Nestes trajetos urbanos percorridos nos diferentes meios de locomoção, vejo a cidade como um palco teatral protagonizada pelos seus atores principais, os adultos, onde as crianças são os espectadores que apenas passam pela cidade para chegar aos espaços privados que lhes são concedidos.
A cidade, para a infância, não pode ser apenas um local de passagem entre lugares, ela deve ser considerada como fonte de risco, descobrimento e aprendizado.
O vínculo entre a infância e a cidade é rompido pela privatização do espaço urbano, o que impossibilita o contato das crianças com a diversidade e com os habitantes da cidade. É importante que as crianças sejam vistas “movimentando-se e atuando exatamente no mesmo mundo em que as outras pessoas o fazem, e não somente dentro desses limitados mundos da brincadeira, do cuidado e do aprendizado que tem sido indicados para elas” (Castro, 2001, p.76), para que reconheçam seus itinerários urbanos e deixem de ser estrangeiras em sua própria cidade.
A mobilidade urbana da infância é limitada devido às transformações decorrentes do processo de urbanização – aumento do número de carros, crescimento populacional, aumento da violência, etc. Sendo assim, os espaços públicos são privatizados pela “procura infinita de proteção e insaciável aspiração à segurança” (Bauman, 2005, p.11).
A valorização dos espaços privados em detrimento dos espaços públicos muda a configuração física e social das cidades a partir da construção de condomínios fechados, ruas particulares, playgrounds que limitam as crianças a brincar intramuros.
Nesta cidade profundamente transformada se tem pensado em dedicar as crianças espaços especializados e reservados, uma espécie de reserva indígena. Nascem às escolas, as ludotecas, os parques de atração. (Tonucci, 2003, p.246)
O contato das crianças com a cidade é importante para o seu desenvolvimento físico (correr, saltar, jogar), intelectual (estimular a imaginação) e social (como lugar de encontro e das relações sociais), por isso, “temos que aceitar que os espaços aptos para o jogo e brincadeira são os espaços verdadeiros da cidade: escadas, pátios, jardins, praças, as ruas, os monumentos. Os espaços que usam todos os cidadãos”. (Tonucci, 2003, p.59)
As crianças revelam a sua preferência em brincar em espaços que não estejam equipados e definidos onde o criar, o brincar, o imaginar e o lúdico esbarram nas “admoestações reguladoras” dos adultos – como “agora não pode”, “aqui não é lugar para isso”.
Brincando com a cidade, elas abstraem as formas dos objetos atribuindo-lhes novas funções e significados subvertendo a lógica espacial criada pelos adultos e mostrando outras cidades possíveis através de inúmeras possibilidades de construí- la e reconstruí-la.
Com freqüência, proíbe-se as crianças de jogar bola nos lugares públicos, de pisar nos jardins, ou seja, define-se uma série de limites aos seus jogos e brincadeiras a fim de assegurar a tranqüilidade dos adultos.
Segundo Vogel (1995), não é necessário que haja espaços específicos e programados para o lazer e brincadeiras das crianças porque as ruas podem cumprir perfeitamente esta função – onde podem jogar bola, brincar de mocinho e bandido, bater pique-esconde, soltar pipa, pular amarelinha e exercitar o corpo.
Os parques de diversão, quadras de esportes, clubes e playgrounds são entendidos pelo mundo adulto como os espaços de lazer para a infância na cidade, enquanto que as ruas, calçadas, esquinas e praças não cumprem essa função do lazer.
O contato das crianças com a cidade de São Paulo tem acontecido em pequenos interstícios de tempo onde podemos observá-las questionando “a hegemonia espacial dos adultos, movendo-se em um território intersticial, uma espécie de ‘terceiro espaço’ entre o privado e o público”. (Gaitán, 2006, p.172)
Nesses intervalos de tempo, nos quais transitam de um espaço privado para outro, as crianças brincam mediante a leitura metafórica e uso lúdico dos espaços e equipamentos urbanos da cidade.
O intervalo entre o verde-amarelo-vermelho do semáforo e o engarrafamento de carros é o tempo que elas têm para ver e apreender os detalhes urbanos. O semáforo abre, fica verde, os carros avançam, o trânsito flui, e os olhos infantis são convidados a ver uma “cidade passante” em que a paisagem é passageira e efêmera.
Este contato curto e efêmero das crianças com a cidade revela que estamos diante de uma cidade pensada, projetada e construída por adultos e para adultos, que “adota como parâmetro o cidadão adulto, abandonando os cidadãos não adultos” (Tonucci, 1997, p.181), que restringe o uso e a circulação das crianças pela cidade. Expressões corriqueiras como “lugar de criança é na escola” ou “a rua não é lugar de criança” e outras do gênero delimitam, por meio de fronteiras físicas e sociais, os territórios permitidos e proibidos para elas na cidade.
Para as crianças, o deslocamento se restringe porque a cidade, como obra dos adultos, reflete a divisão social do trabalho onde casa e escola são os lugares onde a criança deve estar, enquanto a rua, ou a cidade de maneira geral, são os lugares onde só os maiores têm livre circulação. (Castro, 2004, p. 73)
Segundo Neto (s/data), para que a criança adquira independência de mobilidade/autonomia, ela precisa viver e ver a cidade, precisa habitar os espaços públicos com segurança e autonomia, bem como participar da vida da cidade. A independência de mobilidade que Neto menciona refere-se ao modo como a criança desenvolve, ao longo do tempo, uma representação mais consistente do espaço físico (memória, percepção, identificação) e, com isso, uma liberdade progressiva de ação no espaço cotidiano.
O contexto urbano tem seus espaços e equipamentos criados e construídos a partir do imaginário do adulto, não considerando o imaginário infantil. As tomadas de
decisões relativas à organização dos espaços públicos utilizam uma linguagem tecnocrática e estilos de negociação que não consideram a integração das vozes infantis, que ficam diluídas em uma ordem social dos adultos.
Lima (1989) critica esta pretensão dos adultos, arquitetos, planejadores urbanos e políticos de acharem que podem construir espaços voltados para as crianças sem consultarem e escutarem o que elas têm a dizer. As críticas da autora podem ser constatadas quando se observa a vida cotidiana das grandes cidades, em especial a cidade de São Paulo, onde os espaços urbanos foram, predominantemente, pensados “pelo” e “para” os adultos, sem que as mediações entre crianças e adultos fossem consideradas.