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O ano de 1959 não traz muitas novidades, como argumentado, e suas reportagens sobre Brasília costumam ser apenas mensagens de Juscelino assegurando que o prazo será cumprido. Logo, não se considera importante citar extensamente as reportagens, mas torna-se interessante ressaltar uma ausência que é sempre preenchida pela vontade de um homem: o operário de Brasília. Esse parece não existir. Quem sempre surge acelerando as obras é Juscelino, quem parece pegar a mão na massa é Juscelino. É o que se vê em 30 de maio de 1959. O jornal garante: “Juscelino acelera Brasília”. A reportagem afirma:

O Presidente da República viajou ontem para Brasília onde assistirá, hoje e amanhã, a diversas solenidades de inauguração de novas obras da capital. Logo após o seu desembarque em Brasília, segundo informações da nossa sucursal, o sr. Juscelino Kubitschek passa a inspecionar, como faz habitualmente, as obras da NOVACAP.198

Isto é, se há algum problema de lentidão, a presença de Juscelino garante a aceleração das obras. Mas o que há de verdadeiramente interessante em 1959 é a insistência do jornal em propagar falas de membros da UDN que não estão de acordo com as de Carlos Lacerda. Serão apresentadas duas reportagens que ilustram bem o caso, e uma que esclarece: Brasília não devia ser uma questão partidária, mas de interesse nacional, como o jornal defendia e como Juscelino Kubitschek defendia. Em 10 de junho de 1959, o Diário publica: “Udenista exalta Brasília”:

No decurso da visita que fez a esta cidade, o deputado Seixas Dória, da UDN de Sergipe, declarou que o Rio de Janeiro já não oferece mais condições para o funcionamento do governo federal e que Brasília vai oferecer aos parlamentares melhores condições de trabalho. Após percorrer vários canteiros de obras, disse o sr. Seixas Dória que vale a pena o esforço da edificação de Brasília porque, além do fator preponderante de sua contribuição para a unidade nacional, a futura capital vai possibilitar os meios para uma rápida recuperação de vasta zona do país.199

Nada melhor para um jornal como o Diário, que desde 1956 defende a construção de Brasília, poder citar um membro do partido oposicionista, cujo um dos membros, Carlos Lacerda, atacava vigorosamente a construção da cidade, como um pró-mudancista.

A reportagem não é aleatória, o que é esclarecido pelo editorial do Diário em 30 de agosto de 1959 justamente sobre a relação entre UDN e Brasília. O editorial é esclarecedor sobre a

198 Diário, 30 mai. 1959. p.1. 199 Diário, 10 jun. 1959. p.3.

vontade do jornal de encontrar dentro da UDN quem seja favorável e quem esvazie as críticas feitas por Carlos Lacerda. O artigo de fundo é menos uma reflexão geral sobre a atitude do partido sobre Brasília, e mais um ato de louvor às ações do líder da UDN na Câmara dos Deputados, o deputado Rondon Pacheco200. Seguem-se as principais partes do editorial chamado “UDN e Brasília”:

As declarações que o deputado Rondon Pacheco fez sobre Brasília e outros temas da mudança da capital, não apenas enchem de satisfação os construtores daquela obra gigantesca e os seus adeptos entusiasmados, mas, sobretudo, o atual líder da UDN que, na Câmara dos Deputados, vêm dando sucessivas provas de capacidade e sinceridade no exercício das novas funções.201

Notamos que falar bem de Brasília, o grande símbolo do governo Juscelino, rendeu ao udenista grandes elogios e consideração por parte do editorial. Mas o que ele disse?

O sr. Rondon Pacheco não consentiu que sua emoção autêntica fosse desvirtuada por frios critérios de tática política. De coração aberto, transmitiu suas impressões, que são as palavras de um brasileiro integrado no destino de sua pátria e um homem integrado na verdade do seu caráter: ‘Ninguém imagina mais que Brasília é hoje uma magnífica realidade – declarou o líder da UDN – e que funcionará como força centrífuga para convocar as iniciativas de todos os quadrantes do país.’202

O Diário continua com uma de suas principais argumentações: Brasília é uma obra de interesse nacional que não pode ser questionada por motivos políticos; como alguém pode ser contra a obra se não for, ao mesmo tempo, contra o desenvolvimento da nação? Contra – como em editorial analisado anteriormente – a vontade do Brasil desde os tempos coloniais? Não está dito claramente, mas a consequência lógica é que ser contra Brasília era, para o Diário, ser contra o Brasil. Mas não Rondon Pacheco, ele era um homem privilegiado:

O sr. Rondon Pacheco demonstra que sabe distinguir entre os motivos político-partidários e o interesse nacional, que prevaleceu em suas palavras. Sabe que Brasília não é improvisação de um governo ou o

200

Deputado federal pela UDN/MG entre 1951-1967. Também foi governador de Minas Gerais entre 1971-1975. 201 Diário, 30 ago. 1959. p.1.

sonho de um homem, mas uma aspiração histórica da nacionalidade, manifestada em quase duzentos anos desde a Inconfidência Mineira.203 Há uma novidade na última parte: Brasília não é o sonho de um homem. Como combinar com o percebido em outras reportagens e editoriais que louvam a vontade de Juscelino Kubitschek? Não se vê incompatibilidade. Juscelino é apresentado, afinal, como o homem que teve coragem e vontade de realizar a aspiração histórica da nacionalidade. Foi uma vontade individual que entrou em comunhão com uma vontade de duzentos anos de uma nação em construção que possibilitou Brasília.

Para o que interessa para o trabalho, o ano de 1959 termina sem mais citações: reforçando o caráter nacional e extrapartidário de Brasília, criticando quem ousava criticá-la como pessoas de pouca visão e “políticos”. Como se Brasília devesse ser incontestável e desejada por todos que realmente amassem o Brasil.