por uma associação direta entre um termo da linguagem e ideias particulares64. Essa ideia geral é inerente a toda percepção particular e, por isso, temos com ela uma ideia completamente determinada. Pois, vale lembrar que, ao formá-la, não se exclui nada de sua própria constituição, separam-se apenas as qualidades de gêneros distintos, a fim de considerar a ideia em si mesma.
No entanto, há ainda mais um caso cujo processo abstrativo de “separar ideias” pode ser aplicado, o qual não envolve necessariamente ideias diferentes nem idênticas. Esse outro sentido revela algumas particularidas da atividade abstrativa, sobretudo, no que diz respeito ao caráter epistemológico desta tese e do modo pelo qual podemos, a partir dela, considerar a universalidade.
servem para distinguir uma coisa de outra e arranjá-las em tipos (sortes) comuns. A real essência de um tipo é “esta Fundamentação a partir da qual todas as Propriedades fluem e para a qual elas são todas inseparavelmente anexadas.” (3.3.18). Cabe ainda observar que essências nominais e reais são sempre iguais em espécies de ideias simples e em modos, porém muito diferentes em substâncias. Portanto, podemos dizer que, para Locke, a essência real de um tipo de substância é uma função de sua essência nominal; a essência real consiste em aspectos comuns da constituição interna das coisas atuais que tem as qualidades especificadas pelas essências nominais (buscar a referência).
63 para Locke, “as palavras são usadas como marcas sensíveis de ideias, as ideias que representam são sua significação própria e imediata (E.3.2.1)”;
64 Segundo Locke, “Palavras são gerais se usadas como singos de ideias gerais; ideias; ideias são gerais se depuradas de circunstâncias de tempo e de lugar e de toda outra ideia que as determine a esta ou aquela existência particular. ” E.3.3.6.
Ao analisar a percepção, em especial, as qualidades sensíveis, observamos que a sua constituição interna pode criar grandes dificuldades para separar uma ideia particular do contexo no qual ela foi apreendida. E, por isso, podem existir ainda grandes obstáculos para formar, a partir de uma ideia simples, ideias gerais. Cabe, portanto, aprofundar a análise da percepção e das possíveis formas que duas ideias podem ser separadas, a fim de compreender melhor a doutrina das ideias abstratas em Locke e o que fez, a partir da crítica à sua tese, surgir uma nova linha de pesquisa acerca deste tema. Para isso, nós vamos lançar mão da crítica que George Berkeley fez, na introdução do seu Tratado sobre os princípios do
conhecimento humano, contra a doutrina de Locke. O que, aliás, será
fundamental para compreender as ideias de David Hume acerca desse tema, seja porque no início da seção Sobre as ideias abstratas no Tratado ele aprofundou as críticas feitas por Berkeley, seja porque a sua tese foi erguida em oposição a Locke.