3 Importance of the ocean as a source and/or sink for studied trace
3.4 Organo-halogens
Como vimos, o agressor circunscreve a acção das vítimas, numa clara tentativa de delimitar as suas actividades. Esse controlo vai muito além do contacto com os outros e da micro-‐regulação das actividades diárias das mulheres que acima explorámos. Engajam-‐se, igualmente, na imposição de comportamentos e condutas relacionados com os estereótipos de género baseados em construções assimétricas do masculino e feminino. Os estereótipos de género são usados pelos agressores como mais uma ferramenta que lhes permite submeter a mulher a uma conduta feminina considerada como a “correcta” aos olhos do agressor.
Essa imposição do que é considerado adequado para uma mulher demonstrar resulta da regulação estabelecida através da roupa que se pode usar, ou da maquilhagem, da determinação da escolha das pessoas com quem se fala, e na selecção dos filmes, leituras e programas de televisão que os agressores consideram toleráveis. Estas restrições, impõem uma espécie de “código de conduta” às mulheres e também funcionam como uma forma de controlo social das suas acções. A roupa quer as mulheres usam deve ser adequada àquilo que o agressor entende corresponder à sua construção social do feminino. Vanessa, por exemplo, era proibida de usar determinadas roupas, que pudessem ser alvo de maior atenção por parte de outros homens, comportamento que denuncia, igualmente, as questões do ciúme e da posse do agressor:
«Eu não comprava roupa sozinha ele às vezes, a gente ia “olha, experimenta” e comprava-‐me e a gente comprava. E então naquele início da nossa reconciliação espectacular e era…no outro ano a seguir a mesma roupa já andava seminua e eu usava um babeiro com frente e costas todo amarrado aqui de lado…[respirar fundo] cheguei a ter que ir a casa trocar de roupa para descer e vestir outra roupa mais chegada aqui, ou mais tapada aqui… Tinha que ser roupa aconchegada aqui, mangas e…e então se subia aqui um bocadinho, chegou-‐me a pedir para ir ao balcão buscar coisas, dentro do balcão para eu me baixar a ver se conseguia ver aqui…é assim, só pessoas doentes é que fazem essas coisas, ou baixar-‐me para ver
se a camisola descia para se ver as as…se se via…o que se via, no fundo…o que os outros pudessem estar a ver…»
(Vanessa, 38 anos)
Rosinha foi proibida de vestir-‐se como gostava e nem o corte de cabelo era por si escolhido. Esta entrevistada descreve-‐se, na altura, como alguém que era obrigada a vestir-‐se como um homem:
«Eu era moça homem. Eu não tinha direito a nada. Eu não tinha direito de vestir o que eu quero, eu tinha que ter o cabelo como ele queria, ele queria… Era tudo controlado. Eu não podia ser a mulher que eu queria ser»
(Rute, 31 anos)
Estudos recentes referem que os agressores naturalizam o exercício de
violência conjugal através das suas representações do género, imputando a responsabilidade às vítimas por não corresponderem ao seu ideal de feminilidade (Boira e Marcuello, 2013; Boira e Aragonés, 2011). Também, Stark, no seu trabalho com os agressores que pretendia identificar as principais razões que estes referiam para terem agredido as suas mulheres/companheiras ou namoradas, concluiu que o motivo mais apontado era a falta de adequação das mulheres aos papéis e arquétipo do género feminino do agressor. O autor vai ainda mais longe, referindo que a dada altura da relação essa construção social do género feminino começa a ser partilhada por ambos: agressor e vítima. A convergência dos estereótipos de género evita, aos olhos da vítima, mais situações de violência: «When a batterer brings a litany of complaints about a woman’s failures to the table, he is expressing (…) that conventional role behavior does not meet her needs and that her behavior contradicts his expressed sense—a sense she may share—of how women should behave. However fantastic the man’s accusations, many of the women with whom I work are deeply ambivalent about their gender roles » (Idem, Ibidem, p. 248).
Um outro estudo (Wouters, 1987) revela a ferocidade com que os estereótipos de género são assimilados por alguns homens, concluiu que, enquanto as mulheres
conseguiam descrever com elevado pormenor a personalidade dos seus maridos, os seus maridos só eram capazes de as descrever com recurso a estereótipos de papéis genderizados e generalistas, encaixando-‐as no que apelidavam frequentemente de as mulheres em geral.
A aproximação dos arquétipos estereotipados dos papéis de género, entre vítima e agressor, pode explicar-‐se enquanto mais uma estratégia para evitar a violência. Mas outros autores (Berk et al.,1983; Straus et al.,1980, Boira, 2012) estudaram a hipótese dos homens, mais do que as mulheres, assumirem uma visão mais estereotipada do género, como resultado da ideologia patriarcal. Walker, defende que a ideologia patriarcal impõe padrões rígidos de comportamento para o masculino e o feminino e que os agressores avaliam o desempenho das vítimas de acordo com a eficácia com que elas cumprem essas expectativas sociais: «Thus, if she does not have his dinner on the table when he returns home from work, even if she also has worked outside the home, he believes she does not care for him» (Walker, 2009, p. 17).
Estamos então perante um controlo que utiliza a estereotipização de género, como instrumento que resulta eficaz, num contexto que faz com que as mulheres auto-‐avaliem o seu desempenho enquanto mulher ou companheira de forma negativa e aproximando-‐se da visão do agressor. A génese deste processo reside na inculcação eficaz dos estereótipos de género, produzidos e reproduzidos geração após geração, transmitidos pela ideologia patriarcal, partilhada socialmente por homens e mulheres ao longo de séculos.
Como veremos ao longo deste trabalho, é possível destrinçar, no discurso das entrevistadas, várias alusões ao seu desempenho e cumprimento do papel socialmente atribuído à mulher/companheira/esposa. Estes desempenhos aproximam-‐se muitas vezes da ideia de “mulher” a que os próprios agressores esperam que ela corresponda. Mas este facto, a que atenderemos mais à frente em maior profundidade, não nos pode conduzir a uma interpretação superficial que alia a estas mulheres a responsabilidade da manutenção das trajectórias de violência: essa responsabilidade deve ser procurada nas estruturas socias e na forma como essa estrutura social eficazmente se difunde num movimento de produção e reprodução. Quando nos fala da dominação e da necessidade da cumplicidade de dominador e dominado, Bourdieu
advertia-‐nos para essa consciência partilhada do lugar do masculino e feminino na ordem social. Rejeitando a ideia de que são as mulheres que abraçam a dominação, mas ao invés, assumindo que os mecanismos de dominação são de tal maneira sub-‐ reptícios que as mulheres podem não ter consciência deles, o autor discute que é a própria estrutura social que impõe essa dominação como "natural": «Devemos admitir que as disposições "submissas" por vezes invocadas para "acusar a vítima" são produto de estruturas objectivas e, ao mesmo tempo, que estas estruturas devem a sua eficácia apenas às disposições que desencadeiam e que contribuem para a sua reprodução. O poder do simbólico não pode exercer-‐se sem a contribuição dos que o sofrem e que só sofrem porque o constroem como tal» (1998, p. 34).
Do ponto de vista sociológico, concordamos com Elias quando elabora sobre o elo de ligação entre indivíduos e entre estes e a sociedade. Segundo o autor, esse vínculo edifica-‐se através das teias culturais, de valores e de códigos sociais de conduta que são determinantes para a perpetuação das estruturas e da ordem social. A função desses vínculos, valores e códigos, é comprometer os indivíduos com as estruturas sociais, que se definem pela sua versatilidade, inquestionabilidade e por vezes se apresentam intangíveis: «(…) cada ser humano encontra-‐se na verdade numa situação de ligação; está ligado pelo facto de viver constantemente em dependência funcional de outras pessoas; representa um elo nas correntes formadas por outros seres humanos (…) Estas correntes não são de igual modo visíveis e palpáveis como correntes de ferro (…) É esta conexão de funções que os seres humanos têm uns para os outros, unicamente esta teia de funções que constitui aquilo a que chamamos «estruturais sociais». E quando falamos de «regularidades sociais» o que na realidade visamos é o seguinte: a regularidade própria das relações entre os indivíduos» (1993, p. 34).
A incorporação dos papéis de género são as correntes de ferro de que Elias fala. Eles são encarados pelos actores sociais como naturais, estruturadores das relações entre homens e mulheres que por sua vez, pelo caracter “natural” das estruturas sociais, não possuem razões para as questionar. A forma como o agressor avalia a mulher assenta na demonstração de determinadas competências:« Stereotypic female roles, such as how women dress, cook, clean, socialize, care for their children, or perform sexually» (Stark, 2007, p. 5). Também Dias, refere no seu estudo da violência
na família que, «Para os homens, uma boa esposa e mãe deve possuir, pelo menos, quatro atributos essenciais, que devem coexistir preferencialmente na mesma pessoa: ser boa dona de casa, colaborar com o marido, ser afectuosa com este e com os filhos, zelar pela educação destes" (2010, p. 296). Ora, todas estas "qualidades" que devem ser evidenciadas pela "boa esposa" patenteiam a sua proximidade dos agressores com o modelo tradicional do papel da mulher: papel de boa esposa e mãe e companheira que zela pela harmonia familiar e dedicação à esfera doméstica.
Aboim ao retractar sincrónica e diacronicamente as conjugalidades, refere que o primado da família moderna se caracterizava pela «diferenciação sexual interna, seguindo tendências de organização comuns aos pequenos grupos: ao homem caberia o papel instrumental (…) e à mulher o papel expressivo de manutenção da estabilidade emocional dos membros da família (…) nesse retrato, a diferenciação de género enclausura a mulher no interior das fronteiras domésticas» (2006, p. 51).
A descrição que se segue é particularmente importante porque articula o controlo social com o concomitante isolamento, e porque convoca as concepções assimétricas do género. Assim, e numa clara estereotipização do que é da responsabilidade ou função do homem ou da mulher, o agressor deixa claro à entrevistada que os homens é que devem ter o controlo das finanças domésticas:
«Eu comecei a sentir-‐me isolada e “pera aí que isto não é para mim” e comecei a saltar fora. Abri uma conta só em meu nome, o meu dinheiro começou todo a ser desviado. Aí foi o fim do mundo, começou a andar, comecei a ser uma ameaça. Por exemplo, o meu ordenado começou a cair naquela conta. Uma conta que está em nome dele, estava em nome dele e em meu nome. E eu “ai é, não estou mais para isto” e eu peguei e abri uma conta só em meu nome e ele começou assim “mas o ordenado não caiu lá porquê?” “Porque abri uma conta em meu nome” nesse dia foi o fim do mundo. “Agora também já és homem?” e eu assim “Sou!"»
(Margarida, 27 anos)
Este exemplo concretiza a relação que se tenta estabelecer entre o exercício de algumas formas de controlo social e a estereotipização de género. Os atributos que o
agressor associa a homens e mulheres são diferentes e neles a mulher ocupa uma posição inferior apresentando competências diferentes: «It is clear that these men do not believe women have the same right as men to argue, negotiate, or debate. Instead, it is a nuisance and a threat to his authority, and violence is often used to silence debate, to reassert male authority, and to deny women a voice in the affairs of daily life (…) Authority is at stake» (Stark, 1998, p. 153). Do estudo dos agressores condenados por violência conjugal ou doméstica, fica a conclusão que, na sua maioria, eles revelam resistência à mudança, especialmente em abdicarem da sua posição dominante em relação às mulheres e em abdicarem das suas crenças na superioridade masculina (Boira, 2012, Boira S. e Esteban, 2010).
A imposição de determinados desempenhos ou condições expectáveis ao desempenho do papel social de género das mulheres é, em si, mais uma forma de controlo social. Neste caso esse controlo social despoja as mulheres da sua própria construção identitária de género para que possam abraçar as concepções de género dos agressores, que lhe servem o propósito do exercício da dominação. Não poderemos compreender as dinâmicas conjugais, mesmo as que não se caracterizam pela violência, sem abordar as desigualdades de género, que possuem ainda nos tempos que correm, uma centralidade incontornável nas vivências da conjugalidade e nas relações de poder entre homens e mulheres. Nesse sentido «O casal não é um par de indivíduos homogéneos entre si, sendo impossível compreendê-‐lo fora da sua ancoragem em relações sociais de género» (Aboim, Ibidem, p. 54).