• No results found

Organizacion, actividad y bases del carlismo navarro durante el primer franquismo

Camilo João Amâncio, quando protagonizou o conflito que o levou ao banco dos réus, teve sua intimidade desvelada às autoridades, colocando à mostra um cotidiano que transbordava sociabilidade. Começando pelo próprio fator gerador do processo, uma relação de concubinato entre o réu e a vítima, a rede de sociabilidade tecida por Camilo abarcava até uma amizade com um cabo do Corpo de Polícia da cidade, com quem, momentos antes do crime, num bar próximo ao quarto onde sua amásia morava, havia compartilhado uma bebida e, provavelmente, desabafado sobre seu relacionamento amoroso. A mesma rede de sociabilidade compreendia ainda relações de vizinhança e de trabalho, fora aquelas que não aparecem nos autos. Em suma, Camilo era um escravo em contato diário com uma gama variada de indivíduos.2

A interconexão entre essas vidas deriva, em grande medida, do cotidiano urbano. Sem negar a existência de redes de sociabilidade no meio rural, creio que foi no ambiente urbano que estas redes foram potencializadas, local onde elas assumiram o que chamo de

caráter caleidoscópico.3 Primeiro, porque a cidade abrigava amplo e diverso contingente populacional num espaço circunscrito, permitindo, desta forma, além da interação entre pares, o contato diário e a criação de vínculos entre indivíduos pertencentes a diferentes grupos sociais. Algranti, em trabalho já mencionado nos capítulos anteriores, pesquisando a escravidão na Corte, destaca que

“ao circularem pela cidade, envolvidos nas suas tarefas diárias, os negros estreitavam seu relacionamento com os mais diversos indivíduos (...). Era um conjunto de elementos novos todos os dias, e o escravo, como os demais habitantes, devia se acostumar a conviver com as situações do ambiente urbano. As relações que se estabeleciam entre os indivíduos eram, assim, naturalmente, afetadas por todo esse ambiente que os circundava. Relações de conflito e solidariedade adquiriam conotações próprias da vida nas cidades, determinadas

2 CMA, Fórum Criminal, 3º Distrito Criminal, Autos crimes de ferimentos leves, 1883.

3 Estudando o norte de Minas Gerais durante o século XIX, Alysson de Jesus destaca que “a complexidade da vida nas relações escravistas não era atributo específico das regiões mais urbanizadas do Brasil”. Segundo ele, é inegável que “o mundo urbanizado e dinâmico transformou-se em um espaço privilegiado para a mobilidade, a circulação e a troca de experiências”, que as relações sociais tecidas no “sertão” possuíam certos limites, mas “isso não significa que escravos, libertos e homens livres não tenham procurado superar esses limites, reinventando assim o mundo sertanejo da escravidão e construindo identidades”. Cf. Cf. JESUS, Alysson Freitas de. No sertão das Minas: escravidão, violência e liberdade, 1830-1888. São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: Fapemig, 2007, pp. 69-70.

pelo maior ou menor peso dos elementos externos à situação clássica senhor- escravo”.4

Em segundo lugar, agora apenas com relação aos escravos e libertos, Belém, como se viu no capítulo anterior, durante os derradeiros anos do período imperial, à semelhança da Corte, de São Paulo, Recife, Salvador, entre tantas outras, também era uma cidade negra,5 repleta de territórios negros,6 o que aumentava a frequência e a intensidade da convivência com o outro e, principalmente, com o semelhante.

Por último, na cidade, como também já foi visto nas páginas antecedentes, o escravo gozava de extensa margem de autonomia e de relativa liberdade – quer pela expressiva população negra que a compunha, quer pela predominância da negociação nas relações entre os senhores e seus escravos. Vale repetir, aqui, um excerto de Chalhoub mencionado no capítulo anterior: “a escravidão sofria adaptações importantes nas cidades – como a autonomia dos cativos no trabalho, a possibilidade de muitos escravos morarem fora da casa dos senhores, a dificuldade em seguir os passos dos negros num ambiente diversificado e com uma população numerosa (...)”.7

Devem ser feitas, todavia, duas ponderações. Primeiramente, as redes de sociabilidade não se restringiam, necessariamente, ao urbano ou ao rural, ultrapassando,

4 ALGRANTI, Leila Mezan. O feitor ausente: estudo sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro (1808-

1822). Petrópolis: Ed. Vozes, 1988, pp. 96-97.

5 Sobre a ideia de cidade negra, trabalhada no primeiro capítulo desta dissertação, cf. CHALHOUB, Sidney.

Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das

Letras, 1990, p.186 e ARAÚJO, Carlos Eduardo Moreira de; SOARES, Carlos Eugênio Líbano; GOMES, Flávio dos Santos; e FARIAS, Juliana Barreto. Cidades negras: africanos, crioulos e espaços urbanos no

Brasil escravista do século XIX. São Paulo; Alameda, 2006.

6 Falei sobre os territórios negros em Belém no Capítulo 3 desta dissertação. Em todo caso, cf. MATTOS, Wilson Roberto de. Negros contra a ordem: Astúcias, resistências e liberdades possíveis (Salvador, 1850-

1888). Salvador: EDUNEB, EDUFBA, 2008 e SANTANA, Lígia Conceição. Itinerários negros, negros itinerantes: trabalho, lazer e sociabilidade em Salvador, 1870-1887. Dissertação de Mestrado – Programa de

Pós-Graduação em História, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2008.

7 CHALHOUB, 1990, op. cit., p. 185. Sobre a maior autonomia escrava na cidade, cf.: ALGRANTI, op. cit.; SOARES, Luiz Carlos. O “Povo de Cam” na Capital do Brasil: a escravidão urbana no Rio de Janeiro do

século XIX. Rio de Janeiro: Faperj/7Letras, 2007; WISSENBACH, op. cit.; MACHADO, Maria Helena P. T.

“Em torno da autonomia escrava: uma nova direção para a história social da escravidão”, in Revista

Brasileira de História. São Paulo, v.8, n.16, pp. 143-160, 1988; SILVA, Eduardo & REIS, João José.

Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989;

mais recentemente, FERREIRA, Roberto Guedes. “Autonomia escrava e (des)governo senhorial na cidade do Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX”, in FLORENTINO, Manolo (org.). Tráfico, cativeiro e

liberdade (Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005;COSTA, Robson Pedrosa. Cotidiano e resistência nas últimas décadas da escravidão, Olinda, 1871-1888. Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco, Recife, 2007; entre outros.

muitas vezes, as estreitas fronteiras de um e outro cenário.8 Caso do escravo Manoel, aquele que foi acusado de ter estuprado uma escrava quando de sua vinda à capital a serviço de sua senhora.9 Segundo: as redes de sociabilidade possuíam certa plasticidade, num faz, desfaz e refaz contínuo, excluindo e incorporando antigos e/ou novos indivíduos a todo tempo.

Ressaltada a influência do ambiente urbano na constituição das redes de sociabilidade, cabe agora tentar descortinar alguns de seus significados. O que levava um escravo a se relacionar com outro indivíduo? Quais eram os critérios utilizados na escolha de alguém com quem se relacionar? As relações senhor-escravo influenciavam as demais relações construídas pelos cativos? Lembro, contudo, que o objetivo aqui não consiste em destrinchar todos os tipos de relações, todas as formas e desdobramentos da sociabilidade envolvendo os escravos e o restante da sociedade. Pelo contrário, trago ao leitor situações específicas, casos residuais, os quais, porém, muitas vezes, dizem mais do que um conglomerado de números.