Não menos relevante as duas Guerras do Golfo e o atentado de 11 de setembro alteraram bruscamente o clima político global. Os EUA adotam como nenhum outro momento da história para viabilizar os ideais da paz no mundo, a Pax-americana, ou seja, a paz gerada pela força das armas. Metáfora proveniente da atuação do Exército Romano que garantiu a paz em territórios ocupados através da subjugação pela força militar.
Antes, a propósito deste enunciado, analistas tiveram dificuldades de explicar a Guerra do Golfo, quando na “nova ordem” de George Bush, alardeou-se que o mundo pós-Guerra Fria era um mundo de paz e fraternidade entre os povos, assim como, logo em seguida, sua obsessão guerreira redundou na segunda guerra do Golfo e a invasão do Afeganistão, sepultaram o sonho da paz perpétua no sistema internacional. O império norte-americano reafirmara sua supremacia recorrendo ao uso da força militar para, não só manter seus interesses comerciais, como para ampliar geoestrategicamente seus domínios sobre o Oriente Médio, América Latina, Europa do Leste e África, exemplificado na invasão da Somália. (cf. a figura 11, p. 195)
Após o atentado de 11 de setembro de 2001, efetua-se, pois, uma mudança estratégica em relação ao comportamento da principal potência econômico-militar do planeta – os EUA. O pentágono, doravante, preocupado com as infinitas capacidades de ação de organizações terroristas, operando em redes, ameaçando sua segurança nacional, introduz normas de segurança que ameaçam os direitos individuais, coletivos e civis.
A política externa do atual governo G. W. Bush apresenta algumas ambigüidades em relação ao chamado “eixo do mal”: Coréia do Norte, Irã e Iraque (na época de Saddam Hussein).98
Redefine, enfim, o padrão de controle das chamadas atividades antiamericanas no mundo com a “guerra preventiva”, na qual os EUA pretendem capturar indivíduos, organizações políticas ou terroristas em qualquer parte do planeta, sem o beneplácito das entidades políticas soberanas (os Estados Nacionais), assim como invadir quaisquer países, que representem potencial perigo para a sua soberania.
Na Europa, por fim, operam mudanças em relação à política de instalação de bases militares. Cansados das restrições legais em razão de impactos ambientais e protesto local em virtude do comportamento de soldados (denúncias de exploração sexual), principalmente na Alemanha onde pretendem fechar 16 bases, iniciam um movimento de migração em direção aos antigos inimigos da OTAN. A intenção norte-americana é ampliar seu poder de guerra para a Polônia (Kreziny), Romênia (Aeroporto de Mikhail Kogalniceau), Albânia (Tirana),
98 Ao mesmo tempo em que os EUA buscam apoio da ONU para as inspeções no Irã, através da AIEA (Agência
Internacional de Energia Atômica), com a suspeita de que este estaria produzindo um arsenal atômico, procura resolver os impasses com a Coréia do Norte via mesa de negociações de forma bilateral. Consultar: MORAES, Márcio Senne. Bush adota estratégias distintas. Folha de São Paulo, 9, maio, 2003. Mundo, análise, p. A19. Para uma compreensão da estrutura e funcionamento da ONU, sugere-se a leitura de: BERTRAND, Maurice. A
Bulgária (Sofia), Hungria (Taszar). Essa é a chamada “Nova Europa”, na expressão do secretário de defesa da administração de G. W. Bush, Donald Rumsfeld.
Na América do Sul é patente a tensão devido à insurgência comandada pelas FARC, ELN (Exército de Libertação Nacional) e pelos narcotraficantes que transformam a nação vizinha, a Colômbia, numa peça chave nas relações internacionais e de desequilíbrio no continente sul-americano com efeitos sobre a segurança da Amazônia.
O Plano Colômbia, como ficou conhecida a estratégia norte-americana para a militarização do continente, visa criar uma rede de proteção para dificultar a comercialização dos ilícitos e combater o circuito da ilegalidade, bem como retirar a principal fonte de financiamento das FARC e dos narcotraficantes.99 Porém, essa visão alardeada pela mídia não é compartilhada por estudiosos. Segundo Vizentini (2003), subliminarmente, os interesses dos norte-americanos com o Plano Colômbia residem verdadeiramente na demonstração de que estão atentos às tensões no continente, provocadas pelos assuntos internos da Venezuela, da Bolívia, do Equador, do Brasil (a vitória de esquerda nas eleições presidenciais de 2002) e do Panamá, além, obviamente, da Colômbia.
Os problemas colombianos, como as guerrilhas de esquerda, o narcotráfico e os esquadrões da morte de extrema-direita, não eram novos nem sofreram uma intensificação que justificasse tal política. Então, qual o sentido dessa iniciativa? Washington procurava demonstrar aos países da região que estava atento à evolução dos acontecimentos, para apoiar os aliados e coibir os „desviantes‟. (Vizentini, 2003, p.101)
Essa militarização revela um desejo antigo dos EUA ampliarem o número de bases militares na região.100
Esse quadro de avanço da presença norte-americana no leste europeu, no Oriente Médio e na América do Sul, contradiz o que diz Giuseppe Vacca (1996). Ao captar essa dinâmica internacional, apoiado no referencial gramsciano, exorta que a integração econômica e comercial desde a Segunda Guerra Mundial, o fim da Guerra Fria e do equilíbrio
99 STUMPF, André Gustavo. Desencontros entre Brasília e Washington. Correio Brasiliense, Brasília, 11, out.,
2000. Brasil, 1o Caderno, p.06.
100 Em que pese indícios o número e a instalação de bases militares por si só não traduz em eventuais
possibilidades de invasão ou qualquer outro tipo de intervenção armada. Desse modo, apesar dos EUA instalarem e manterem bases militares em outros países como a Alemanha e o Japão, é contraproducente afirmar que esse fato resultou em ameaça de invasão a esses países. É digno de nota que, contudo, cabe ao
do terror 101 simbolizam, definitivamente, o advento de um mundo de paz, de segurança e de cooperação entre as nações e povos. Vacca, com seu “mundo novo” polemiza com Noberto Bobbio para quem o mundo resiste à lógica belicista do Estado Potência nas relações internacionais e, conseqüentemente, a permanência de conflitos em todos os níveis pelo mundo afora como a mais coerente definição do sentido das relações internacionais contemporâneas. Em outras palavras: um mundo movido pela natureza da guerra e dos esforços permanentes pela paz, enquanto marcas das relações internacionais.
Figura 11
Nova Configuração da Presença Norte-Americana
governo brasileiro tomar medidas no sentido de potencializar os riscos dessas iniciativas e avaliar e mensurar o grau do comprometimento para a soberania brasileira.
101 Expressão usada para designar a expansão da corrida armamentista na década de sessenta. Pensava-se
estrategicamente que o aumento do arsenal nuclear fomentaria um equilíbrio na competição entre as duas superpotências e diminuiria na mesma proporção os riscos de uma catástrofe nuclear. A paz é garantida pela capacidade de impor-se militarmente.