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Milton José de Almeida fala de uma certa ambiguidade na construção coletiva do cinema, pois se, por um lado, existe uma impossibilidade real de uma autoria exclusiva, uma vez que a composição do filme exige uma participação efetiva de artistas e técnicos distintos, por outro, o diretor de cinema assume socialmente a autoria, na medida em que mantém interface com praticamente a totalidade dos agentes construtores do filme.

O autor em cinema, muitas vezes chamado diretor, é uma dentre as muitas pessoas necessárias para a produção de um filme: trabalhadores que entram e saem em diversos momentos sem conhecer o todo da obra, cumprindo tarefas. Mesmo o diretor não tem participação e domínio de todas as fases dessa produção industrial. A autoria/criação vai acontecer no momento da montagem em que tudo o que foi filmado é matéria-prima para a confecção do objeto/filme final. (ALMEIDA, 2004, p. 31)

A experiência da oficina de vídeo procurou inverter a lógica de produção estabelecida pelo mercado cinematográfico, em busca de uma autoria coletiva, ao mesmo tempo em que se propunha a refletir sobre as etapas de produção e criação, sem pretender com isso concorrer ou comparar-se com o mercado audiovisual. Mas, só podemos inferir essa mudança de forças em relação à indústria do cinema, quando buscamos um novo olhar sobre a película: o olhar sensível sobre o produto da cultura.

Porém, o cinema não é só matéria para a fruição e a inteligência das emoções; ele é também matéria para a inteligência do conhecimento e para a educação, não como recurso para a explicação, demonstração e afirmação de idéias, ou negação destas, mas como produto da cultura que pode ser visto, interpretado em seus múltiplos significados, criticado, diferente de muitos outros objetos culturais, igual a qualquer produto no mercado da cultura massiva. (ALMEIDA, 2004, p. 32)

A experimentação do cinema na oficina buscou evidenciar a possibilidade de adentrar o espelho e conhecer o que existe além da moldura, em um espaço de criação coletivo, pois todos os estudantes participaram ativamente da construção do filme – desde as possíveis ideias, passando pela composição do roteiro, até as atividades de produção, de definição de espaços, figurinos, cenários, todos foram atores e técnicos. Gravaram o making of, fotografaram (still), pesquisaram, entrevistaram. Nessa concepção, a autoria é totalmente coletiva.

As conexões entre educação, cinema e formação docente aconteceram nesse processo dialógico de experimentação da linguagem cinematográfica. Durante a realização da oficina, os alunos escreveram alguns depoimentos sobre os sentidos que encontravam naquela vivência.

A experiência vivida na oficina de vídeo

Quem diria? A Nilma participando ativamente da construção de um filme. Digo isso porque era realmente algo, a princípio, impossível de acontecer dentro das minhas perspectivas de futuro.

A participação nesta disciplina me permitiu abrir os olhos para novos horizontes que antes nem eram por mim cogitados. Conhecer um pouco sobre cinema foi uma experiência bastante interessante e fascinante.

Outro grande aprendizado dentro dessa disciplina foi a questão da colaboração e da convivência em grupo. Foi possível perceber a necessidade do outro e do trabalho do outro. Aliás, esse tempo de convívio me permitiu fazer novos amigos e valorizar mais o trabalho em grupo.

Apesar de não termos terminado o filme ainda, creio que será uma emoção única quando o virmos pronto. O fruto do trabalho de todo o semestre, de discussões, ideias a princípio isoladas, pesquisa, sonhos e, como não podia faltar, de muita “ralação”.

Desta disciplina levo para a minha formação como profissional da educação a valorização de uma linguagem tão peculiar e tão instigante como a linguagem audiovisual, além de todo o aprendizado no sentido do trabalho em grupo. A reflexão sobre o papel da mídia na educação foi algo que passou a me preocupar com mais intensidade neste semestre devido a todo o conhecimento a que tive acesso sobre alguns aspectos técnicos da linguagem audiovisual.

Depoimento de Nilma Rosa de Matos, aluna da oficina de audiovisual

A reflexão do cinema como parte da formação docente também passa pela compreensão da linguagem cinematográfica. Porém, não serão descritas aqui as controvérsias históricas do estudo do cinema como linguagem, apenas destacaremos alguns elementos que contribuíram para a nossa caminhada.

Segundo Béla Baláz, quatro princípios caracterizam a linguagem cinematográfica:

– no cinema, existe distância variável entre espectador e cena representada, daí uma dimensão variável da cena, que toma lugar no quadro e na composição da imagem; A imagem total da cena é subdividida em uma série de planos de detalhes (princípio da decupagem);

– existe variação de enquadramento (ângulo de visão, perspectiva) dos planos de detalhe no decorrer da mesma cena;

– finalmente, é a operação da montagem que garante a inserção dos planos de detalhes em uma seqüência ordenada, na qual não apenas cenas inteiras se sucedem, mas também tomadas dos detalhes mais mínimos de uma mesma cena. A cena em seu conjunto é resultado disso, como se um dos elementos de um mosaico temporal fossem justapostos no tempo. (BALÁZ apud AUMONT, 1995, p. 163-164)

Os princípios apontados por Baláz remetem a uma nova visibilidade do homem; a linguagem cinematográfica, segundo o autor, é composta pela distância variável entre espectador e imagem, pelos enquadramentos e suas variantes, pela montagem como espaço onde acontece o ordenamento das imagens e pela inserção dos detalhes, dos planos próximos. A integração das cenas capturadas e justapostas criaria uma nova temporalidade: o tempo fílmico.

Para essa nova visibilidade, Baláz define: “Esta não é uma linguagem de signos substituindo as palavras, [...] é um meio de comunicação visual sem a mediação de almas envoltas em carne. O homem tornou-se novamente visível.” (BALÁZ, 1983, p. 79)

Christian Metz defende o cinema enquanto linguagem à luz da Linguística e da Semiologia:

É obviamente uma espécie de linguagem; [...] Ele possibilita, exige até uma decupagem e uma montagem: acreditou-se que sua organização sintagmática só podia se originar numa paradigmática prévia, embora apresentada como ainda pouco consciente de si mesma. É por demais óbvio que o filme é uma mensagem para que não lhe tenha imaginado um código. [...] Era necessário que o cinema fosse bom contador, que ele tivesse a narratividade no corpo, para que as coisas tenham alcançado e tenham permanecido desde então no ponto em que as encontramos hoje. (METZ, 2006, p. 55/61)

Baláz traduz os elementos que constituem a construção do cinema como linguagem – enquadramentos, ângulos, tempo, espaço etc. –, ao passo que Metz traz uma dimensão essencial para o nosso estudo, quando resgata a narratividade do cinema; conecta o desenvolvimento histórico do cinema com a sua capacidade de contar histórias.

O homem torna-se novamente visível, afirma Baláz; e essa visibilidade também está associada às histórias que o cinema conta através de mensagens, diz Metz. E, no âmbito deste trabalho, resgatamos Benjamin para falar das mensagens do cinema, das suas histórias que vêm de longe, dos grandes estúdios, dos estúdios de produtoras independentes ou de salas de aula, como o nosso projeto. Independentemente de sua origem, serão para os espectadores histórias de marinheiros, histórias de lugares longínquos, histórias que vêm de longe.

E, se o cinema é um contador de histórias, que histórias ele conta por meio de sua linguagem?

O cinema reproduz a realidade. [...] A realidade não é mais do que cinema em estado de natureza, daí resulta que a primeira e principal linguagem humana pode ser considerada a própria ação: enquanto relação de representação recíproca com os outros e com a realidade física. (PASOLINI, 1982, p. 162)

Pasolini nos aproxima de uma linguagem cinematográfica da realidade, uma linguagem que, por intermédio de sua própria representação, conta histórias de um mundo

natural e tudo aquilo que compõe a nossa realidade. Nesse sentido, a realidade pode ser um ponto de vista, como um enquadramento que realizamos da vida.

Nessa profusão de conceitos é que se procura enquadrar a linguagem cinematográfica entre uma linguagem técnica e ao mesmo tempo de sentidos, emoções, de histórias, da realidade. Encontramos Luis Buñuel, que trilha um caminho que buscamos seguir durante a jornada de construção do filme na oficina de audiovisual: “Nas mãos de um espírito livre, o cinema é uma arma magnífica e perigosa. É o melhor instrumento para exprimir o mundo dos sonhos, das emoções, do instinto.” (BUÑUEL, 1983, p. 336)

Apesar de associarmos a linguagem cinematográfica somente ao texto fílmico de imagens em movimento, ela também é composta pela expressão textual escrita do roteiro literário e do roteiro técnico; ambos antecedem as gravações.

O roteiro não é concebido para perdurar, mas para se apagar, para tornar-se outro. Objeto paradoxal: de todas as coisas escritas, o roteiro é a que contará com o menor número de leitores, talvez uma centena, e cada um desses buscará nele o seu próprio alimento: o autor, um papel; o produtor um sucesso; o diretor de produção, um percurso inteiramente traçado para a fixação de um plano de trabalho. (CARRIÈRE, 1996, p. 11)

Na sequência da oficina, iniciamos o trabalho com o roteiro. Para se contar uma história cinematográfica, o roteiro é uma etapa de construção fundamental, peça de orientação de todo o trabalho posterior. Foram apresentadas aos alunos algumas informações básicas sobre o roteiro literário.

Ilustração 5 - Exemplos de Lâminas apresentadas aos estudantes para o estudo sobre o roteiro de cinema.

Na oficina, os estudantes analisaram os roteiros dos filmes Abril Despedaçado, de 2001, roteiro e direção de Walter Salles, e Cidade de Deus, de 2002, roteiro de Bráulio Mantovani e direção de Fernando Meirelles. Elaboramos nossas primeiras cenas: os alunos foram divididos em dois grupos e iniciaram a escrita de dois roteiros, que seriam gravados experimentalmente na aula seguinte. No final, realizamos a leitura e o debate sobre as histórias, os grupos trocaram os roteiros, e cada um escolheu os atores quem iriam interpretar os personagens das cenas.

Roteiro elaborado pelo Grupo 1