Em Portugal, as mudanças estéticas decorrentes do renascimento balizam-se entre 1450 e 1550, tendo sido o seu início e o seu fim mais tardios do que na Península Itálica. Os seus começos não foram tão fulgurantes como na Península Itálica por razões óbvias (não foi em Portugal que o renascimento nasceu e se desenvolveu nas primeiras décadas do século XV), talvez, também, porque, provavelmente, o erário público se encontrava debilitado, principalmente por causadas conquistas em África e das guerras peninsulares conduzidas por D. Afonso V. A produção artística desenvolve-se no reinado de D. João II e atinge um momento de grandes realizações no reinado de D. Manuel I, altura que coincide com a descoberta do caminho marítimo para a Índia e o Brasil.
No alvorecer do século XVI, período áureo de Portugal, D. Diogo de Sousa, torna-se arcebispo de Braga, o arcebispado com mais rendas, levando-o a ser um dos maiores encomendadores de arte religiosa, de alfaias litúrgicas, paramentos e livros, para além das obras na cidade já referidas.
Segundo as palavras do arcebispo, “quanto a esta Sé e edifícios dela e assim prata e
ornamentos que nela fiz e pus sei que está muito diferenciada das outras”105.
A necessidade de valorização e de adaptação da catedral bracarense a novas necessidades litúrgicas, leva D. Diogo de Sousa a fazer várias obras de beneficiação e enobrecimento no edifício, assim como alterações de caráter funcional.
Começando pelas alterações que D. Diogo de Sousa efetuou na catedral, devemos começar pela capela-mor. Inicialmente, tentou recuperar a anterior executando um conjunto de reformas
para corrigir os problemas, “mandou precintar a Capela-mor e abrir n’ela fresta largae”106,
simultaneamente, corrigir os degraus. Substituiu o púlpito de madeira por um de pedra, que mais tarde foi colocado na nave do alpendre de S. Geraldo. Estas alterações mantiveram-se até 1509, ano que chamou João de Castilho e mandou derrubar a antiga capela-mor para construir uma nova, diferenciada da anterior. Era maior, com frestas de vidraças, certamente para uma melhor iluminação, “coberta por uma abóbada de combados e de aljaróz de pedraria que se fez
105 T.T., Gav.2 m 9 doc. 31 C. – publ. Avelino Jesus da Costa, 1990, D. Diogo de Sousa cit.”, p. 70-75. 106 FERREIRA, Mons. J. Augusto, 1935, Fastos episcopais Cit., p .487.
a primeira em Portugal até este tempo”107. A par destas obras mandou fazer um retábulo para o
altar em pedra de Ançã, “todo de pedra branca dourado em partes com figuras da mesma
pedra, tanto ao natural, que por ventura neste género he o melhor de Hespanha”108. Deste
retábulo em pedra só se conserva o que hoje se usa como frontal do altar-mor (uma das edículas originais faz parte da coleção da Casa Museu de Guerra Junqueiro, Porto). Nesta
mesma capela-mor mandou colocar grades de ferro de
obra romana
, as primeiras deste tipo aserem utilizadas em Portugal, mais tarde transferidas para a galilé da Sé, onde ainda se encontram.
Colocou na parede exterior traseira da capela-mor uma imagem em pedra Ançã representando a Virgem do Leite, ladeada pelas armas de D. Manuel e pelas suas.
Quando foram executadas estas obras o púlpito de pedra foi substituído por um púlpito
de
macenaria
109 com um portal rico e identificado com as armas de D. Diogo de Sousa.D. Diogo ofereceu ainda um Cadeiral que se perdeu no século XVII.
Para as capelas, que ladeavam a capela-mor, forrou-as e mandou fazer três retábulos de madeira pintada, respetivamente, um para a capela do Santíssimo Sacramento, um para a capela de S. Pedro e outro para o altar de S. Sebastião com os altares em azulejo.
Quando mandou ladrilhar a sacristia, ofereceu os armários para a prata e, dotou o armário com ornamentos. Fez uma escada de pedra sobre a dita sacristia por cima da abobada. Na sacristia fez um altar juntamente com um retábulo e rasgou duas janelas, acabando com as duas pequenas que existiam. Nelas colocou vidraças e um portal de ferro.
107 FERREIRA, Mons. J. Augusto, 1935, Fastos episcopais cit., p. 488.
108 CUNHA, D. Rodrigo da, 1989, História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga, cit., p. 293. 109 COSTA, Avelino Jesus da, 1990, “D. Diogo de Sousa cit.”, p. 99.
D. Diogo de Sousa modificou o portal principal, retirando o mainel e várias das arquivoltas românicas e enquadrando-o com colunas e arquivoltas em arco conopial abatido que, no topo, ostentam as suas armas. Em frente completou a galilé iniciada sob as ordens do cardeal D. Jorge da Costa, mandando que se completasse o lajeamento e grades de pedra. No frontispício desta galilé colocou sete imagens em pedra de Ançã dos quatro santos arcebispos de Braga, de S. Pedro e S. Paulo e do Anjo S. Miguel.
Na torre fez o peitoril com o seu entablamento e as ameias e arranjou toda a parte de fora. Fez o portal e as escadas de acesso das torres do sino para o antecoro. A torre do relógio foi entulhada, ladrilhada e olivelada e criou janelas que antes não passariam de frestas. Para melhorar o acesso ao coro colocou umas escadas novas e forrou-o de obra romana, ofereceu uma estante para os livros e uma caixa para estes se guardarem além de dois novos órgãos
onde colocou as suas armas110.
Já no interior da Sé, no cruzeiro, abriu duas frestas e uma na nave maior, todas elas envidraçadas, mandou levantar os quatro arcos da torre-cruzeiro com a altura da nave central (os anteriores eram da altura das naves laterais) e forrou os tetos das naves e cruzeiro de madeira111.
Quando executou o conjunto de reformas na capela-mor, retirou os corpos do conde D. Henrique e de D. Teresa e sepultou-os num túmulo único com o consentimento do Rei D.
Manuel I112. Segundo D. Rodrigo da Cunha, anos mais tarde, o Arcebispo D. Agostinho de Jesus
ordenou que fosse aberto o túmulo para comprovar se estavam duas ossadas nesse mesmo túmulo. Este arcebispo passou as ossadas que se atribuíram a D. Teresa para um túmulo que D.
Diogo de Sousa tinha preparado para si próprio113 mas que acabou por não ser usado para esse
110 CUNHA, D. Rodrigo da, 1989, História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga, cit., p. 293. 111 Idem, p. 295.
112 COSTA, Avelino Jesus da, 1990, “D. Diogo de Sousa cit.”, p. 99. 113Ver Anexo I, Ref.A11, p. 124.
fim, uma vez que o arcebispo veio a encomendar um outro onde ainda jaz na sua capela funerária.
Colocou quatro pias de água benta espalhadas pela Sé, duas na porta principal, outra na
porta do Sol e a ultima na Porta de S. Geraldo. Dotou a Sé com uma nova pia batismal114.
A pia batismal encomendada por D. Diogo de Sousa tem uma base octogonal sem grandes motivos decorativos, essencialmente pequenos anjos. O pilarete que une a base e a taça é simples. Na taça mantém-se a mesma secção octogonal.
Na capela de S. Geraldo fez uns degraus em pedra de acesso ao novo altar que revestiu de azulejos e que dotou com um novo retábulo. Ao mesmo tempo mandou ladrilhar toda a capela, construiu um altar mais pequeno, com grades, onde estava a sepultura de S. Geraldo. Mandou emadeirar e olivelar o alpendre e aí colocou o primeiro púlpito de pedra que mandara fazer para a Sé e que foi substituído em 1509. Em
1527, mandou olivelar e pintar o restante da Capela, obras que se deveram a infiltrações por
mau escoamento da água115.
Nesse mesmo ano, em 1527, mandou fazer um assento de pedra para a sepultura do Infante D. Afonso, filho do rei D. João I, reixas de ferro para o proteger, e pilares dourados
suportando o sobrecéu
em obra romana dourada
116.Também em 1527, transladou o corpo de Santo Ovídio que jazia no chão para uma sepultura de pedra lavrada. Ficou encostado ao pano murário do cruzeiro na parte sul, onde foi embutido na parede com reixas pequenas de ferro. Tinha o vulto do bispo vestido de pontifical.
Em 1513, mandou fazer a sua capela funerária (para servir também a recém-criada Misericórdia). No altar-mor foi colocado um retábulo todo ornamentado, ladeado por paredes
114 COSTA, Avelino Jesus da, 1990, “D. Diogo de Sousa cit.”, p. 100. 115 Idem, p. 101.
116 Ib., p. 101.
Ilustração 2 - Pia Batismal
azulejadas. Foi sepultado nesta capela onde ainda hoje se encontra o seu túmulo117. Mandou
ladrilhar a capela de D. Lourenço e fazer um coro na dita capela118.
Calcou o pátio entre a capela de D. Gonçalo Pereira e o alpendre de S. Geraldo, fez uns degraus de pedra para a rua e uma nova porta. A par destas obras fez um campanário na capela de S. Geraldo119.
D. Diogo de Sousa ofereceu cinco sinos para a Sé. Os sinos têm que ser consagrados e batizados, esta cerimónia é denominada batismo do sino. É feita com varias abluções e unção com os óleos dos enfermos e do santo crisma; toda a cerimónia é acompanhada por orações próprias. O nome do sino advém da gravação do nome do doador ou do de um santo. O maior sino que ofereceu à Sé foi chamado de Sino de Deus; em julho de 1525, ofereceu mais dois sinos médios, o Sino Sant’Spiritus e o Sino Salvador. Os nomes dos sinos mais pequenos que D. Diogo ofereceu eram o de S. Geraldo e o de Santa Catarina. Todos os sinos doados por D. Diogo de Sousa acabaram por ficar quebrados.
117 Ib., p. 101. 118 Ib., p. 101. 119 Ib., pp. 100-101.