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1. INNLEDNING

1.5. Organisering av teksten

Entre esses e outros casos, a população acompanhava as notícias sobre a chegada da TV. Gilmar de Carvalho conta que Geraldo Fontenele, na PRE-9, terminava suas crônicas todos os dias pedindo para que os dias passassem rápidos, “para afinal enfrentarmos o diabo desse bicho-papão, a televisão” (Carvalho, 2004, p. 26). Tarcísio Tavares, na coluna Publicidade e Investimento, publicada na Gazeta de Notícias, outro jornal local, criado em 1927, ousava tocar num assunto que devia gerar inquietação: será possível manter uma emissora de televisão em Fortaleza, uma vez que o investimento era altíssimo, em torno de 20 milhões de cruzeiros, com despesas grandes com a técnica e com os artistas? Os anunciantes terão condição de “bancar” suas publicidades pela TV? Mas como ele deveria saber das expectativas na cidade, cuidava de responder imediatamente: “(...) a nossa resposta sempre afirmativa. A TV vai

incrementar uma série de novas fontes de riqueza, que ingressarão no círculo do novo empreendimento”. (Idem, ibidem)

Em outras edições da coluna, Tarcísio Tavares sugeria que aparelhos de TV fossem colocados em casas de merenda, bares e sorveterias. Dário Macedo, na coluna “Passarela”, de O Estado, saudava a TV Ceará como um autêntico tento de progresso.

“É a afirmação da capacidade desses mesmos homens que fizeram a velha Prenove, um verdadeiro e querido patrimônio de nossa terra”.(Idem, ibidem, p.27)

O Jornal O Povo, concorrente de o Unitário e Correio do Ceará, também não deixou de noticiar a novidade pertencente aos Associados. A coluna “Rondas do Rádio”, durante o mês de outubro de 1960, divulgava várias notas referentes à chegada da TV. Na edição do dia 5, o autor dizia que a população aguardava ansiosamente as notícias em torno da inauguração da estação. “A equipe associada prepara-se por trás

de verdadeira cortina de ferro. Há mais segredos ali do que na Rússia quando do lançamento da Sputnik...é o que se comenta”.

Quem sonhava em aparecer na tela, começava a se movimentar para conhecer os truques de trabalhar em frente às câmeras. Depois de ter feito teatro no Sudeste do País, Emiliano Queiroz retornava à Fortaleza para ministrar cursos para as atrizes, todas oriundas do rádio, com vivência de microfone. Neide Maia, Karla Peixoto, Lourdes Martins, Ângela Maria, Laura Santos e Maria José Braz viraram alunas para aprender como se portar nas encenações ao vivo.

O interessante é que os nomes originais passavam por adaptações quando viravam locutores. José Braz de Oliveira é o mesmo Aderson Braz, famoso locutor na época, conhecido pela segurança ao ler os textos, sem gaguejar. Aneide Maia Nogueira é o nome de registro de nascimento de Neide Maia, considerada uma das maiores locutoras de rádio que o Ceará já teve.

Ainda em 1960, chega para ficar uma longa temporada em Fortaleza Péricles Leal, o paraibano de Alagoa Grande, nascido em 1930, tanto com experiência em jornalismo como em teatro, mas vocação maior para a televisão, experiência que adquiriu no trabalho para as outras emissoras dos Diários Associados, principalmente no Rio de Janeiro. Ele aportou na capital cearense com a missão de treinar a equipe de trabalho da futura TV Ceará, empregando os métodos e ensinamentos teóricos da incipiente linguagem televisiva, afim de abolir ao máximo a improvisação.

De acordo com Gilmar de Carvalho, o curso era dividido em três partes. Na primeira fase, os radialistas e jornalistas participantes recebiam conhecimentos básicos de televisão (linguagem, pontuação, desenvolvimento temário e esquema de realizações). Num segundo momento, os “alunos” teriam que fazer um exercício prático, desenvolvendo roteiro de programa. Para encerrar, a realização do roteiro, com a participação da equipe técnica e do corpo de atores. Guilherme Neto, aquele que tinha visto um aparelho de TV rapidamente no Recife, como disse no início deste capítulo, foi aprovado no curso com uma proposta de telenovela, que ele batizou com o nome de “Conflitos”.

...nós fizemos uma televisão em que éramos autores e intérpretes, entendeu? O Péricles era só autor. Ele escrevia peças para televisão, novelas...Ele escrevia e ele nos ensinou isso aí, esse jeito de escrever para a televisão. É uma forma de pensamento e de raciocínio diferente do rádio. O rádio é para ouvir, o jornal para ler e a televisão para você ver e ouvir. Então, muita coisa você não precisa dizer porque está sendo mostrado. Você tinha que aprender a escrever de um jeito para não dizer o óbvio. Se o camarada aparece com a roupa suja, não precisa dizer que ele está com a roupa suja. Já esculhamba o texto...Tá com raiva? Então, ele tem que ser um ator capaz de falar com raiva. Não é preciso o ator chegando dizendo que está com raiva...(trecho de entrevista à autora).

Guilherme e os colegas que vinham do rádio tinham, naquele momento, os primeiros contatos com a linguagem particular da TV e o modo pelo qual são construídos os produtos televisivos, a partir de elementos como sons, imagens, textos, diálogos e planos, tudo de uma só vez. Além dele, a equipe de realizadores ficou assim: Ary Sherlock, João Ramos, Augusto Borges, Lustosa da Costa e Renato Aragão. Tiveram que passar meses num processo de aprendizado, com exercícios diários no estúdio, sem erros que pudessem comprometer a qualidade dos programas.

Péricles era considerado como um homem autoritário, exigente na disciplina, pontos que foram avaliados depois como positivos para a ocasião, dada a responsabilidade na definição das equipes de trabalho. Os poucos recursos que a futura televisão disponilizava, principalmente se comparado com os dias atuais, também impediam a evolução de uma linguagem mais elaborada para o novo veículo. De tão pesadas, as câmeras exigiam funcionários com um porte físico mais musculoso. Para aliviar a tensão dos futuros funcionários da TV Ceará, Péricles anunciou que havia trazido um pacote de realizações, para contribuir com os primeiros momentos de programação. Sobre ele, Eduardo Campos dá o seguinte depoimento:

...era um homem erudito, era um homem que tinha lido toda a literatura universal. Ele conhecia, não era despreparado...Ele conhecia literatura. Por isso, é que ele podia montar todos os espetáculos, porque conhecia Shakespeare...conhecia todo esse pessoal: os americanos, os modernos, os mais

antigos, os franceses, os ingleses. Então, isso é que dá, faz a diferença. Não adianta você estar se formando num curso de Comunicação e não ter leitura. Então, além de ser um expert no assunto, ele era um homem lírico. Quando veio para cá, trouxe a mulher, que também era cantora lírica. Então, isso faz a diferença...

Enquanto Péricles Leal impressionava uma cidade que ainda não tinha televisão, foi também aberto um curso para anunciadoras. Os critérios para participar pareciam mais um concurso de miss: ter entre 18 e 30 anos (menor só com autorização dos pais), altura mediana, curso secundário, reforçado pela obrigatoriedade de saber ler e escrever corretamente e facilidade de memorização. Os outros critérios servem para reforçar o que eu disse anteriormente sobre a beleza física: provas de conhecimentos gerais, desfile, desembaraço, improvisação e boa memória. O anúncio para convocação dizia ainda que aquela era uma boa oportunidade para moças bonitas e inteligentes de Fortaleza. Surgiam, assim, os primeiros passos para a publicidade na TV, a entrada em cena daquelas que os autores consideram os primeiros mitos da televisão brasileira, as garotas-propagandas, moças que, brejeiramente, iriam anunciar os produtos.

Quanto ao desembaraço das candidatas, essa exigência se devia ao fato da inexistência do vídeo-teipe (como veremos no capítulo 3), fazendo com que tudo fosse feito no exato instante de ir ao ar. Não tinha como gravar, para posteriormente selecionar as melhores cenas e depois veicular na televisão. Por isso, muitas passaram para a posteridade com o sinônimo de “trapalhona”, como diz Inimá Simões (1986, p.43), “de colaboradora assídua do folclore televisivo, algo bem conforme a sua imagem de mulher pouco inteligente mas bonita”. Mas não podemos esquecer que muitos dos erros cometidos, eram provocados pela precariedade técnica, principalmente se comparado com a atualidade. Na falta de estrutura para a realização de filmes publicitários, a presença da garota-propaganda foi um das saídas encontradas para o momento. A outra alternativa era a exibição de “slides” com a voz de um locutor em “off”, ou seja, ele não aparecia na tela.

Esse modelo veio das televisões Associadas já em funcionamento pelo Brasil, principalmente as de São Paulo e Rio de Janeiro. Com os riscos de “deslizes” nas transmissões ao vivo, muitas delas entraram para o anedotário da publicidade, como o

caso publicado na revista Briefing, de setembro de 1980, na página 10: “a garota propaganda falava do sofá-cama Probel, que facilmente transformava seu sofá em cama e vice-versa. Quando ela foi demonstrar o produto, o sofá-cama acabou emperrando e não se transformou em cama”.

Após o anúncio, em Fortaleza, foram selecionadas Stelinha Barbosa, com o adjetivo de graciosa e semelhanças com Marta Rocha; Rita Angélica pela simpatia e seria a loura garota-propaganda do sabonete Sigel e de outros comerciais; Adalgisa era definida como elegante. Shirley Ibiapina era a discreta e mais competente, segundo os jornais. Mesmo assim, algumas se tornaram figuras populares, garantindo a presença no vídeo, mesmo após o desaparecimento dessa categoria especificamente televisiva. Em nível nacional, se destacaram Neide Aparecida, Idalina de Oliveira, Meire Nogueira, Wilma Chandler, Odete Lara e Maria Rosa.

Neste primeiro capítulo, tentei mostrar como foram os passos iniciais para a chegada da primeira emissora de televisão do Ceará. O rádio, principal porta-voz da onda de modernidade que percorreu o País na década de 50, foi o grande articulador no processo de instalação do novo veículo. No bojo das campanhas sociais, a Ceará Rádio Clube inseriu o “discurso” sobre a importância da televisão para o desenvolvimento do Estado e sensibilizou a população para a compra das ações. Juntamente com os jornais, ajudou a criar e a disseminar uma certa atmosfera de “glamour” e encantamento em torno do novo veículo, que, no senso geral, era associada à modernidade. E que cidade era essa que recebeu a nova mídia? É o que veremos no próximo capítulo.

Capítulo II