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Ao longo da história da humanidade, muito se tem investigado sobre as inúmeras transformações que o corpo já passou, e essas transformações ocorreram tendo como determinantes os valores e as normas de uma determinada cultura.

No que se refere à história das civilizações antigas, verificamos que a influência filosófica sobre a concepção entre corpo e mente se mantém nos tempos atuais. Na civilização grega, os filósofos Demócrito, Platão, Aristóteles, entre outros (apud SOARES, 2001) refletiam sobre o corpo humano de forma geral, e o saber filosófico da época continha as disciplinas que se constituiriam como as Ciências, conhecimentos atualmente da Medicina e da Psicologia. A medicina hipocrática, por exemplo, fazia várias correspondências entre o corpo e a natureza, direcionando o diagnóstico. Era uma medicina que incluía o entendimento do interior do corpo e de seu meio social. Nessa medicina, o corpo era considerado um microcosmo vivendo no seio do macrocosmo. Seria impossível pensar o corpo humano separado dos fenômenos naturais.

Paralelamente a essa medicina, havia inúmeros templos e santuários para a adoração de divindades protetoras da saúde e da vida. O prestígio desses lugares era resultado do poder que a justiça dos deuses exercia sobre os homens.

Platão define o corpo como sendo feito de terra, água, fogo e ar, e afirma também a existência de uma alma imortal. A doença não é só o resultado de um desequilíbrio entre os quatro elementos, mas se acrescenta ao desequilíbrio existente entre a alma imortal e o corpo.

O corpo, quando doente, foi tratado por muito tempo à base de medicamentos naturais, e os adeptos desse tratamento supunham que o corpo humano era dotado de uma grande capacidade autocurativa, como se fosse uma farmácia que, quando ativada, poderia curar

doenças. O controle do corpo exigia o esforço em mantê-lo harmoniosamente relacionado com o meio ambiente e com o cosmo.

Jung, em sua 4a conferência (1935), faz menções ao corpo, associando-o aos mitos de Rá e de Ísis, do Egito antigo.

[...] na medicina antiga era largamente conhecido que, transportando-se uma doença pessoal a um nível mais alto e impessoal, atingia-se um efeito curativo. “No Egito antigo, por exemplo quando um homem era mordido por cobra, o médico sacerdote era chamado e tirava da biblioteca o manuscrito sobre o mito de Rá e de Ísis, sua mãe e o recitava. Ísis fizera um verme venenoso e o escondera na areia; o Deus Rá pisou na serpente, sendo por ela mordido, e então sofreu uma dor terrível, chegando próximo da morte. Mas os deuses fizeram Ísis produzir um encanto para tirar o veneno do corpo do filho. A intenção era que o paciente ficasse de tal modo impressionado por essa narrativa, que lhe sobreviesse a cura [...] Mesmo conosco certas coisas podem causar milagres. Às vezes o consolo espiritual ou a influência psíquica podem curar ou, ao menos, ajudar no combate de uma doença. Logicamente isso acontece muito mais entre pessoas de um nível mais primitivo ou dotadas de uma psicologia mais arcaica [...] (JUNG, 1935, p.230-232 apud FARAH, 1995, p.414)

Com o Cristianismo, ocorre a divisão do conhecimento humano em universo físico (material) e universo abstrato (espiritual), e ela se torna a principal religião da Idade Média, “[...] monopolizando o saber e conseqüentemente dominando o estudo do psiquismo” (BOCK, 2002, p.32).

O corpo passa a ser fonte do “pecado” e das “tentações” e, para o homem aproximar- se de Deus e purificar a alma, deveria abdicar dos “desejos da carne”.

Santo Agostinho, inspirado em Platão, também fazia uma cisão entre alma e corpo. Entretanto, para ele, a alma não era somente a sede da razão, mas a prova de uma manifestação divina do homem. A alma era imortal por ser o elemento que liga o homem a Deus. E, sendo a alma sede do pensamento, a Igreja passa a se preocupar também com sua compreensão. São Tomás de Aquino viveu num período que pronunciava a ruptura da Igreja Católica, o aparecimento do protestantismo [...] foi buscar em Aristóteles a distinção entre essência e existência. Como o filósofo grego, considera que o homem, na sua essência, busca a perfeição através da sua existência, ao contrário de Aristóteles, afirma que somente Deus seria capaz de reunir a essência e a existência, em termos de igualdade. Portanto a busca de perfeição pelo homem seria a busca de Deus (BOCK, 2002, p.33).

Com o Renascimento, o pensamento científico desenvolveu-se e, como conseqüências, surgiram diversas áreas de investigação e pesquisa. Assim, coube às Ciências a investigação

sobre o universo físico, e ficou destinado a religião, a reflexão sobre o universo espiritual e os cuidados para com a alma humana. A partir de então, a Psicologia passou a ter como objeto de estudo, não mais a alma, e sim o comportamento humano.

Nessa época, o homem descobre a razão como transformadora do mundo, sobre o prisma do paradigma do universo matemático e mecânico. O progresso das ciências faz o homem considerar a razão um viés para a posse do conhecimento e, conseqüentemente, distancia-se do seu corpo sensível. O corpo, naquele momento, passaria a ser objeto digno de controle e disciplinamento, para obtenção de gestos precisos e de mão-de-obra qualificada para o mundo de produção capitalista, que percebeu a vulnerabilidade do homem, passível de ser moldado e manipulado, sujeito a controle e exploração.

No século XIX, o corpo devia ser educado para economia de energia, do movimento, mas hoje é educado para gastar energia em excesso, para manter-se em forma a partir de uma norma que determina a “boa forma”.

O mundo ocidental herdou do pensamento escolástico uma visão dual do universo: Bem e Mal. Assim, o mundo ocidental baseia-se na idéia de que o homem é um animal racional composto de alma e de corpo, identificando o Mal com o corpo e o Bem com a alma. Entre o corpo e a alma o pensamento ocidental colocava uma barreira insuperável, de um lado a ruela lamacenta do corpo pecador e do outro o jardim da alma (SOUZENELLE,1995).