Depois de perseguido pela polícia política e preso no Aljube, por atividades julgadas como subversivas, pelo regime político vigente em Portugal, existe mesmo uma carta escrita pelo próprio Salazar que fala da desilusão que o regime sente face ao desalinho ideológico de Agostinho da Silva, e percebendo da dificuldade que teria em continuar a vida no país, decide-se pelo auto exílio no Brasil, corria o ano de 1944. Não foi, pois, uma expulsão do país, mas uma decisão do próprio, se bem que não lhe restasse outra saída. Como ele mais tarde deu testemunho, “…foi a mim que me apeteceu embarcar”.69
Embora chegue durante esse ano ao Brasil, haveria de passar os próximos 3 anos, primeiro no Uruguai e, depois, na Argentina. Em 1947, regressa definitivamente ao Brasil, instalando-se primeiro em São Paulo, onde permaneceu pouco tempo, mudando depois para o Estado do Rio de Janeiro, mais precisamente para a Serra de Itatiaia, “montanha sagrada”. Itatiaia é um dos municípios estaduais do Rio de Janeiro, localizado em região de fronteira com o Estado de Minas Gerais, lugar isolado na Serra da Mantiqueira, afastado do mundo urbano, onde passa a viver em regime comunitário com vários amigos e amigas. Entre elas, algumas reconhecidas personalidades da cultura brasileira e portuguesa. Os filósofos Osvaldo de Andrade e Vicente Ferreira da Silva, e o historiador Jaime Cortesão, este também exilado no Brasil, com respetivas famílias, são exemplos das personalidades que por lá estiveram.
No ano seguinte, porém, abandona a Serra e instala-se na cidade do Rio de Janeiro. “Nesta cidade, trabalha no Instituto Oswaldo Cruz (dedicando-se a estudos de entomologia), ensina na Faculdade Fluminense de Filosofia e colabora com Jaime Cortesão, na Biblioteca Nacional, no aprofundamento da obra de Alexandre Gusmão.”70
O período entre 1947e 1956, correspondendo aos primeiros anos de Brasil, constitui provavelmente a fase da sua vida de menor produção científica. Nesta fase, os escritos mais significativos que se lhe conhecem são obras de caráter literário, mais
69 João Rodrigues Mattos, Agostinho da Silva: Um pensamento Vivo (dvd), Lisboa, Jornal Público /
Alfândega Filmes / Assoc. Agostinho da Silva, 2006
70
Romana Brázio Valente, Síntese Biográfica de Agostinho da Silva, Portal Agostinho da Silva – on line (em: http://www.agostinhodasilva.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=18&Itemid=30)
49 precisamente dois romances. O primeiro, intitulado Herta, Teresinha, Joan escrito em 1953, mas que só viria a ser editado em Lisboa, em 1989; o segundo, “Macaco Prego”Lembrança Sul-Americana de Mateus Maria Guadalupe, editado em Santa Catarina, em 1956, quando já lecionava na Universidade deste estado meridional do Brasil.
Entretanto, em 1952, já se tinha deslocado para a Paraíba, Estado da zona nordestina do Brasil, depois de ter sido convidado para ajudar a construir e a lecionar na Faculdade da capital do estado, a cidade de João Pessoa, tendo também exercido docência em Pernambuco. O Brasil precisava de construir Universidades pelo seu imenso território, descentralizando e generalizando pelo país o sistema de ensino superior, e foi justamente por aqui que Agostinho começou a imensa obra que haveria de deixar neste país, no que se refere à sua participação na criação de uma rede de ensino universitário.
Na Paraíba, fundou-se primeiro a Faculdade de Filosofia e, lodo depois, a Faculdade de Medicina. A formação de quadros especializados viria mais tarde a dar os seus resultados, permitindo uma melhor sustentabilidade da região. Segundo as suas próprias palavras, “haveria que começar por algum lado para ajudar as populações daquela região duríssima do nordeste brasileiro, com secas frequentes e a fome generalizada que se seguia, e que até ali se caracterizava pela região de maior percentagem de emigrantes do Brasil. As populações por ali se reproduziam, mas o seu destino era a saída forçada para outras regiões onde fosse possível sobreviver.”71
Em 1954, vem para São Paulo, depois de ter sido convidado por Jaime Cortesão para participar na organização da Exposição do IV Centenário dessa cidade. Mas logo no ano seguinte, é convidado a participar na fundação da Universidade de Santa Catarina, um pouco à semelhança do que tinha acontecido em João Pessoa. Aceite que foi o convite passará a ser este o seu lugar de residência e obra nos quatro anos que se seguiram.
Nestes primeiros anos de Brasil, embora a sua produção ensaística tenha escasseado, há, todavia, um pequenino texto do nosso autor de apenas sete páginas datilografadas, escrito por volta de 1947, intitulado Alcorão que passaremos a abordar,
50 iniciando assim os nossos estudos sobre os mais de vinte anos que o nosso autor passa no país irmão.
2. “Alcorão”72
Como se disse, quando se estabelece definitivamente no Brasil, Agostinho vai viver para Itatiaia, “serra sagrada” do Rio de Janeiro, em lugar afastado dos meios urbanos. Desta passagem por Itatiaia temos um belíssimo depoimento da poetisa Dora Ferreira da Silva, casada com o filósofo Vicente Ferreira da Silva, amigos do Professor, que viveram com ele em comunidade na mesma casa da serra, durante alguns meses desse ano de 1947.
É destes primeiros tempos latino-americanos o seu pequeno ensaio Alcorão, texto que funciona um pouco como guia prático religioso para esse ideal comunitário de vida. Sete páginas manuscritas que a poetisa manteve em seu arquivo pessoal até o dar para publicação.
Alcorão é um texto absolutamente de índole religiosa e, a julgar pelo título, certamente inspirado no Livro Sagrado do Islão que trata, como sabemos, das revelações feitas por Deus a Maomé, principal profeta e autor dos princípios sagrados do islamismo.
Católico desalinhado, cristão assumido, interesse permanente pelo fenómeno religioso que sempre se pautará pelas pontes que vai traçando entre as demais manifestações religiosas, o Professor elabora neste seu texto uma síntese de trinta pontos, definindo assumidamente o significado de Deus, traçando relações entre Ele, o universo, a vida, os homens. Aqui deixamos uma breve síntese:
- Deus, um Princípio Absoluto, sem definição, Tudo e Nada; Deus é Lei, mas também Liberdade. Lei suprema e Liberdade são a mesma coisa. Se Deus é a Lei pode-se chegar a Deus através da ciência.
72
AA.VV., Presença de Agostinho da Silva no Brasil, org. de Amândio Silva e Pedro Agostinho da Silva, Rio de Janeiro, Casa de Rui Barbosa/ Ministério da Cultura, 2007 (Datiloscrito de 7 páginas, inédito, redigido por Agostinho da Silva à volta de 1947, e cedido para publicação por Dora Ferreira da Silva)
51 - Deus só pode atingir-se através da sua própria orientação; Calma perfeita e ação, o repouso completo no mais completo movimento, coincidem em Deus.
- A vida é criação de Deus. Deus é, simultaneamente, imanente e transcendente. A vida é Deus sendo, é a relação de um Sujeito-Objeto ligados pela presença de Deus.
- O Homem é corpo e alma. A alma é a impressão particular no Espírito Universal. O corpo é o fenómeno particular do Corpo Universal.
- As leis psicológicas, tais como as leis físicas, são constantes. O intelectual e o afetivo só aparentemente são separáveis. O Espírito não tem mais dignidade do que o Corpo. - Tempo e eternidade são coetâneos. Tempo e espaço são, simultaneamente, reais e irreais, porque só Deus é real. Tudo está sendo só o que pode ser.
- O mal é produto de uma visão particular do Universo.
- Homem e humanidade estão interligados e a interação faz-se nos dois sentidos. Amar a humanidade em cada homem, eis o caminho;
- A união com Deus faz cessar a oposição com os outros; só os outros existem, não ele mesmo. O amor com desejo é santo, sem desejo é estar-se em Deus.
- Se se percebe porque se sofre, o sofrimento é só exterior à pessoa.
- Para o homem em Deus só há um regime de não-propriedade (seja de bens materiais, animais, mulheres ou crianças).
- Todas as religiões são verdadeiras como linguagem; mas o verdadeiro templo de Deus está na alma do homem que atingiu a felicidade; e o seu verdadeiro culto é o amor sem desejo de tudo quanto existe no mundo.73
A estes princípios acrescenta o autor algumas palavras sobre as noções de “Imortalidade” e “Problema do Mal”.
Sobre o primeiro, diz-nos, “cada homem é, simultaneamente, sujeito e objeto, corpo e alma; onde alma e corpo são imortais, embora diferentes continuarão sendo,
52 percebendo-se bem isso através da ideia de reencarnação. Podemos ter o repouso eterno ao atingir Deus (Paraíso, Nirvana), sem nada se perder de movimento, na própria Terra.”74
Quanto ao segundo, refere que é absurdo falar-se de mal, tudo é só uma coisa (nem bom, nem mau em si). Só um princípio existe a que chamamos Deus, no qual é implícita a vida. Entre o mal e o sofrimento: “Negando o mal, não nego o sofrimento. Mas não consideramos um mal todo o sofrimento que nos aparece com uma finalidade (…) O sofrimento é um dos fatores mais eficientes da nossa vida moral (…) é menor à medida que o nosso egoísmo se desvanece, que amamos realmente os outros e não nós nos outros.”75
Não deixa de ser curioso que num texto intitulado Alcorão se venham acrescentar nítidos conceitos que pertencem a outras esferas do sagrado, ocidentais e orientais, já que nitidamente se faz referência a princípios que mais se associam a outras formas de pensamento religioso, cristãs e budistas, como acontece, por exemplo, na referência ao conceito de “Nirvana”, ou na relação entre o mal e o sofrimento. Assim, anote-se desde já, que em Agostinho da Silva a fusão religiosa é uma pretensão presente desde muito cedo na sua obra e a religião, mais do que particular, deve assumir contornos universais; mais do que religião fechada em si é, simultaneamente uma “inter-religião” e uma “trans-religião a ser rescrita que se propõe.
3. Entre “A Comédia Latina”76 e “Reflexão à Margem da Literatura